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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte XIX – (Des)Encontros

As fotos que Duque olhava ao lado de Isabella, mostravam uma bela mulher – um pouco gorda devido à gravidez, defendia Duque – alta, com o rosto de traços fortes e ângulos fechados. Parecia uma reunião de peças devidamente encaixadas, onde os dois lados do corpo, que em todas as pessoas são diferentes, eram satisfatoriamente contíguos.

Isabella elogiava bastante aquela moça pela sua beleza, e personalidade que emanava de suas poses. Tinha um olhar marcante, que encarava fundo as lentes da câmera e atraía o olhar com seus olhos verdes. Um olhar que era a personificação de uma mulher decidida.

Os dois estavam esperando a chegada do rapaz, que havia saído de uma cidade próxima para conviver em uma realidade mais intensa. Acabara de concluir o ensino médio e mergulhava no poço de ansiedade em que os jovens precisam se banhar para decidir qual será a labuta menos dolorida na etapa mais difícil da vida.

Duque já preparava com Eduardo, uma divisão de tarefas onde o filho auxiliaria com os trabalhos mais simples. A intenção era manter o ritmo de trabalho, exigindo um pouco menos de cada um. Precisavam encontrar as funções com que mais se identificavam. Duque já entrava nos quarenta anos e Eduardo chegava aos trinta, buscando sua independência.

Isabella por vezes repreendia o namorado quando ele reclamava da forma que o chefe tentava manipulá-lo. Eduardo se desculpava com Isabella pelos poucos momentos íntimos que conseguiam ter, enquanto a moça alegava se divertir e confortava-o lembrando que adorava estar ali, com a vida daquela forma e com aquelas pessoas. Na verdade, Eduardo, há tempos já buscava uma forma de se desvencilhar de toda aquela maratona diária e das atribuições que levava sobre os ombros. Só não havia fugido desta situação, pois guardava enorme carinho pelo homem que havia salvo sua vida e o tinha dado tudo que tinha hoje, inclusive seu amor.

O telefone tocou e Isabella atendeu o chamado do garoto que já estava no terminal de ônibus, próximo à loja, pedindo para que o pai fosse encontrá-lo. Duque confidenciou seu nervosismo, ao tentar disfarçá-lo, enquanto fechava o álbum com as fotos da Márcia e do filho. Isabella, usando da atenção que as mulheres possuem para todas as sensações que os homens tentam esconder, fez uma pergunta que deixou Duque mais atônito do que já estava com a situação:

– Duque, por que, depois de toda esta história que você passou com Márcia, você foge desse encontro, renegando o próprio filho?

Aquele homem, que sempre que era questionado sobre isso, defendia-se detalhando todos os problemas vividos com Márcia, percebeu que não havia conseguido driblar o faro de Isabella para seus sentimentos. Não soube o que responder e ouviu uma alegação que fez suas forças se esvaírem por alguns instantes.

– Eu creio que você sentia medo de transformar-se numa simples marionete, de ser dominado pela força que sua ex-mulher exerce sobre as pessoas. Quando você percebeu que devia fortalecer sua personalidade, colidiu com alguém que parecia querer moldá-lo, mas que na verdade apenas lhe apoiava completamente nos alicerces sobre os quais você construía seu eu. Você queria na verdade que ela construísse muros para conter sua exploração do ser. Precisava que ela pintasse no chão um caminho pelo qual você se tornaria exatamente o homem perfeito para ela. Você queria que os dois fossem exatamente a mesma pessoa e sentia-se culpado quando planejava uma surpresa para ela e não via no seu rosto a felicidade plena. Pensava estar alheio aos sentimentos dela e quis que ela fosse mais feliz, tirando-lhe justamente a felicidade.

Duque não soube responder àquela divagação psicológica. Nunca havia feito uma análise tão profunda sobre sua própria alma, sobre a sua filosofia interna. Acabara de ouvir uma junção completa dos seus sentimentos. Alguém montara o quebra-cabeça da sua alma e não havia sido ele.

– Se eu soubesse o que sentia naquele momento, provavelmente não teria feito nada, talvez estivesse na mesma situação até hoje. Não sei o que teria me torturado mais.

– O que mais te tortura, é não dizer a ninguém o que você carrega no coração. Com certeza vocês teriam encontrado a arte que os tornaria felizes. Mas se algo pode te confortar, saiba que poucas são as pessoas que não sentem vergonha em buscar as respostas para a felicidade. O mundo está cheio de dúvidas inconscientes, e mantém as respostas nas pessoas ao lado.

Isabella foi até o quarto de Eduardo, que descansava, e acordou-o para que fosse cuidar da loja enquanto eles iam ao encontro do rapaz. Em seguida se dirigiu para a rua e foi seguida por Duque. Caminharam até o local onde o garoto disse que estava.

Isabella ia à frente, seguindo orientações de Duque para encontrar o garoto. Nem Duque sabia mesmo como ele estava, conversavam vez ou outra pela internet, mas não o via pessoalmente a mais de uma década. Quando Isabella viu um garoto parado, com uma mochila nas costas e algumas bolsas no chão, virou-se para avisar Duque, mas parou por um instante.

Ao lado do garoto, se aproximava uma figura conhecida a pouco por ela. Um pouco mais envelhecida, mas ainda bela como havia pensado.

Márcia estava ao lado do filho, abraçava-o e beijava seu rosto. Lançou um olhar sobre Isabella, que a deixou encabulada. Seus olhos tentavam compreender o que viam. Quem era aquela mulher ao lado do seu ex-marido? Por isso ele havia abandonado uma parte de sua vida?

Duque percebeu que Isabella havia parado, olhou para ela, e, instintivamente levantou o olhar encontrando os olhos esmeraldados do seu grande amor.

Sentiu um golpe no peito e um corte por toda sua espinha. Sua cabeça parecia pressionar o cérebro e sua visão ficou turva. Na sua frente estava Márcia com seu filho.

Enquanto Duque sentia todo o torpor daquele instante, no quarto, ao fundo da loja, Eduardo se retirava para algo que ele havia adiado por muito tempo.

Após os dois terem saído, ele fechou a loja e recolheu-se junto a um disco dos Beatles para seu cômodo. Colocou o álbum na vitrola e deixou que a agulha corresse livremente pelos sulcos prensados no acetato. Uma bruma de liberdade invadia o quarto. A inovação inserida naquelas músicas parecia, para ele, estar rondando o ambiente e invadindo seu ser.

Foi até o armário, abriu a gaveta estrategicamente desorganizada, onde as pessoas costumam guardar itens importantes camuflados por materiais desnecessários e retirou um pequeno envelope.

Dentro de um envelope pardo, pouco suspeito até ser necessário, ele guardava um pedaço de selo com um desenho de uma estrela, sobreposto por um plástico fino. Dentro dessa proteção havia um pequeno círculo colorido. A droga que ele tanto esperava e se negava a tomar, estava pronta e ele estava decidido a embarcar nesta viagem. A trilha era perfeita, o ambiente favorável e a curiosidade imensa.

Fazia algum tempo, começara a trabalhar com esculturas em madeira, alegando explorar suas habilidades. No seu quarto ficavam suas ferramentas para executar as obras. Sobre a cômoda, ao lado de uma pequena televisão, estavam jogadas algumas facas e estiletes que ele usava para acabamento.

Enquanto os Beatles pareciam interpretar suas músicas de incentivo à liberdade e originalidade, Eduardo retirava o plástico e colocava sob a língua, aquela pequena gota colorida.

Sentou-se na cama e aguardou paralisado por alguns instantes, olhando para a televisão, que o ácido lisérgico trouxesse para ele a potencialização da sua mente criativa. Em poucos minutos, passou a ter sensações estranhas. Cada acorde expelido pelo alto-falante se transformava em manchas coloridas.

Eduardo sofria o efeito da sinestesia, um dos principais efeitos psíquicos do LSD. Sentiu em seguida várias transformações afetarem seu corpo. Seus braços se alongaram, seu corpo sofria mutações incompreensíveis e tudo lhe trazia imenso prazer. Até um efeito colateral, alarmado por Duque, agir sobre a mente vulnerável de Eduardo.

De repente, todas aquelas visões coloridas e figuras abstratas sumiram. A televisão, que estava ligada e sem volume, tornou-se seu foco principal. Era o início de uma bad trip. Os pensamentos negativos que Eduardo vinha acumulando nos últimos tempos foram libertos pela droga.

Na televisão, um programa vespertino, transmitia um debate fanfarrônico ente uma mulher e seu marido. A mulher vestia-se de forma parecida à que Isabella estava vestida da primeira vez que se viram.

O cérebro de Eduardo transformou aquela imagem em um caso entre Isabella e Duque e um sentimento começou a corroê-lo por dentro. Sentia aflição de ver aquilo e decidiu tirar o amor por Isabella de seu peito. O ácido fazia com que tudo tivesse outro sentido.

Na cômoda ao lado da televisão ele encontrou as ferramentas que havia usado há pouco. Uma das facas transformou-se em uma adaga. Ele então avançou contra a TV e com um golpe quebrou a tela fazendo a imagem sumir. Começou a procurar pelo homem dentro de seu quarto e atacou o quadro que havia na parede quando ele entrou pela primeira vez ali. Em seguida se deparou com o espelho.

Sua visão se contorcia e cada vez que aproximava a faca do espelho ela se afastava do peito do seu adversário. Num impulso virou a faca contra si e afundou-a em seu peito. Viu o homem ser atingido e seu sangue jorrar. Empurrou-a mais fundo e sentiu o homem perder suas forças. Quando a faca atingiu seu próprio coração o LSD perdeu o efeito. A defesa de seu organismo liberou substâncias em concentração elevada para tentar controlar o sangramento, o que cortou o efeito e a alteração de consciência.

Quando percebeu o que havia acabado de fazer e que estava com uma faca enfiada no peito ele se desesperou. Tentou tirar a faca, mas isso provocava mais dor e aumentava o corte. Correu até a porta do quarto na tentativa de procurar ajuda. Quando conseguiu abri-la suas forças se exauriram. Sentiu seu corpo cair. Sua mão direita segurava a faca ainda contra o peito, que penetrou ainda mais seu coração com o peso do corpo. Desfaleceu caído à sua porta, não sem antes gritar por Isabella e esticar o braço em direção à porta da cozinha de Duque. Em seu rosto ficou a expressão de desespero e culpa. Seus cabelos ficaram úmidos pelo sangue que escorreu para o ralo do quintal.

 

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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