Anúncios

Por que nós nos perdemos no caminho da mudança?

 Tempos dissolutos

por Érica Perazza

 

Zygmunt Baumman em Tempos Líquidos, defende a ideia de que estamos vivendo uma “passagem da fase sólida da modernidade para a líquida, ou seja, para uma condição em que as organizações sociais não podem mais manter sua forma por muito tempo, pois se decompõe e se dissolvem mais rápido do que o tepo que leva para moldá-las, e uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam”. São tempos instáveis num mundo em que poucas pessoas continuma a acreditar que mudar a vida dos outros tenha alguma relevância para a sua.

Ainda com as palavras de Baumman, vemos que “em vez de grandes expectativas e sonhos agradáveis, o progresso evoca uma insônia cheia de pesadelos de ser deixado para trás – de perder o trem ou cair da janela de um veículo em rápida aceleração”.

Dessa forma, podemos compreender o título do livro de Eric Hobsbawn, A Era dos Extremos. De um lado tivemos grandes conquistas. Porém, no mesmo período aconteceram os maiores conflitos e genocídios da História.

Como mudar essas realidades?

O filósofo francês, Gilles Deleuze não acredita “numa filosofia política que não seja centrada na análise do capitalismo e de seu desenvolvimento.” A única mudança que aconteceu, segundo Michel Foucault, filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France, é que as sociedades de controle estão substituindo as sociedades disciplinares. Contudo, não é uma ruptura ou transformações significantes. O que temos que mudar não é a política em si, é nossa forma de pensar e agir. E assim que vamos conseguir transformar, mudar, criar, inovar. O caráter fundamental da filosofia de Nietzsche é uma “vontade da verdade” e uma proposta de uma nova cultura. Por isso, Deleuze discorreu linhas de fuga, isto é, alternativas políticas e o devir do povo. “Todo o devir é duplo. O indizível torna-se dizível.”

As linhas de fuga são importantes para combater o conformismo com o intolerável. As pequenas lutas simbolizam a realidade que os indivíduos vivem. A representação do povo em uma única figura deturpa a imagem de uma sociedade múltipla. Os pequenos grupos devem se juntar pela luta aos seus ideais.

Em Multidão de Michael Hardt e Antonio Negri, a democracia é questionada por seu caráter muito semelhante ao monárquico. A existência do “uno” que tem a função de governar toda uma multidão é inconcebível. O povo acostumou-se com a idéia de que ou existe a soberania ou existe a anarquia. Assim passamos a ignorar o abismo que existe entre esses dois modelos, onde se localizam todas as minorias de Deleuze, constituintes das linhas de fuga para a política que conhecemos.

Nietzsche, afirma, segundo o texto Conversações de Deleuze, que o devir é criar algo novo, o que ele chama de o Intempestivo. E através de revoluções podemos “conjurar a vergonha ou responder ao intolerável”.

Emendando as palavras de Deleuze mais uma vez, “acreditar no mundo é o que mais falta”, este seria o nosso devir, nossa nova ação. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo. Desfazer a passividade, a opressão, a inércia. As avenidas estão congestionadas. Deveríamos ter virado à esquerda, e seguido em frente. Estamos perdidos. “Encontrar o meio é o caminho, é o devir, é tornar-se diferente, é encontrar outra possibilidade. O devir é a velocidade absoluta, é a linha de fuga”. Mas precisamos de uma nova linha de fuga. Precisamos saber antes reinventar o novo em meio aos tempos dissolutos. Tempos de luto à paz, justiça, esperança, compaixão que se dissolvem. Estamos construindo a devassidão, o libertino e desfazendo-se de nossa identidade humana.

Fontes:
Tempos Líquidos – Zygmunt Baumman
A Era dos Extremos – Eric Hobsbawn
Escritos sobre Política I, Para Além do Bem e do Mal – Friedrich Nietzsche
Conversações, Considerações Avulsas – Gilles Deleuze
Multidão – Michael Hardt e Antonio Negri
Anúncios

Tags:, , , , ,

Categorias: Crônicas do Olimpo, Educação e História

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: