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O passado no presente

Museu de Arte Sacra  mantêm viva história tipicamente brasileira

Por Raquel Almada

É nato do ser humano buscar sempre a descoberta, difundindo o que desvendou para todos. Mas nem sempre o desconhecido é o novo. Às vezes, uma simples construção à base de pau a pique e taipa de pilão, uma naveta e até mesmo uma espevitadeira se tornam novas ante o olhar deslumbrado de alguém que nasceu em uma civilização pós-moderna, que se renova e inova diariamente. Mesmo inserido em uma sociedade tecnológica que é São Paulo, essa experiência ainda é possível, basta ir ao Museu de Arte Sacra de São Paulo.

Perpetuando obras dos séculos XVI ao XX, o Museu, inserido no Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz, possui um autêntico relicário com mais de 4000 peças sacras e religiosas. Sua coleção começou a ser organizada em 1970, pelo primeiro arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva.

 

 

Lateral do Museu de Arte Sacra

 

Distribuídas na ala antiga do Mosteiro da Luz, ao lado direito da entrada principal, situada na Avenida Tiradentes, as obras vão desde o rústico santo de vestir São Benedito, do século XVIII – santo de procissão com rosto e mãos bem delineados e articulações e tronco formados por ripas de madeira para poder trocar as vestes – até objetos numismáticos tão valiosos que se encontram em um grande cofre, aberto para visitação.

Misturando obras religiosas com a arte sacra, sendo a última feita apenas para ornamentar as igrejas, o museu apresenta desde artistas renomados até os sem muita fama. Alguns realmente desconhecidos, pois na época áurea os artistas diziam que eram instrumentos de Deus e por isso não queriam glória para si, não colocando nome em suas obras.

Quadros religiosos de Anita Mafaltti e obras barrocas de Manuel da Costa Athayde estão lado a lado com um cadeiral de jacarandá do século XVIII e quadros pintados no final dos anos 60 pelo artista José Antônio da Silva, que usava a pintura naif, com cores vivas e traços livres retratando a cultura religiosa da cidade de São José do Rio Preto naquela época.

Através de imagens, esculturas, muito ouro e prata, o espectador tem a oportunidade, muitas vezes única, de conhecer a história de nosso povo e sua intrínseca ligação com a religião.

 

 

Dissabores ao longo de três séculos

 

O Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, nome original do Mosteiro, fundado em 1774 por Frei Antonio de Sant’ Anna Galvão, é um patrimônio histórico tombado, fazendo parte da história da cidade.

Com sua arquitetura colonial do século XVIII, é o único lugar em São Paulo que preservou a estrutura original, seus materiais e elementos, sendo possível ver como eram feitas as amarrações da época, sustentadas pela taipa de pilão e as colunas e paredes feitas de pau a pique.

O Museu abriga um cemitério interno, com sepulturas denominadas carneiros – gavetas onde as monjas fundadoras do Mosteiro estão inumadas. Em meados de 1997, em função de reformas estruturais do Mosteiro foi detectada a infestação de cupim subterrâneo exótico, popularmente conhecido como cupim praga. Após descupinização eles ainda continuavam no local. Um ninho foi detectado nas paredes de taipa de pilão, na sala onde se encontra o cemitério.

 

Vista frontal do Mosteiro da Luz

 

Para a erradicação dos cupins, foi necessário fazer escavações nos carneiros mais próximos à parede de taipa, onde poderiam estar outros focos da praga. Porém, segundo relatos, havia um corpo mumificado, o que gerou um maior trabalho, pois precisava ficar intacto. Mas, ao abrir a gaveta, constatou-se que a múmia já estava danificada pelos cupins. Feito o trabalho, tudo permaneceu como em seu contexto arqueológico de origem.

Sacralização ou interatividade?

A função do museu é manter viva a história de determinada civilização e suas épocas e correntes artísticas, educando e trazendo conhecimento, mas, em função da multifuncionalidade que a tecnologia trouxe para os seres humanos, a maioria dos museus tem perdido sua essência, com o receio de se tornarem lugares retrógrados.

Para Juliana Reis, 26 anos, formada em letras e educadora do ensino estadual, a multifuncionalidade dos museus tem seus pontos positivos e negativos. “Vivemos em uma época onde a tecnologia está presente na maioria dos ambientes sociais. Porém, quando se trata de museus não podemos reduzi-los a lugares de turismo e lazer em detrimento do seu papel essencial que é promover a curiosidade do jovem sobre a veracidade dos documentos e obras ali existentes”, conclui.

Com isso, muitos museus sofrem uma despersonificação, deixando de exercer seu papel principal que é ensinar a história do nosso passado. Com tantas atividades, o aprendizado torna-se entretenimento e as pessoas voltam para casa com lembranças de um momento divertido que passou, mas sem aprender sobre o que viu no local.

Seguindo o principio da busca pelo conhecimento, o Museu de Arte Sacra mantém até hoje os padrões de um autêntico museu, onde é possível uma viagem pelo tempo, ativando o nosso imaginário para como seria o modo de vida das épocas áureas. Prova disso está na manutenção da estrutura do Mosteiro, feita de pau a pique e taipa de pilão, uma maneira rudimentar, mas que permanece de pé até os dias atuais.

O Museu de Arte Sacra está sofrendo as conseqüências desta multifuncionalidade. Em pesquisa feita no site do Museu, para a pergunta: “Já visitou o Museu de Arte Sacra?”, 53,1% dos participantes responderam que sim e 46,9 % não conhecem o local. Com inicio em 14 de maio deste ano, o resultado representa uma falta de conhecimento para obras tão importantes.

No site do Museu é possível fazer um tour virtual, mas nada se compara a conhecer pessoalmente. “É extremamente importante se aproximar fisicamente dos objetos expostos. Olhar, reparar os detalhes que o artista se esforçou para transmitir, formam opiniões mais embasadas, consolidadas com características individuais”, conclui a educadora.

Com a má conservação e a falta de interesse das pessoas, muitos museus estão perdendo sua vitalidade, tornando-se mausoléus. Cabe conscientizar as crianças, que estão nascendo em um ambiente quase que virtual em sua totalidade, que ainda há lugares para se visitar. “O exercício de propor a investigação e conseguir manter uma comunicação verdadeira acerca de um museu será um grande desafio daqui para frente. Não podemos negar que as inovações tecnológicas podem colaborar para a manuntenção de acervos que com o passar do tempo irão ser instintos”, finaliza Juliana.

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Categorias: Atena, Turismo

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