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Arnaldo Baptista em grande estilo

Por Lucas Marcelino

O maior gênio da música brasileira ou o maior gênio de uma família de gênios da música brasileira.

Tom Jobim, Raul Seixas, Hermeto Pascoal, Caetano Veloso, Villa-Lobos? Não. Arnaldo Baptista.

Talvez você não o conheça. Por isso mesmo este documentário é um ótimo caminho para começar a apreciar a obra de um dos artistas mais criativos da nossa história.

Irmão mais novo de uma família recheada de grandes artífices da música, Arnaldo Dias Baptista, teve o privilégio de nascer num nicho de músicos excepcionais. Sua mãe era uma pianista da maior qualidade, primeira mulher a escrever um concerto para piano e ópera no mundo. O irmão do meio é nada mais nada menos que Sérgio Dias Baptista, talvez o melhor guitarrista brasileiro e constantemente apontado entre os melhores de todos os tempos pelas listas internacionais. O irmão mais velho – esse eu duvido que você conheça, sem antes conhecer os outros – é Cláudio Dias Baptista. Luthier renomado e criador de diversas obras-primas como as guitarras Régulus e Kyer – utilizadas por Sérgio durante a carreira – e a Guitarra de ouro e sua maldição, sem contar os diversos pedais que deram a sonoridade única à banda, como o clássico pedal feito a partir de um pedal de máquina de costura. Ele ainda é responsável pelo livro Géa, que tem a previsão de ser obra-prima da literatura mundial e conta com doze volumes mais um glossário, mais volumoso que os antecessores, para auxiliar no entendimento dos mais de trinta mil verbetes diferentes utilizados. Número maior que o de Shakespeare.

O documentário retrata de forma crua a vida e obra de Arnaldo Baptista. Lançado na mesma época de outros grandes documentários musicais destacou-se nos festivais, onde foi constantemente premiado, pelos depoimentos entusiasmados de figuras ilustres e desconhecidas e, principalmente, por resgatar do ostracismo o homem que já foi venerado em todo o mundo. Com o sucesso, chegou a ser exibido em algumas salas de cinema pelo país.

Nas duas horas da película é quase impossível não sentir a magnitude da história de Arnaldo. Seja nos depoimentos do primeiro parceiro musical da época dos Six Sided Rockers, nos depoimentos de artistas consagrados como Lobão, Tom Zé, Gilberto Gil, Liminha, Zélia Duncan, Roberto Menescal e o Irmão Sérgio Dias, etc.

Entre estes se destacam alguns que poderão causar surpresa e despertarão o interesse por esse monstro para aqueles que ainda não o reverenciam: Sean Lennon (filho do John Lennon) e Devendra Banhart demonstram o valor da música de Arnaldo para o mundo e Kurt Cobain (o próprio) aparece numa entrevista vangloriando o tecladista, inclusive com uma carta escrita para ele durante sua passagem no Brasil. A intensidade, naturalidade e crueza dos depoimentos são reforçadas pela sustentação dos fatos históricos citados por Nelson Motta e Tárik de Souza.

Toda a vida e obra do Arnaldo foram intensas e isso fica bem claro para quem assiste. A carreira e liderança nos Mutantes são citadas no início. Em seguida a ênfase é dada ao amor por Rita Lee, que o levou a uma depressão e à primeira internação em um manicômio. Aqui vale ressaltar declarações onde os Mutantes são inocentados da expulsão de Rita Lee do grupo, motivo pelo qual ela se diz injustiçada e nega até mesmo citar o nome da banda – mas a falta de seu depoimento na verdade não faz falta a esse filme maravilhoso.

Após a saída dos Mutantes o tema principal é a loucura que toma conta do nosso Loki pelo abuso de LSD, chegando ao convite para um amigo pilotar a nave espacial que ele estava construindo. As viagens (e busca pela perfeição) musicais e psicológicas destruíam sua carreira e sua existência, culminando na tentativa de suicídio quando ele saltou do quarto andar de um hospital e sofreu lesões cerebrais graves. Aqui poderia ter acabado a carreira como acabaram a de tantos outros gênios – Syd Barret do Pink Floyd e Peter Green do Fleetwood Mac, por exemplo, terminaram em hospícios. Mas o ciclo da vida quis que a geniosidade voltasse à roda da existência depois de quatro meses de coma.

A seqüência do filme mostra a busca pela recuperação, com a aparição de Lucinha Barbosa que muda com o artista para Minas Gerais (onde ele descobre a pintura), com John da banda Pato Fú, que o traz de volta às gravações em Let it Bed, e com a volta triunfal dos Mutantes na exposição sobre o Tropicalismo, na Inglaterra e o show histórico para oitenta mil pessoas no aniversário de São Paulo.

Alheia e complementar ao clima do filme está presente em todos instantes a trilha sonora. Desde as criações entusiasmadas e enérgicas dos Mutantes até as melancólicas confissões dos discos solos. A carreira na Patrulha do Espaço, discos históricos e inovadores contribuem com músicas maravilhosas. Mas é o disco Loki?, que recebe a maior louvação durante o filme todo. E com total merecimento, pois neste acetato estão gravadas algumas composições que formaram uma das maiores obras-primas da música nacional, que como o seu criador seguem quase esquecidas, lutando contra a fábrica de sucessos para que a loucura possa embelezar nossas vidas. Pois como diria a Balado do Louco: “Se eu sou muito louco por eu ser feliz, mais louco é quem me diz e não é feliz”.

E aqueles que se deliciarem dessa sabedoria-louca ou sábia-loucura provavelmente terão dias mais tecnicoloridos, como os quadros pintados pelo gênio da música. Coisa de Loki mesmo, não?!

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Categorias: Atena, Cinema, Música

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