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Jornalismo Cultural sufocado pela mercantilização

Por José Salvador Faro

 

Foi a leitura do livro de Elizabeth Lorenzotti – Suplemento Literário. Que falta ele faz! – que me levou a fazer as entrevistas que estão sendo publicadas no blog (www.jsfaro.net). Basicamente, duas questões me chamaram – e ainda chamam – a atenção. A primeira, exigente de uma contextualização histórica necessária para o seu entendimento, diz respeito à perda de espaço que os  suplementos, os 2os cadernos, as seções de cultura em geral, sofreram nos últimos 40 anos no panorama geral da imprensa.
Vistos como nucleadores de correntes de pensamento e catalizadores de propostas da intelectualidade, esses veículos deixaram uma lacuna na imprensa brasileira na medida em que foram paulatinamente sendo substituídos por produtos que a própria Lorenzotti mostra como carregados da ligeireza e da superficialidade da cultura de consumo. Não é verdade que isso pode ser generalizado para toda a produção do Jornalismo Cultural contemporâneo, mas a tendência me parece bastante forte: o gênero pode estar reproduzindo hoje aquilo que caracterizou o mercado editorial no início dos anos 70 e que nunca mais  o abandonou: uma cultura fascicular, de roteiros de serviços, refratária à análise e engrenada na lógica empresarial da mídia.
A segunda questão praticamente decorre da primeira: essa tendência ganha fôlego redobrado com a explosão das informações a que estamos assistindo na rede? Isto é: a proliferação das páginas de cultura na internet, em blogs e sites diversos, acentua as características que já vinham se desenvolvendo ou ela pode se constituir em elemento de resistência na medida em que o mercado  e a audiência que a sustentam é de outra natureza, que constrói sua autonomia na mesma medida de sua expansão?
Para essas duas perguntas, Elizabeth Lorenzotti oferece em sua entrevista respostas que alimentam mais ainda a discussão, embora o enquadramento que ela dá aos dilemas do Jornalismo Cultural contemporâneo não permita muitas ilusões: não estamos diante de uma encruzilhada em que a vontade dos profissionsais e estudiosos do gênero funciona como um dispositivo capaz de alterar o rumo das coisas. Ao contrário: para Beth, as mazelas que estamos discutindo se explicam pela natureza da cultura contemporânea. Como um “intelectual precário”, na citação que Lorenzotti faz de Paulo Arantes, ao jornalista que trabalha com cultura não restariam muitas alternativas…

Uma discussão que não acaba nunca, mas que vale a pena ser feita.

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* Além do livro Suplemento Literário. Que falta ele faz!, (leia aqui a matéria de Luiz Zanin publicada no Estadão sobre a obra), Beth Lorenzotti também publicou neste ano Tinhorão, o Legendário, trabalho em que estuda a presença do crítico da MPB na imprensa. Recentemente também contribuiu com as discussões feitas neste blog no Fórum Jornalismo Cultural.
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Leia todas as entrevistas que já foram publicadas no blog: 
Sylvia Moretzsohn
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Categorias: Educação e História, Metalinguagem

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