Anúncios

A era do Caos Aéreo

Aeroporto de vergonhas

Por que o Brasil ainda não realizou decolagens e pousos com sucesso

 por Érica Perazza

A morte de 154 pessoas devido ao choque entre o jato Legacy e um Boeing da Gol em setembro de 2006 e logo depois, as imensas filas e atrasos de vôos que se seguiram em todos os aeroportos, deram início a era do Caos Aéreo. Outros acidentes como o de julho de 2007, considerado o pior acidente aéreo da história da América Latina e um dos trinta piores na história da aviação mundial, envolveram o voo 3054 da TAM e 199 vítimas fatais, dentre elas 181 que estavam no avião e mais 18 pessoas que trabalhavam no edifício da TAM Express ou que transitavam na rua. Além do mais, a greve branca dos controladores de voo e ainda a falência de uma das mais antigas e renomadas companhias, a Varig, intensificaram os pandemônios no setor. Desde então, os céus nunca mais foram os mesmos.

Definiu-se uma cronologia para a crise começando pelo acidente da GOL. Mas a verdade é que o setor de transporte aéreo vem tendo problemas há mais de 15 anos, ou seja, os acontecimentos passados serviram apenas de estopins.

Nos últimos três anos, o movimento de passageiros no país cresceu em ritmo acelerado, porém o investimento oficial em infra-estrutura de controle aéreo, equipamentos e formação de equipes foram reduzidos quase à metade.

No primeiro semestre de 2010, o Aeroporto Internacional de Viracopos em Campinas (SP), recebeu o dobro de passageiros em relação ao ano anterior. Foram aproximadamente 2,4 milhões de pessoas que embarcaram e desembarcaram de voos, em sua grande maioria, impulsionados pelo crescimento da Azul.

Um estudo sobre o setor aéreo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mostra que os dez aeroportos mais importantes do Brasil estão com a sua capacidade para atender à demanda de pousos e decolagens esgotada. O IPEA ainda destacou que “situações preocupantes são aquelas em que o nível de utilização das instalações suplanta 80% de sua capacidade. Quando o nível de utilização das instalações supera a capacidade instalada ocorre uma deterioração do nível de serviço. Nesses casos, dependendo do percentual alcançado, está-se beirando o colapso operacional”.

O Aeroporto de Congonhas é o segundo mais movimentado do país. Entre 1986 e 1994, só fazia ponte-aérea e a partir de 1995 passou a fazer até algumas operações internacionais. Anteriormente, recebia cerca de seis milhões de pessoas por ano. A partir do ano de 2000, com a entrada de companhias aéreas que cobram tarifas reduzidas, o número de passageiros passou de uma média de cinco milhões no ano de 1997 para mais de 18 milhões só no ano de 2006. Com isso, aumentaram os pedidos de pousos e decolagens por hora. A capacidade de Congonhas é de 24, mas são 35 pedidos, aproximadamente uma aeronave por minuto. O que torna hoje necessária uma ampliação de seu porte em 350% do atual. Já no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, sua capacidade inicial de 53 pousos e decolagens por hora, atinge até 65 pedidos de pouso e decolagem em horário de pico.

Josef Barat, ex-diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que atuou como consultor da pesquisa, ressalta que a solução do problema passa necessariamente por investimentos nos aeroportos, sejam eles feitos pela Infraero ou por meio da iniciativa privada. Dessa forma, ele menciona cinco sugestões: abertura do capital da Infraero, com a conseqüente captação de recursos no mercado financeiro; concessão à iniciativa privada por lotes de aeroportos rentáveis e não rentáveis, com obrigação de investimentos; concessão à iniciativa privada apenas dos aeroportos rentáveis; construção de novos terminais nos aeroportos saturados por meio de parceria público-privada (PPP) ou concessão à iniciativa privada; e, por fim, construção de novos aeroportos por PPP ou concessão.

Para superar as dificuldades no setor, o IPEA também destacou que o governo terá de conter os recursos utilizados em aeroportos que não possuam necessidades de demanda prioritárias, e distribuir os investimentos de acordo com a demanda e a segurança exigidas em relação aos terminais, pátios, pistas e tecnologia. Assim o instituto acredita que será possível estimular o crescimento e a popularização do transporte aéreo no Brasil, mas pensando a médio e longo prazo. E a próxima Copa está aí.

Perto de atingir sua capacidade anual, Viracopos receberá ampliações como a construção de uma segunda pista. O custo estimado das reformas é de R$580 milhões e a entrega será em cima da hora, no início de 2014, pois o licenciamento ambiental ainda não tinha sido concluído para começar em setembro de 2009.

Além da crise no setor e a falta de investimentos, a especulação imobiliária “verticalizou gigantesca e criminosamente Moema, Indianópolis, Campo Belo e Jabaquara. Quando Erundina foi prefeita, lembro-me da grande quantidade de edifícios projetados para esses bairros e cuja construção foi proibida ou embargada, mas que subiram aos céus sem problema a partir de 1993. Por quê? Qual a responsabilidade da Prefeitura e da Câmara Municipal?”, pergunta-se Marilena Chauí, filósofa, historiadora de filosofia brasileira e professora da USP.

Ela também critica que a mídia deixou em silêncio “a péssima atuação da TAM, que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes, desde 1996, três deles ocorridos em Congonhas e um deles em Paris – e não dá para dizer que as condições áreas da França são inadequadas!”. Segundo Marilena, “a supervisão dos aparelhos é feita em menos de 15 minutos; defeitos são considerados sem gravidade e a decolagem autorizada, resultando em retornos quase imediatos ao ponto de partida; os pilotos voam mais tempo do que o recomendado; a rotatividade da mão de obra é intensa; a carga excede o peso permitido”. Além disso, controladores de vôo são submetidos a péssimas condições de trabalho como baixos salários e a inexistência (ou em condições precárias) de equipamentos necessários para gerenciar o tráfego aéreo.

Cumbica e Congonhas, Santos Dumont e Tom Jobim, juntos representam 41% dos voos do país. São executivos, atletas, estudantes, políticos e familiares que dependem do serviço de transporte aéreo para chegarem aos seus destinos. Mas as turbulências são muitas. O Brasil ainda não conseguiu decolar ou pousar com sucesso neste aspecto. Precisamos de rotas alternativas e uma tripulação (governo, autoridades, companhias e a mídia também) que seja responsável e saiba atender passageiros e cidadãos com ética e responsabilidade.

Anúncios

Tags:, , , , ,

Categorias: Território Nacional

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: