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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte XX: Final

Na rodoviária, Duque fugia desesperadamente, depois de ter permanecido imóvel. A chamada para o embarque em uma das plataformas havia o despertado. Era exatamente o que ele procurava – embarcar para qualquer lugar onde pudesse fugir de desafios aos quais ele já havia sucumbido. Não queria encarar novamente a mulher que ele já havia amado e o filho que ele sustentava sem pestanejar. Isabella correu atrás dele, buscando coibir sua covardia. Alcançou-o sem muito esforço. Deteve-o somente com um toque em seu ombro. Não teve resistência à sua resistência. Estava preparada para argumentar com dezenas de suposições que contextualizariam de forma convincente – como fora até ali – os temores de Duque. Os quais ele assumiria e repentinamente sentiria vergonha. Dessa vez Isabella não precisaria trazer a luz para os olhos dele, mas necessitaria desanuviar os olhos daquele homem. Duque estava com as pálpebras fechadas. Ao abri-las, correram em sua face, recém envelhecida, lágrimas. Isabella sentiu, por um momento, que havia uma trégua. Duque parecia ter aceitado dialogar com os fatos. A felicidade buscava adentrar a sua vida havia muito tempo, e, embora, ele fosse notavelmente feliz, alguns imbróglios poderiam ser resolvidos, tornando-o celestialmente feliz. Duque então parou, contemplou a moça ao seu lado e revelou no olhar a intenção que tinha. Precisava apenas que alguém o apoiasse para tomar uma resolução tão reconfortante. Sempre havia sido assim. Quando não tinha a mãe para dissuadi-lo sobre as decisões errôneas que tomava, tinha um amigo – como Eduardo – ou uma mulher como a que o esperava a poucos metros, sem entender sua reação. Amparou-se em Isabella e caminhou de volta, na direção de Márcia e do filho. Abraçou o garoto que não via há alguns anos e em seguida fitou seu grande amor no fundo dos olhos. Reconheceu o brilho único que partia daquela íris intensa. Depois de anos de separação, tentando esconder a imagem e a força que aquele olhar produzia sobre ele, rendeu-se ao interior que clamava para tornar-se completo novamente. Beijou Márcia por longos instantes, enquanto Isabella arrastava o garoto para outro lugar oferecendo um lanche. Ali, Duque reencontrou a felicidade plena. Convenceu-se então de que havia estado por anos fugindo de um remédio que o satisfazia. Foi encontrar-se com Isabella e o filho. Ali desabafou tudo que sentiu por todo o tempo em que esteve recluso. Queria agora trazer para sua existência tudo que seu ser pedia. Não iria mais contra suas vontades e buscaria manter à sua volta todas aquelas pessoas que o tornavam alegre. Com o peito arfando profundamente, chegou a rua inspirou o ar poluído que o fez tossir e liberar mais algumas lágrimas. Em seguida todos se dirigiram para a loja, onde passariam o resto de suas vidas, da forma mais feliz que conseguissem alcançar. Duque abriu a loja e pediu que todos entrassem. O filho o ajudou com as malas enquanto Márcia abria a porta dos fundos. Junto com o brilho do sol que alegrava aquela tarde, veio uma letargia, que contrastava com todo aquele sentimento de união. Eduardo caído, ao pé da porta, com as mãos esticadas, ainda clamando por ajuda, inibiram as reações da mulher recém-chegada ao seu novo paraíso. Conseguiu chamar por Duque e Isabella. Os dois correram para acudi-la. E ao mesmo tempo foram desarmados por aquela imagem.

Encontraram-se o olhar dos dois que conheciam aquela silhueta deitada ao chão. Nenhum sabia o que responder. Mesmo imaginando o que ocorria naquele instante, temiam em acreditar que pudessem estar corretos e procuravam na troca de olhares, encontrar outra suposição que aliviasse o aperto que subia pelo corpo. Duque ultrapassou a porta e virou o corpo de Eduardo. Isabella caiu sobre um dos balcões. O garoto tentou ampará-la, mas não pode com o peso que parecia multiplicar-se em seus braços. Era mais que uma queda. Era o desabamento de um ser. Era a entrega de uma vida que queria fugir também. Duque abraçou o amigo, chamou-o duas vezes até aceitar que sua felicidade nunca poderia ser completa.

Pensou nas duas estrelas que brilhavam agora no seu céu e viu uma Supernova surgir e implodir repentinamente. Correu até Isabella, que acordava ambicionando ter passado por um pesadelo. Confirmou a desgraça que havia inveterado o novo palácio de paz e fortuna, como um embusteiro que se aproveita da noite para sabotar os planos criados ao longo do dia. Confortou como pode a amada que sofria uma perda irreparável, diferente das que ele já havia sofrido, normalmente causadas por omissão própria. Duque olhou para a vidraça da loja. Fitou o céu. Não encontrou resposta para nenhuma das dúvidas que tomavam conta dos seus pensamentos. Visualizou apenas o imenso azul que se assentava sobre os prédios da avenida a frente. E derramou junto a Isabella, lágrimas ácidas. Tão sujas quanto a chuva que caía rotineiramente sobre a cidade. Lágrimas poluídas de pensamentos ofensivos e assoladores, que não podiam, com toda sua força, destruir aquela cena. O ato final estava escrito. E os atores não podiam refugar os papéis determinados pelo autor.

                                                                                                                                                              FIM

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais. Revista Laboratorial Eletrônica Pandora São Paulo – SP – Brasil

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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2 Comentários em “Mestre Jonas”

  1. 26 de julho de 2010 às 0:11 #

    Um belo e agradável texto!

    abraço

  2. Péricles
    26 de julho de 2010 às 11:30 #

    Gostei muito.O texto vai atraido a gente.Muito bom o modo que foi escrito e a estoria muito boa.
    Parabéns e Quero conheço mais textos seus viu?
    Um abraço!

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