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O papel da música

por Bruno Motta

Muitas regravações, sucessos efêmeros, letras sem sentido, são infelizmente algumas características que permeiam o cenário da música nacional brasileira nos anos da primeira década de 2000. Essa postagem é ao mesmo tempo uma crítica à vulgarização da qualidade da música brasileira, um pedido alarmante para que novos compositores surjam para recuperá-la e uma visão geral sobre a transformação histórica do papel da música nos principais estilos existentes.

A mudança do papel ocupado pela música na vida dos jovens pode ser atribuída como uma possível causa para a situação em que esta se encontra. Durante muitos anos a música e a produção musical tiveram diferentes funções modificadas ao longo do tempo. Aliada intimamente e inseparavelmente à poesia, as primeiras cantigas tinham o papel de entreter as classes nobres aristocráticas, driblando o tédio provinciano, ao citarem amores irrealizáveis, batalhas, sofrimentos, sátiras e críticas à sociedade, enfim, “narrativas”, sob um estilo “romântico trovadoresco”, utilizando instrumentos mais simples (como a Cítara, tambores, flautas, guitarras primitivas) e métricas e rimas muito bem construídas, características da produção literária.

O movimento de separação da letra e da melodia foi algo que marcou a música denominada “Clássica”, ou atualmente, erudita; com o papel de promover o desenvolvimento da cultura e da produção cultural dessa atividade de lazer patrocinada pela “burguesia mecenaria”, os instrumentos ficaram mais sofisticados contribuindo para a sua harmonia trazida pela melodia dos pianos, violinos, flautas doces, violoncelos e bem mais tardiamente pelos metais (saxofone, trompete, trombone, corneta, oboé). Na mesma época, a música também é aliada ao teatro e ao canto lírico, outra atividade de lazer bastante comum, originando as óperas orquestradas; mais tarde essa combinação dá origem aos musicais. As composições melódicas são engrandecidas com os sentimentos dos compositores e começam a trazer mais sensações aos ouvintes com as diferentes percepções ocasionadas por meio da difusão de sons proporcionada pelas técnicas da Acústica, originadas na revolução cultural-científica clássica e empregues nas construções agora especializadas para a produção de música, os teatros.

Com o surgimento de novas terras, como os EUA, a escravidão e separação racial entre os negros e brancos no início do Século XIX, novos ritmos começam a surgir como o Blues, R&B, folk, gospel, a música contry e mais tarde o jazz. Com o Blues, que praticamente influenciou a criação desses outros novos estilos, a música é novamente aliada à letra, agora sem a preocupação de métricas e rimas perfeitas, e dessa vez, não sofre mais tantas influencias européias, mas sim afro-americanas. O termo “Blues” foi empregue pelos negros escravizados do Sul dos Estados Unidos, que sofriam pelas árduas jornadas de trabalho nas plantações de algodão, pela saudade de suas terras ocupadas durante o colonialismo e o neocolonialismo, e pela segregação racial que proporcionava muitas dificuldades e preconceitos na nova terra. ”Blues” significa um estado permanente de dor e sofrimento ocasionado pelas dificuldades encontradas pelos negros na nova vida e o estilo conta com letras que falam sobre trabalho, exploração, dificuldades na vida, amor, sexo, sonhos e outros aspectos cotidianos. Esse estilo foi popularizado apenas no começo do Século XX, quando as canções se aliam a instrumentos mais desenvolvidos como a guitarra elétrica, o contrabaixo, a bateria e metais como trompete e saxofone. O Blues trouxe para a música um novo papel, o de lamentações e catarse dos problemas cotidianos.

O desenvolvimento dos diferentes ritmos musicais nas colônias da América Latina também foram influenciados tanto pela cultura dos países colonizadores como pela cultura produzida durante a ocupação das mesmas. Surgem os estilos Lambada, Salsa e Merengue, Tango, Forró, Bolero, entre outros. Logo nos anos seguintes a Segunda guerra nos EUA, entre as décadas de 50 e 60, surge o Rock n’ Roll e o Rocabilly, dois ritmos dançantes que causaram uma revolução entre os jovens, modificando o papel que a música desempenhava para eles. Influenciado pelo Blues, R&B, Música Contry, Jazz, Folk e por ritmos latinos caribenhos dançantes como a Lambada, o Rock trazia canções que falavam sobre o cotidiano agora do jovem, sobre o tédio, sexo, violência e revoltas, somadas a um novo estilo de se dançar extremamente excitante e “sexualizado” para a época, o que causou muita polêmica frente aos padrões tradicionalistas da sociedade. A divulgação do Rock foi ampliada principalmente pelo cinema, que passava por uma fase de intensa produção. A partir do Rock foram derivados muitos e muitos estilos englobados no próprio rock, o Metal, o Rock Clássico, o Hard Rock, o Rock Progressivo, entre outros; também foi derivado o POP, agrupando ainda mais a dança à música. Também ocupou um papel de reivindicação, protestos, conscientização sobre diversos temas como a Revolução Sexual e o Movimento Hippie dos anos 60 e 70, a Guerra do Vietnã, a Guerra do Golfo, a Fome na África entre outros.

Durante os anos 80, em que o cenário musical foi expandido e recebeu a contribuição da cultura de muitos países do mundo, a música desempenhou mais papéis ainda na vida do jovem que freqüentava boates e discotecas; com o surgimento do Rap e do HipHop ocupou o papel de denúncia social, com o New Age e com o surgimento da música eletrônica ocupou o papel de admiração tecnológica das novas “batidas” elétricas e psicodélicas.

No cenário musical do Brasil, além de ter a contribuição do Rock e de praticamente todos os estilos citados, com o movimento da Tropicália e dos festivais de música na década de 60, surgem a Bossa Nova e a Música Popular Brasileira, com letras muito bem construídas, mais calmas e menos dançantes sobre os encantos do país e das mulheres brasileiras, músicas sobre protestos contra o regime militar e contra o Capitalismo, sobre a vida e ainda sobre o cotidiano boêmio do brasileiro.

Desde os meados da década de 80 até os presentes dias, com o desenvolvimento máximo do Capitalismo, a música adquiriu algumas de suas características como a efemeridade e rapidez, se tornando mais um produto rentável e alienado do homem. Perdeu-se a qualidade da construção das melodias e das letras, de forma que tudo é muito parecido e às vezes até sem sentido, uma vez que o “Rebolation” parece mais o balbucio de um bebê americano do que algo coerente dotado de significado. Tudo se torna mais rápido e o jovem não tem mais tempo de apenas se sentar e ouvir uma música; ao contrário, faz muitas coisas ao mesmo tempo e não presta sequer atenção no que está ouvindo, apenas repete o “xonxonxon” de maneira quase robótica. Como as letras são super simples, repetitivas e cheias de gemidinhos e “ieieies”, não podem durar muito tempo nas paradas musicais.

Atualmente a música nacional brasileira se divide em quatro grupos: Ainda há aqueles que elaboram suas músicas e fazem criações influenciadas pelo seu cotidiano e pela contribuição de música consagrada, aqueles que regravam os sucessos eternizados pelos músicos antigos pelo simples prazer de cantar e relembrar a canção, aqueles que também regravam as músicas antigas numa tentativa desesperada de vender alguma cópia barata e aqueles da “cultura da bundalização” que desviam a atenção da música em si para os corpos de mulheres “rótulos” de beleza.

Com a concorrência da internet e da pirataria, a indústria da música acaba lançando qualquer produto, na tentativa desesperada de vender cds, uma vez que pouca gente ainda os compra e a música passa a ser mais um meio para promover, expandir e vender a internet. Ainda, a cultura no Brasil é algo pouco acessível para a maioria da população por ter alto custo e por promover poucas manifestações gratuitas e pouquíssimo divulgadas. Para sobreviver no palco, o artista é obrigado a fazer apresentações caríssimas (principalmente os bons artistas que têm um público restrito), uma vez que não vendem seus cds e tornam o acesso à música e a cultura, ainda mais restrito.

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Categorias: Música

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3 Comentários em “O papel da música”

  1. 24 de agosto de 2010 às 13:01 #

    Parabéns pelo texto Bruno!
    Eu que sou da geração dos anos 70, sinto na pele exatamente tudo isso que você escreveu. É lamentável que um instrumento(música) que pode trazer transformações em vários setores da nossa sociedade, esteja em processo terminal de intensa deterioração cultural. É revoltante ver tantos jovens sem objetivos e sem opiniões que possam promover a construção de um país que tenha em sua estrutura a base principal, que ao meu ver, são os movimentos culturais e neste caso a música assume um papel super importante como instrumento de constestação como fora nos anos 80 e trouxeram mudanças significativas, sobretudo na política. Foi o período de maior efervescência não só cultural como também de ideologias que imprimiram na consciência daquela geração a inquietação e o incômodo sentimento de que teríamos de fazer alguma coisa para mudar o curso da nossa história e começar a escrever um novo capítulo que mudaria para sempre os rumos da política. Parabéns mais uma vez!

  2. Sylvia
    25 de agosto de 2010 às 17:31 #

    Oi, então, primeiro parabéns pela iniciativa de todos da revista, é muito legal vcs tentarem mudar as coisas, são pessoas assim que conseguem!

    Okay, vamos a parte chata. Você apresentou diversos dados, que fonte você utilizou?? Foi sua opinião? É importante sempre salientar sua fonte (senão vira revista horoscopo).

    O texto ficou bem compridinho… pela qualidade dá preguiça de ler. Não dá vontade de ler um texto comprido que diz no fim que sua opinião é inferior; porque é isso que diz, se você ouve rebolation, você é uma pessoa inferior.

    A música surgiu para divertir como você mesmo disse, mas hoje é necessário sentar e pensar no sentido de cada palavra e cada nota a cada segundo que se ouvir qualquer coisa….meu nem todo mundo é “profundo”, nem todo mundo é músico…tem gente que só quer se divertir e gosta do rebolation.

    A revista se propoem a mostrar as coisas e não dar a opinião, certo? Então…

    Eu não gosto de rebolation, mas todo mundo tem direito a sua opinião.

    OBS: Você começou um paragrafo dizendo que ia dividir a música e acabou dividindo os tipos de artista…

  3. 25 de agosto de 2010 às 19:35 #

    Parabéns a revista……….precisamos de pessoas como vocês

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