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Gênio imortal

Machado de Assis conseguiu ser reconhecido ainda em vida e entrou para a história como o maior ícone da literatura brasileira.

por Soraia Alves

Epilético, gago e  introspectivo, essa não é uma descrição comum à muitas personalidades. Acrescente outras características como mulato, neto de escravos alforriados, canhoto e de origem humilde e situe tudo isso em um Rio de Janeiro do século XIX. As probabilidades de tal pessoa entrar para a história como uma das principais mentes brasileiras de todos os tempos são, no mínimo, muito pequenas. Talvez por isso Machado de Assis seja ainda mais especial.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, cidade em que passou toda a sua vida e que eternizou como o cenário que compõe suas maiores obras. Filho de um pintor de paredes e uma lavadeira, dos 10 aos 14 anos Machado perdeu a mãe, a única irmã e o pai, e passou a ter na madrasta Maria Inês a única figura de família que o acompanhou na adolescência.

Longe de ter uma infância regada a privilégios, o menino ajudava a madrasta doceira na venda dos quitutes e teve uma ascensão intelectual lenta, mas constante. Autodidata, o primeiro contato de Machado com a literatura foi através da pequena biblioteca situada na casa de sua madrinha no morro do Livramento. Especula-se que ao vender doces no pátio do colégio do bairro de São Cristóvão, Machado tenha conquistado a simpatia de alunos e professores que por sua vez, permitiam que o menino assistisse à algumas aulas.

O garoto pode não ter frequentado a escola regularmente, mas aprendeu francês com um padeiro, estudou alemão e inglês sozinho e assim como a maioria dos gênios que não tardam a revelar seus talentos, aos 15 anos Machado publicou seus primeiros versos. Trata-se do poema “Ela”, vinculado pela revista literária Marmota Fluminense, em 1855.

Aos  17 anos conseguiu um emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Agora Machado tinha contato com inúmeras publicações e embora seu chefe frequentemente pedisse sua demissão, o diretor da tipografia gostava de saber que o adolescente sempre era pego lendo escondido. Esse diretor era ninguém menos que Manoel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias e que se tornaria padrinho, protetor e amigo de Machado.

Ao se tornar revisor da revista Marmota em 1858, Machado passa a conviver com nomes como Gonçalves Dias e José de Alencar, que também se tornam amigos do jovem autor, que dois anos depois recebe um convite de Quintino Bocaiúva para integrar a redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Na mesma época, Machado de Assis passou a escrever artigos como crítico teatral para a revista O Espelho.

Ser jornalista não bastava e em 1864 o homem que se tornaria o maior símbolo da escola realista, publicou seu primeiro livro, “Crisálidas”, uma reunião de poemas românticos que pouco empolgou os leitores. A musa de seus poemas era Corina, atriz portuguesa e primeira paixão de Machado. A moça nunca correspondeu aos seus galanteios e como toda boa dor de amor, seviu como inspiração para o jovem amante  platônico.

Mas a vida amorosa do rapaz que gostava de jogar xadrez não foi cheia de dores de amores impossíveis. Em 1869, Machado casou-se com a portuguesa Carolina Xavier de Novaes, com quem viveu uma união feliz mesmo contra o gosto da família da moça que não aprovava o escritor de fama irônica e cética.

Carolina era inteligente, rica em cultura e uma amante da literatura portuguesa. Quatro anos mais velha que o marido, o conheceu por meio de seu irmão cuja morte aproximou-a ainda mais de Machado.

“Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu? Além disso, tens para mim um dote que realça os mais: sofreste”.


O casamento durou 35 anos e o casal não teve filhos. Carolina ajudava Machado com a revisão gramatical de suas obras e tornou-se a inspiração de diversos poemas do autor, que em 1870 publicou seu primeiro conto – “Contos Fluminenses” e dois anos depois seu primeiro romance, “Ressureição”, que dá início a uma incrível cronologia de publicações de sua fase romântica: A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).

Conciliando a vida de escritor, jornalista e funcionário público (que lhe garantia a estabilidade financeira), o “pai” do realismo brasileiro resolveu deixar a polidez de lado lançando obras que revelam os males da sociedade, acusam a hipocrisia mascarada nas diversas classes sociais. Temas universais retratados em meio à burguesia carioca. Agora amor e adultério eram mostrados lado a lado, encobertos pelo cinismo e misturados a uma sociedade preconceituosa e cheia de valores morais que ficam na teoria. Tudo isso mostrado de um forma original, com ironia e humor entrelaçados, com questionamentos e o pessimismo machadiano que não passa de uma apresentação crua da realidade.

Nascem as maiores obras da literatura brasileira, aquelas que serão leituras obrigatórias em qualquer escola e que se mostrarão atemporais a qualquer leitor mais atento. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) traz a inovação de um defunto autor que além de tudo é atrevido e de uma irônia sutil que chega a debochar do leitor sem que esse perceba. Quincas Borba (1891) vem com denúncias dos interesses da sociedade e a questão da loucura, por outras vezes abordada por Machado; e por fim Dom Casmurro (1899) traz o romance cheio de desconfianças entre as personagens que eternizaram a pergunta “Capitu realmente traiu Bentinho?”.

Em 1897, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras inpirado na Academia Francesa, sendo o primeiro presidente da instituição também conhecida como casa de Machado de Assis.  Não ocupou a cadeira número 01 da Academia e sim a número 23, deixando como patrono seu amigo, José de Alencar.

Seus últimos romances – Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) foram escritos após a morte de sua esposa em 1904, um golpe ao qual  Machado se rendeu, chegando a desejar morrer logo após seu amor.

“Foi-se a melhor parte da minha vida. Aqui fico, por ora, na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus”.


Isolado e depressivo, Machado de Assis morreu em sua casa na rua Cosme Velho, em 28 de setembro de 1908, e a multidão que acompanhou seu enterro já mostrava que ele não era um desconhecido. Estudiosos dizem que a última frase do autor foi “a vida é boa!”, dita a José Veríssimo.

Comparado mundialmente ao francês Gustave Flaubert (Madame Bovary) ou ao russo Dostoievski, Machado de Assis não é um defunto autor como seu personagem Brás Cubas, nem um autor defunto como a maioria. Machado é o gênio imortal que atingiu unânime respeito da intelectualidade universal.

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Categorias: Atena, Literatura

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2 Comentários em “Gênio imortal”

  1. 31 de julho de 2010 às 22:06 #

    Parabéns Soraia!!! Em poucas linhas você conseguiu sintetizar os episódios mais importantes da vida e da arte desse monstro da literatura brasileira. Estou encaminhando seu texto para todos os meus contatos por achar de um tremendo bom gosto e refinado o bastante para quem tem interesse em aprender um pouco mais sobre nossa literatura que com toda certeza é uma das mais ricas do mundo!

    Mais uma vez…Parabéns!!!

  2. 2 de agosto de 2010 às 1:45 #

    muitas figuras importantes tinham limitações,doenças,deficiencias…Bethovem, teve malaria, seus pais eram alcoolatras e a mãe sifilita,e ficou surdo no momento mais proficuo da sua vida… Teofilos Wolfgang Amadeus Mozart, era altista e foi perseguido toda sua a vida por Antonio Salieri, Tchaikovisk era homossexual sem poder assumir e sofreu até o dia da sua morte, Abrahan Lincoln era semi analfabeto se formou auto didata em direito. E ssim foi com muitos grandes artistas, poetas, pintores, tanto dos antigos como nossos contemporâneos… Nada limita ou inpede alguem que se decide a fazer e realizar seus sonhos….

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