Anúncios

Parentes pedem criminalização de mortes cometidas pela polícia

Por Rafael Cunha

Rio de Janeiro, Chacina de Acari, 11 mortos. São Paulo, Crimes de Maio de 2006, 500 mortos. Ambos são crimes que envolvem o Estado e que até hoje não foram solucionados. Atentos a esse cenário, movimentos sociais do Brasil se uniram a grupos da Argentina, Uruguai e Colômbia para elaborar um documento pedindo que assassinatos de suspeitos em confronto com a polícia, chamados também de auto de resistência, deixem de ser legais. Para isso, eles estarão reunidos em Acari, no Rio, entre 23 e 26 de julho.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2009 mostram que diariamente são registradas três mortes por auto de resistência em estados como Rio de Janeiro. Na capital fluminense, o número que era de 300 casos em 1997 subiu para 1.300 dez anos depois.

O encontro é uma iniciativa das “Mães de Maio”, que reúne mães de jovens assassinados pela polícia durante os atos violentos do Primeiro Comando da Capital (PCC) em maio de 2006, no estado de São Paulo. No evento, elas pedirão o desarquivamento dos casos. Se esse pedido não for aceito, elas levarão uma solicitação para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, com o apoio do defensor público Antônio Mafezoli, responsável por investigar seis casos na Baixada Santista, litoral paulista.

A expectativa é de que autoridades como o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a presidente da Comissão dos Direitos Humanos, Iriny Lopes, e o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, participem do evento.

Também estarão presentes organizações como a “Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta”, que luta contra a morte da população negra da Bahia, o “Movimento de Filhos e Filhas de Mortos na Colômbia”, a “Associação de Mães e Familiares de Vítimas de Violência (AMAFAVV)” e as “Mães da Praça de Maio”, da Argentina.

O último dia contará com uma caminhada para lembrar os 20 anos da chacina de Acari, no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 11 pessoas, sendo sete menores de idade. “Esperamos que as autoridades se sensibilizem e que tenham mais respeito com a dor dos familiares”, diz a mãe de um dos jovens assassinados em maio de 2006, Débora da Silva, que é fundadora da Organização Mães de Maio.

Maio de 2006

Sexta-feira, 12 de maio de 2006. O Primeiro Comando da Capital (PCC) inicia uma série de atos violentos contra a polícia e alguns alvos civis. Segundo o governador de São Paulo que ocupava o cargo na época, Cláudio Lembo, os ataques eram uma resposta dos presidiários à transferência de 765 detentos para o presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau, no interior paulista. Entre eles estava o líder do PCC Marcos Willians Camacho, o Marcola. Ônibus queimados, policiais militares mortos e pânico instaurado na população.

Outra onda de ataques ocorreu no mesmo período sendo pouco divulgada e tendo como responsável a PM. É o que conta Débora da Silva, mãe de Édson Rogério dos Santos, gari da cidade de Santos (SP), morto por policiais aos 29 anos e segundo ela, sem passagem pela polícia.

Na véspera do assassinato do filho, um domingo de dia das mães, o rapaz tinha extraído o siso e foi aconselhado por dona Débora a não ir trabalhar no dia seguinte. Além disso, a mãe recebeu uma ligação de um amigo policial que previa os ataques.

“Quando deu umas 19h30, eu tentei ligar para o Rogério, mas não consegui. Estava ficando muito preocupada. Ele apareceu em casa mais tarde para buscar o remédio de dor de dente e me pediu R$ 10 para colocar gasolina na moto. Eu falei para ele não voltar para casa, mas ele não queria deixá-la sozinha. Na terça-feira, eu liguei o rádio e ouvi que o nome dele estava no IML”, conta.

De acordo com o defensor público, Antônio Mafezoli, que investiga cerca de 40 assassinatos que aconteceram no período, os homicídios do litoral paulista têm uma característica comum: todos têm indícios de serem cometidos por grupos de extermínio da polícia, que utilizava um carro grande, uma moto e armas restritas da instituição.

“Nenhum dos crimes tiveram laudo do local”, afirma. Ele também pediu investigação de seis casos junto à Procuradoria Geral da República. “O motivo do pedido de federalização dos crimes é o de que muitas testemunhas dizem que não deporiam no âmbito estadual e somente no federal”, explica. Além disso, o defensor público entrou com um pedido de indenização para as famílias das vítimas por danos morais, materiais e de construção de um monumento em memória das vítimas.

Novos crimes de abril

Uma nova série de homicídios policiais aconteceu há dois meses na Baixada Santista. A suspeita é de que os policiais envolvidos são os mesmos de maio de 2006. Até agora 18 foram presos e cumprem prisão preventiva. “Depois de uma série de reportagens do Jornal Tribuna de Santos, houve mais matanças e a população ficou incomodada, passando a pressionar pela solução dos crimes”, lembra Mafezoli.

Anúncios

Categorias: Caixa de Pandora, Hades, São Paulo

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: