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Saúde

Gastronomia genética

Esclareça suas dúvidas sobre gorduras e transgênicos

 

por Lucas Marcelino

Quando você vai comprar um filme ou alugar – para os nostálgicos – e você ainda não tem noção sobre a história retratada ali, a sua tendência é primeiramente conferir quais são os atores principais do filme tendo como referência o histórico de performances de qualidade. Em seguida você vira embalagem e lê na contracapa a sinopse para saber o que aborda a trama.

Quando você vai até uma loja de artigos musicais – sejam elas cd’s, dvd’s, blu-ray’s ou discos, novamente para os nostálgicos e alguns moderninhos – buscar o lançamento do seu artista favorito, uma energia lhe puxa para a prateleira de ofertas. Ali, invariavelmente, está um daqueles discos que você gosta mas só compraria por uma mixaria. A situação é justamente esta e qual é a sua tendência? Virar a embalagem e conferir quais são as músicas que compõem o disco, para conferir se existe algum grande sucesso ou uma pérola oculta.

Quando você vai ao supermercado fazer compras – sejam de emergência ou aquela compra do mês – sua tendência é percorrer a prateleira em busca daquele seu produto preferido, pegá-lo, jogá-lo no carrinho e correr para a fila do caixa. Não sem antes puxar um pacote de salgadinhos para comer no caminho de volta para casa. Mas por que você não agiu como nas outras ocasiões e conferiu entre a diversidade de produtos disponíveis o que é mais saudável ou mais em conta?

No livro Madame Bovary de Gustave Flaubert, a personagem Sr. Homais é o boticário de uma vila na França onde se passa o romance. Dentre uma de suas passagens ele diz: “Quisera Deus que nossos agricultores fossem químicos ou pelo menos escutassem mais os conselhos da ciência.”

Com algumas adaptações esta citação se adequaria perfeitamente nas circunstâncias acima. Visto que ainda hoje as pessoas correm desgovernadamente para qualquer refúgio que possa salvá-las das questões e até soluções da ciência para fatos do cotidiano.

Um exemplo simples ocorre a todo instante com inúmeros consumidores. Comprar produtos seguindo indicações alheias é uma atitude constante na vida dos brasileiros, que nem sempre sabem pelo que estão pagando. Provavelmente em uma de suas incursões pelos corredores do supermercado, você se deparou com uma quantia enorme de marcas diferentes para um mesmo artigo e na hora de escolher, a dúvida pairou sobre sua cabeça. Escolher pela marca, pelo preço, o mais tradicional ou experimentar?

Nos últimos anos, um dos produtos que teve mudanças significativas seja na área científica ou nos conceitos populares foi o óleo de soja. E muitas dessas mudanças puderam ser acompanhadas em um local totalmente acessível, que foi criado exatamente para chamar a atenção dos consumidores. O rótulo.

Nenhuma das informações obtidas na matéria provém de dados sigilosos ou protegidos de alguma forma, demonstrando que é possível adquirir um enorme conhecimento sobre o que está sendo consumido.

Ao decorrer da última década, com o crescimento econômico e o desenvolvimento de tecnologias, um grande número de marcas surgiu nas prateleiras estimulando a concorrência e o primor pela qualidade. O que pouca gente sabe é que na verdade existem poucas fábricas e distribuidoras de óleo. A produção de soja no Brasil é praticamente toda comercializada antes mesmo da colheita e é quase impossível que um novo membro surja nesse meio para desestruturar esse arranjo e passar a competir com as grandes corporações do ramo. Sabe aquela marca ignorada que desperta suspeitas ou uma marca tradicional em outra área que passou a contar com o óleo entre sua linha de produtos? Provavelmente ela compra o óleo puro ou refinado da Bunge S.A. e apenas engarrafa na sua própria fábrica, dessa forma grande parte daquelas embalagens contém o mesmo produto, da mesma plantação, com a mesma qualidade. E com preços extremamente opostos.

As pesquisas científicas revelaram grandes novidades para os apreciadores das frituras. Antes tido como vilão do coração por elevar os níveis de colesterol, hoje o óleo de soja – e outros tipos de óleo vegetal comestível – se não é endeusado pelo menos já “grita” em seu rótulo que não possui colesterol e vai mais além ao se proclamar livre de gorduras trans. As gorduras trans foram o vilão preferido dos meios de comunicação nos últimos tempos, só que o rótulo revela outra faceta aos olhos mais atentos. O óleo de soja contém em média 22% de gorduras totais em sua composição, ou seja, quase um quarto da embalagem é pura gordura.

As gorduras na verdade fazem parte de um grupo químico maior, chamado de lipídios, que por sua vez, faz parte dos ésteres, que constituem as essências e as ceras. Esses compostos são formados por organismos vivos a partir de ácidos graxos e glicerol. No óleo de soja 9% da desses lipídios são saturados, denominados assim como gorduras, que possuem origem animal e mantém-se em estado sólido à temperatura ambiente e liquefeitos geralmente pela ação de catalisadores. O restante das gorduras totais é formado por lipídios insaturados, que tem origem vegetal e formam os óleos vegetais, de consistência líquida. A margarina, por exemplo, é formada através da saturação de lipídios insaturados através da adição de hidrogênio, diferenciando-se da manteiga feita de leite que contém gordura animal de composição saturada. A margarina foi desenvolvida para promover a diminuição de custos e a industrialização não obtidas com a manteiga, pagando com isso o preço de não conter os nutrientes do leite, que são adicionados artificialmente. Todas essas gorduras são prejudiciais e podem formar placas nas artérias, levando a problemas cardiovasculares.

Tornar-se livre de colesterol foi um grande progresso para os óleos vegetais e para o próprio homem, mas a maior alegria – ao menos para os poucos grandes produtores – foi o desenvolvimento da biogenética. Praticamente todos os óleos embalados, tanto pelas grandes companhias quanto pelas novas concorrentes, é produzido através de soja transgênica. Algumas delas trazem impresso nos rótulos a identificação padrão – um pequeno triângulo amarelo com um “T”.

A soja transgênica foi criada pela necessidade de se encontrar uma planta que fosse resistente ao pesticida glifosato. O glifosato, comercializado sobre o nome de Roundup, é um herbicida não-seletivo, ou seja, agride todo o tipo de planta que estiver na área sobre o qual for aplicado, sendo empregado em larga escala em diversos tipos de culturas e até mesmo na água para controlar a proliferação de ervas aquáticas. Hoje existem mais de 150 qualidades de ervas daninhas catalogadas para serem combatidas pelo glifosato. Por não ser seletivo ele acabava por danificar ou eliminar, junto às ervas daninhas, mudas da soja que devia ser protegida. Dessa forma, havia perdas nas plantações, o que levou a criação dos alimentos transgênicos. O glifosato é resistente a luz, inclusive à temperaturas maiores que 60°C, podendo ser encontrado na soja até mesmo na hora do consumo.

Os alimentos transgênicos são espécies, no caso, de soja, criados em laboratório pelo manuseio do DNA de diversos biótipos que se mostraram resistentes ao glifosato ou outro agrotóxico utilizado para controle de pragas. Assim, criou-se uma espécie de soja que pode ser plantada em condições determinadas e pode receber as dosagens do herbicida sem morrer. A mais utilizada é a Agrobacterium SP, por ser resistente e manter nutrientes e rentabilidade próximas ou superiores a soja comum.

A questão na área dos transgênicos, que levou a proibição do seu uso na maioria dos países desenvolvidos e até mesmo em outros países subdesenvolvidos, foi a carência de conhecimento dos prejuízos ocasionados para o meio ambiente e o consumidor a longo prazo. Não se sabe ainda quais os efeitos causados para os organismos vivos e quais doenças podem ser desenvolvidas pelo seu consumo. Para não servir de cobaia, a maioria dos países foi contra a instalação e disseminação das espécies modificadas geneticamente. Algumas instituições, usando inclusive de questionamentos ideológicos, reiteram ainda que esses produtos tragam benefícios somente aos produtores, pois permitem a continuidade do uso do glifosato que necessita de doses cada vez maiores por produzir, através de seleção natural, super-ervas que se tornam persistentes à sua ação. Dessa forma, os animais e seres humanos consumidores estão expostos a concentrações cada vez maiores de glifosato e até mesmo de 2,4-D, um pesticida usado junto ao glifosato para eliminar essas super-ervas e que foi empregado na produção do agente laranja, gás tóxico aproveitado como arma na Guerra do Vietnã para eliminar as folhagens das árvores onde os vietnamitas se escondiam.

Apenas uma marca faz questão de anunciar que seu produto é extraído de soja comum, não transgênica. A marca Leve, produzida pela Imcopa – grande exportadora de óleo e grãos – traz no seu rótulo uma espécie de propaganda ao contrário, indo em sentido oposto ao fluxo do desenvolvimento agrário, ressaltando ainda que não utiliza soja plantada em área desmatada após 1994. A empresa encontrou soluções comerciais para manter-se ecologicamente correta.

Se fosse atualizado o romance de Flaubert, talvez o Sr. Homais não estivesse completamente satisfeito com o conhecimento científico da população, mas provavelmente sairia contente do supermercado ao saber que poderia obter tantas informações sobre um produto ao ler um texto muito menor do que a bela história da qual fez parte.

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Categorias: Cardápio de Démeter, Ciência e Tecnologia, Saúde

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um comentário em “Saúde”

  1. evelyn
    2 de maio de 2011 às 20:28 #

    amei muito td mais eu gostaria de saber quantos por cento de gordura contem um amburgue

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