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A liberdade de não ser

Por Lucas Marcelino

Quantas vezes uma lenda precisa ser contada para se tornar verdade? E como deve ser uma história real para se tornar lenda?
Você com certeza conhece a lenda de Mogli, o menino lobo. O mito surgiu no conto O livro da selva de Rudyard Kipling, mas tem uma origem bem mais antiga e autêntica de onde se suspeita que o autor tenha se inspirado. A estória de Mogli é tão famosa e surpreendente que despertou o interesse dos estúdios Walt Disney, que criaram uma animação infantil com ela.
Na verdade, a história verdadeira é um dos momentos mais importantes e debatidos da psicologia do desenvolvimento. Inúmeros estudos surgiram após a descoberta de um garoto selvagem, com cerca de 12 anos, encontrado em Aveyron na França, no ano de 1800.
O menino foi encontrado numa mata, próxima a um vilarejo e logo se tornou uma celebridade na região. A recém-criada Sociedade dos observadores do homem interessou-se imediatamente pela criatura exótica que vivia na mata e não sabia falar. Logo que foi capturado, ele foi enviado para a sede da Sociedade em Paris, onde foi submetido a um diagnóstico pelo famoso psiquiatra Phillip Pinel que o considerou não um selvagem, mas um idiota – termo usado na época para identificar pessoas com alguma deficiência mental.
Era muito comum recém-nascidos com suspeita de deficiência serem abandonados pelos pais em bosques ou em conventos da Igreja Católica, onde eram deixados na roda dos expostos – uma abertura no muro dos conventos com divisórias que impediam a identificação do desertor. O garoto provavelmente foi deixado no bosque onde conseguiu sobreviver milagrosamente.
Após o diagnóstico de Pinel, ele foi enviado para uma instituição de surdos-mudos, pois não se comunicava. Jean-Pierre Itard – médico humanista – foi incumbido do caso e logo considerou que o garoto poderia se transformar pela educação, dando o sugestivo nome de Victor pela confiança na vitória e aplicando métodos pedagógicos para desenvolver a fala e o convívio social.
O médico determinou metas e com o garoto em sua casa passou a educá-lo com atividades simples, sempre anotando as reações de Victor e os resultados obtidos. A partir dessas anotações, o famoso cineasta francês François Truffaut produziu o filme-documentário “O garoto selvagem”. No filme todo rodado em preto e branco para fortalecer as características de um documentário, o próprio cineasta atua no papel do médico por entender que era preciso compreender a motivação que o levou a tratar uma criança renegada – o que ele não havia encontrado em nenhum ator.
Embora obedeça as limitações da extensão e da forma de linguagem do cinema, o filme proporciona grande conhecimento sobre o caso, com cenas onde se encontra grande perfeição na representação dos atores, inclusive no papel do garoto. Nele é possível entender a realidade da época em que ocorreu o fato adicionado da força da linguagem do cinema na época da gravação. Para os que assistem sem conhecer a história ele pode parecer uma ficção, mantendo o espectador preso até o final. Para os que têm conhecimento do assunto é quase impossível não refletir sobre os métodos de educação e psicologia empregados para analisar o desenvolvimento e a inteligência humana.
Após 14 anos tentando ensinar o garoto a falar, Itard – e o governo da mesma forma – resolveu abandonar o projeto, deixando o garoto aos cuidados da governanta, numa casa vizinha à do escritor Victor Hugo.
Toda a situação acaba se ligando a grandes frentes da psicologia, filosofia e sociologia, envolvendo diversos pensadores como: Piaget, Darwin, Vygotsky, Rousseau, entre outros que tentaram determinar quais condições são mais importantes para a evolução da inteligência humana. As condições ambientais com Darwin e Piaget ou as sociais com Vygotsky e Rousseau.
A dúvida principal é se o garoto realmente precisava, merecia e desejava ser um humano, na concepção cognitiva, ética e social.

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Categorias: Atena, Cinema

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