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Os imperdíveis de Woody Allen

Por Verônica Gonçalves

Muita ironia e diálogos inteligentes. São essas as principais características do diretor norte-americano Woody Allen. Com mais de 40 anos de carreira no cinema, seus roteiros bem construídos tornaram-no uma referência na indústria cinematográfica contemporânea.

Em sua obra é possível encontrar algumas alfinetadas à religião judaica, reflexões sobre a própria produção cinematográfica e críticas à vida fútil das classes mais ricas. Sua carreira engloba direção, roteirização e atuação em aproximadamente 43 filmes.

Com toda sua trajetória no cinema, é natural que nem tudo que ele produziu tenha o mesmo nível de excelência. Alguns filmes marcam mais do que outros e isso pode variar conforme o gosto de cada um. No entanto, alguns deles merecem ser vistos por apresentarem um bom panorama da sociedade atual e ótimas reflexões sobre os costumes.

Em 1972, por exemplo, Woody lançou uma comédia irreverente intitulada Tudo Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar. São 7 histórias baseadas num livro de Paul Reuben. Cada uma delas busca responder as seguintes questões: Os afrodisíacos funcionam? Por que algumas mulheres não sentem orgasmo? Travestis são homossexuais? O que é um pervertido sexual? Os resultados dos experimentos médicos sexuais realizados pelas clínicas apresentam resultados precisos? O que acontece durante a ejaculação? É possível notar intertextualidade com famosos textos como Hamlet e Frankenstein, bem como metalinguagem em cenas que os atores se dirigem ao público. Apesar de alguns críticos considerarem esse um filme fraco por ser trash, ele é muito inteligente e bem construído.

Em 1998 ele investiu na comédia Celebridade, que buscava problematizar a indústria cinematográfica mais preocupada com futilidades do que com cinema. Com uma clara influência da obra de Andy Warhol, Woody trabalha em preto e branco e com artistas muito famosos na época (como Winona Ryder, Leonardo DiCaprio, Melanie Griffiyh e Keneth Branagh). A história é sobre um ex-casal que passa por grandes reviravoltas após o divórcio. Enquanto o escritor Lee tenta explorar sua nova liberdade, Robin, uma ex-professora, entra no mundo do show business como uma apresentadora de um talk-show. Por meio dessa premissa, Woddy Allen mostra aos espectadores um mundo cheio de falsidade e pessoas insanas que levam vidas promíscuas sem nenhum sentido. A principal reflexão promovida por esse filme é o que as pessoas são capazes de fazer para ficarem famosos (ou manterem a fama).

Ainda nessa problematização da busca por 15 minutos de glória, em 2002, Allen lançou Dirigindo no Escuro. A história é sobre um famoso diretor, vencedor de 2 Oscar que se queimou profissionalmente após uma série de crises nervosas. Um dia ele recebe uma proposta para dirigir um filme que se passa em Manhattan, sua cidade favorita, e realmente se empolga com o projeto, mas é subitamente acometido de uma cegueira nervosa. Seu agente o incentiva a continuar na produção mesmo assim, mas sem revelar seu segredo a ninguém. Além da metalinguagem utilizada na narrativa, o fato do diretor estar cego pode simbolizar o descaso de todos envolvidos na produção do filme, mais uma vez com a idéia de que a fama importa mais que bons trabalhos.

Essa questão de quanto às pessoas estão dispostas a abrir mão em nome de um bem pessoal está presente em outras obras. A mais contundente delas é Match Point, de 2005. Nela, o ex tenista profissional Chris Wilton está prestes a entrar para alta sociedade inglesa como que por sorte. Ele não gosta exatamente da vida que levará, mas aprecia o conforto e os benefícios que o dinheiro proporciona. Quando Chris conhece a sensual Nola faz de tudo para tê-la como amante, mas de repente se vê numa situação difícil que pode fazê-lo perder suas vantagens. Além de retratar uma ambição negativa, até um pouco desesperada, ele aproveita para fazer uma critica a vida vazia da classe A. Nota-se uma alienação sobre a pobreza, um egoísmo exacerbado e um tédio sem fim.

Nessa mesma linha, mas com uma dose de humor, o filme Os Trapaceiros, de 2000, trata de ambição, mas não tão desesperada quanto em Match Point. Isso porque os personagens principais são ingênuos e atrapalhados. Eles querem ser ricos, mas não sabem como se portar. Aqui a crítica as altas classes sócias se torna mais evidente, porque se trabalha de uma forma bem caricata com toda a hipocrisia do dia-a-dia. É como se existisse um manual de como ser rico. Como se para participar desse meio uma pessoa precise gostar de arte, ópera e ballet e investir nisso.

Embora de uma perspectiva um pouco mais sutil, o filme Vicky Cristina Barcelona de 2008 também fala de uma vida fútil e baseada em aparências. Com duas personagens opostas (uma é mais racional e outra emocional), a trama é sobre uma viagem de duas amigas à Barcelona. Uma está estudando a cultura espanhola e outra está relaxando (não sabe o que quer só o que não quer). Pode- se dizer que o tema da narrativa são as diferentes formas de encarar a vida, especialmente o amor. A mais racional delas vive como que por inércia, nem sempre se entusiasma com tudo, mas não consegue ter energias para agir de um modo diferente. Sua amiga emocional se entrega totalmente em tudo, seja em relacionamentos ou no campo profissional. Aparece novamente na narrativa a idéia de que as pessoas com dinheiro agem como que por inércia, sem sentir mais prazer com nada.

A repetição dos temas na obra de Woody Allen pode parecer incomodativa se forem vistos muitos filmes em seqüência, mas não tem como negar que ele sabe trabalhar muito bem com diálogos, escolha de atores e trilha sonora. É engraçado notar que sempre que ele atua parece representar um mesmo papel: um homem muito irônico, que fala muito e às vezes soa como um paspalhão. E mais engraçado é que no filme Celebridades o personagem Lee age como o próprio Woody Allen. Definitivamente um diretor que sabe trabalhar com metalinguagem e desenvolver boas histórias.

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Categorias: Cinema

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