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O inferno está cheio de boas intenções

O narcisismo do capital

Milionários, capitalismo filantrópico e um lago profundo de dinheiro

 

por Érica Perazza

 

O mundo mudou. Antes havia uma guerra entre capitalismo e socialismo. Hoje, a batalha é entre o capitalismo contra… bem, ele mesmo.

Empresários de todas as partes do planeta estão tentando redefinir formas de investimentos. Eles agora se comprometem moral e socialmente com métricas de análise de impacto, planejamento de metas, promessas de sustentabilidade, etc. O livro Philanthropicalism: How the Rich can Save the World (Capitalismo filantrópico: como os ricos podem salvar o mundo, em tradução livre, de Matthew Bishop e Michael Green) conta com entrevistas com bilionários como Bill Gates, George Soros, Bill Clinton, Angelina Jolie e Bono Vox que doam grandes quantidades de dinheiro à parte menos favorecida da Terra. (Para maiores informações sobre o livro, acesse http://www.philanthrocapitalism.net)

Nos Estados Unidos por exemplo, 38 bilionários se prometeram doar 50% de suas finanças (durante sua vida ou após sua morte) numa campanha denominada”The Giving Pledge”, encabeçada por Bill Gates e investidor Warren Buffet.

Existem outras inúmeras campanhas humanitárias sempre cheias de compaixão por aqueles que sofrem com a miséria, doenças e o clima. Artistas fazem shows, políticos fazem promessas, e as doações são zilionárias, capazes de eliminar a palavra pobreza do dicionário.

Mas… funciona? Os africanos estão morando em apartamentos de classe média, tendo 3 a 4 refeições por dia? Os chineses possuem leis trabalhistas melhores e salários menos explorados? Os nordestinos brasileiros estão nadando numa piscina agora que possuem água encanada e dinheiro para se tomar sorvete? Só para mencionar os miseravéis mais clichês. Pois se eu mencionasse as condições que vivem os cidadãos de um país subdesenvolvido, eu me estenderia aqui por anos.

O resultado é psicológico. Os capitalistas se sentem melhor dizendo para si mesmos: “Espere, eu ganho milhões de dólares, mas veja quanto eu estou dividindo. Sou uma boa pessoa e vou para o céu!” E o mundo pensa, “Poxa, eles são ricos, mas não são egoístas. Tão bonzinhos!”

Não estou generalizando, nem todo rico é assim, claro. A questão é: pra que fazer tanta propaganda? Pessoas que são financeiramente estáveis ou não, se doam dinheiro ou fazem outro bem que não seja necessariamente econômico, não colocam manchete na Pandora. Afinal, importa daonde vem o dinheiro das vacinas contra tuberculose e malária?

Peter Wilby, do jornal britânico The Guardian, possui ideias alternativas para esses capitalistas filantrópicos que “desejam criar um mundo melhor”.

Algumas delas:

  1. Pagar todos os seus impostos em dia (o quanto “gastam” em doações, é isento de impostos e isso inspira sua bondade)
  2. Evitar criar monopólios
  3. Dar aos seus funcionários melhores salários e condições trabalhistas
  4. Usar métodos de produção que não mate ou prejudique o meio ambiente e não deixe as pessoas doentes

(Leia o artigo na íntegra, em inglês, clicando aqui)

O antigo diretor da Ford Foundation, Michael Edwards acredita também que a consciência e a atitude que devem ser transformadas. E é por isso que ele se pergunta “por que os ricos e famosos devem decidir como as escolas serão reformadas. Mesmo se eles doarem metade de sua renda, continuarão ricos. Sua generosidade pode até legitimizar desigualdades”, ele observa. Pois, “alguns podem até ficar mais ricos já que a caridade produz um bom marketing e às vezes pode até forçar os destinatários a comprar produtos  e serviços dos doadores”.

O sistema econômico não é suficientemente capaz de curar a fome, a violência, a discriminação. Mas sim valores que influenciam uma transformação social importante, tais como “cooperação no lugar de competição, ações coletivas no lugar de individualismos”, pondera Edwards.

Enfim, Michael Edwards acredita que os negócios não vão salvar o mundo e o é o que ele defende na entrevista que você pode conferir na íntegra aqui (em inglês).

E você acredita no capitalismo filantrópico? Ou também crê que o capitalismo apenas olha para seu reflexo no lago e não ao seu redor?

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Categorias: A Mão de Midas, Editoriais

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3 Comentários em “O inferno está cheio de boas intenções”

  1. Puri
    15 de agosto de 2010 às 19:23 #

    Érica, a discussão é mesmo pertinente e cheia de elementos prá gente pensar!!!! As Pandoras, claro, ficarão extasiadas, e o resto da população rindo…mas, cèst la vie, mon amour!!!!!

  2. 30 de agosto de 2010 às 12:17 #

    O estranho é que pouco se vê na mídia esse tipo de questionamento. As reflexões sobre o sistema econômico e político inexistem. É como se o capitalismo em si fosse o rumo “natural” das coisas. isso é ideologia. Um excelente filme para entender (e se revoltar) com a aparência de bondade da qual se utilizam algumas corporações para a publicidade (por exemplo: desmatando de um lado – em silêncio – e reflorestando de outro – com muita divulgação-). é “A corporação”. Bom filme ;)

  3. 2 de junho de 2011 às 13:48 #

    Outra coisa, creio que não é bem “compaixão” o que move essas atitudes generosas, se há algum sentimento envolvido, talvez possamos falar de “pena”. Compaixão é um sentimento legítimo pelo meu semelhante (budismo), já “pena”, é o que se sente por alguém que está, de alguma forma, inferior a mim (e vai continuar a estar, no caso)….

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