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Cinema

Em cartaz: Cidadão Tio Sam

Produções alternativas são sufocas pelo cinema estadunidense

por Soraia Alves

Embora a hegemonia do cinema americano ainda seja indiscutível como os números  mostram (na Europa e na América Latina cerca de 80% das bilheterias são exclusivamente de filmes americanos), outros países têm investido no mercado cinematográfico e materializado suas ideias em filmes do chamado cinema alternativo. Chegar ao maior número possível de telas de cinemas em todo o mundo geralmente não é fácil para quem embarca nesse cinema alternativo e o glamour dos tapetes vermelhos pode ser ofuscado pelas dificuldades de se conseguir um simples patrocínio.

Os tradicionais festivais de cinema que teoricamente deveriam explorar as diversas nuances do segmento, acabam fortalecendo ainda mais a ideia de que filme bom é filme vindo dos Estados Unidos. Essa ideia é transmitida em forma de estatuetas e prêmios que enfatizam nomes conhecidos do grande público como que para garantir o “prestígio” das premiações.

O 67° Festival de Veneza foi mais uma mostra do poder americano em premiações tituladas como mundiais. Dos 23 filmes concorrentes ao Leão de Ouro, 6 eram produções yankees. Considerando que trata-se de uma competição mundial e que os próprios anfitriões italianos concorreram com apenas 4 filmes, sim ainda temos uma predomínio do país do Tio Sam. A presidência do júri também não deixa dúvidas quanto ao país que se destaca, um estadunidense que atende por Quentin Tarantino, que por sinal não agradou muito aos críticos internacionais. Luiz Zannin Oricchio, do Estadão chegou a declarar que “poucas vezes na história dos grandes festivais um presidente de júri ditou a premiação de maneira tão pessoal como Quentin Tarantino nesta 67ª edição do Festival de Veneza”. A crítica é justificada pelas premiações com o Leão de Ouro para Sofia Coppola (ex-namorada de Tarantino e filha de Francis Ford Coppola) pelo filme Somewhere, outro Leão de Ouro “pelo conjunto da obra” para seu ex-mentor Monte Hellman por Road to Nowhere e o fato de Tarantino ter fugido às regras do festival que proibia prêmios acumulados dando dois troféus ao filme espanhol Balada Triste de Trompeta e outros dois a Essential Killing. Tarantino chegou a ser vaiado ao entrar na sala de imprensa e não pensou duas vezes antes de mandar um fuck you em alto e bom som aos jornalistas presentes.

As polêmicas do Festival de Veneza não se restringem às atitudes do presidente do júri. Antes mesmo do início da premiação, a notícia de que o cineasta iraniano Jafar Panahi estava proibido pelo governo de seu país de viajar rumo à Itália, já chamou a atenção da imprensa internacional. O diretor que teve seu curta- metragem, O Acordeão exibido no festival, foi libertado em maio da prisão onde ficou 88 dias por ser acusado de estar produzindo um filme contrário ao governo iraniano.  Para ele “quando um cineasta não tem permissão para produzir filmes, é como se sua mente ainda estivesse presa. Talvez ele não esteja preso em uma pequena cela, mas continua perambulando dentro de uma prisão muito maior“.

O problema da censura é apenas mais um a ser enfrentado por cineastas e produtores que se aventuram no mundo do cinema alternativo. Lutar contra o poderio cinematográfico americano é como ser um soldado lutando contra todo um batalhão. Por melhor que ele seja, inevitavelmente será massacrado pela maioria. De acordo com a Unesco,  em 1968 os filmes americanos já somavam 75% das exibições no Brasil, e com o passar dos anos as estatísticas só aumentam.

As ideias ficam no papel, dependendo de diretores, gerentes de marketing e empresas que resistem ao máximo investir nessas ideias. O motivo da resistência é o fato de as produções não apresentarem histórias comerciais e que não se encaixam na indústria da cultura de massa. Não são histórias que mostram fantasia,  merchandising ou a felicidade conquistada (ou seria comprada?). São histórias de caráter crítico, denúncias e que visam exatamente contrariar a indústria do entretenimento. Um bom exemplo são os filmes nacionais que mostram a realidade vivida na favela, os esquemas do tráfico e da corrupção em meio à belas paisagens e a vida da população, filmes que não exaltam o padrão de vida americano.

Se a expressão “imperialismo cultural”  não é mais tida como usual, a realidade de sua influência é ainda indiscutível quando o assunto é a indústria audiovisual. Talvez, de fato, falte interesse do público em produções alternativas. Talvez seja mais confortável assistir à uma história em que o mundo é salvo por um super-herói ao invés de refletir se  há alguma saída efetiva para a violência urbana. Mas a realidade é que a sétima arte é fonte (e das grandes) de dinheiro e na corrida para ver quem fatura mais os mestres do capitalismo levam vantagem, sempre.

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Categorias: Atena, Cinema

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