Anúncios

Mestre Jonas

Capítulo XVIII: Márcia

Passaram-se algumas  semanas até Duque receber uma nova ligação de Márcia. A notícia  de que deveria cuidar do filho, dali em diante, havia chegado antes  do final do ano e era preciso esperar até que se encerrassem as  aulas. Durante este período, Duque foi obrigado a conviver de uma forma  extremamente sufocante, para ele. 
Desde quando havia  perdido seu afeto por Márcia – e aí já se iam quinze anos – daquela  forma corriqueira entre os casais jovens, que se unem simplesmente por  amor, nunca mais havia buscado uma ingênua coincidência, ao menos,  que produzisse um encontro casual na rua ou em uma fila de mercado.
Na primeira semana  do curso de história, dividida entre a tentativa de fugir dos  tradicionais  trotes e a fascinação por estar dentro da maior universidade da América  Latina, Duque passava horas contemplativo. Andava entre os prédios,  apreciava as instalações e se arrebatava com toda a novidade que rondava   aquele momento da sua vida. Acostumado ao marasmo preguiçoso das escolas   conduzidas pelo governo, onde é mais fácil ser aprovado que aprender,  onde importa apenas um carimbo num certificado que não garante ao menos  uma alfabetização completa, Duque se sentiu aturdido por toda aquela  efervescência juvenil. Os grupos eram divididos entre os novatos, que  sondavam informações para localizar as salas de aulas, e os veteranos  que trocavam informações com os recém-chegados para descobrir as  vítimas das suas chacotas. 
A loja ficava na zona  oeste de São Paulo, o que liberou Duque da vida das repúblicas. Por  mais que ele quisesse se embrenhar na vida universitária, participar  das festas e compartilhar das discussões, a facilidade de deslocamento,  a vida simples que levava desde a morte do pai e a solidão que iria  proporcionar à sua mãe, foram pontos contra sua instalação  nos alojamentos estudantis. Mesmo assim, viveu intensamente a época  de faculdade. 
Conviveu com vários  tipos de mentes. O curso que ele havia escolhido, graças a sua  fascinação  pelas biografias musicais que aprendia diariamente, era o preferido  por jovens que suavam ideologias e revoluções. Cada um ali queria  ser o próximo Guevara e instalar um sistema igualitário no mundo.  Duque queria apenas ajustar sua própria vida e buscar sua independência.   Não enxergava em cores vibrantes, as diferenças sociais que se  apresentavam  à sua volta. Para ele, aqueles garotos com quem compartilhou sua  infância,  estavam ali sujos e descalços pelo próprio descaso das crianças.  Seu único sofrimento era com suas aspirações.
E foi no início do  curso, ainda no meio da agitação criada pelas novidades, que ele  conheceu  Márcia.
Estavam numa sala,  com as carteiras dispostas aleatoriamente, como costuma ocorrer nas  aulas iniciais, onde se busca a interação dos alunos e o despudor  ideológico. O professor havia preparado a aula para uma discussão.  A economia do Brasil estava entrando em uma nova era com a alteração  do padrão monetário. Poucos acreditavam na estruturação proposta  pelo estado e o povo, em grande parte analfabeto, pouco entendia da  situação. Para Duque, esse primeiro debate, sobre um assunto que ele  jamais havia refletido, era a oportunidade perfeita para permanecer  calado. Sentiu que ali ele determinaria se prosseguia ou largava  precocemente  sua formação superior.
“A criação de uma  nova moeda, após fracassadas tentativas para manter a economia estável  e conter o esvaecimento do dinheiro da população, era a nova esperança  que o brasileiro gosta de ter. O modelo apresentado pelo então ministro  da fazenda parecia ser coerente e flutuava como um barco salva-vidas  que avista um sinalizador em meio ao oceano.” 
Essas foram as palavras   que ele ouviu de uma garota, sentada ao seu lado, quando o professor  pediu que alguém manifestasse sua visão sobre o assunto. A garota  então encarou Duque, que olhava perplexo para ela. Perguntou qual era  sua posição e ele disfarçando a confusão que ocorria na sua cabeça,  disse que concordava com tudo e que ela tinha uma grande habilidade  de análise e objetividade para expor suas idéias. 
Durante toda a aula,  ele manteve a tática utilizada pelos governantes da Grécia antiga  – o sofismo. Afinal, se debatiam sobre algo que tinha evoluído  do ideal grego, as estratégias ainda deveriam produzir o mesmo sucesso.  Não levantou novo argumento em momento algum e fez questão de criar  respostas que não concordavam nem afrontavam o que já havia sido dito.
Saiu da aula  transpirando.  Seu cérebro estava em conflito sobre sua vontade de continuar ali e  encarar novas situações como àquela. Parou para refletir e foi  interrompido  por um abraço brusco que o levou até um banco de concreto, onde  foi forçado a sentar-se e só então pode ver quem o arrastava.
Pensou que tivesse  sido o escolhido para a próxima sessão de humilhação. Já tinha  visto vários alunos passando vexame por conta das criativas brincadeiras   dos veteranos. Instintivamente, levou a mão aos cabelos, compridos  e volumosos, alvo preferido dos carrascos. Quando olhou para o lado,  teve uma surpresa, e sua feição que era de preocupação alterou-se  para um alívio, que o deixava leve e sorridente. Era Márcia que estava  sentada ao seu lado, com a mão em seu ombro, sorrindo para ele. 
Foi o primeiro contato  que tiveram e como era normal com o garoto, ela foi a primeira a falar.  Apresentou-se e fez questão que ele fizesse o mesmo. Duque começou  a falar com um leve tremor na voz. Márcia ria da ingenuidade demonstrada   por ele. Aos poucos o diálogo foi nascendo e Duque sentia-se mais à  vontade, em pouco tempo estavam rindo e quando ele contou – não sem  um pouco de vergonha – que tinha uma loja de discos na sua casa, ela  reagiu da forma contrária à que ele esperava. Demonstrou uma agradável  surpresa e perguntou se poderia visitá-lo um dia. Ela ainda não havia  se interessado pela nova tecnologia de reprodução musical e preferia  os amplos discos de acetato de vinila – segundo suas palavras –  aos discos compactos, apelidados de CD.
Em algumas semanas  Márcia já freqüentava rotineiramente a casa do rapaz e os dois  haviam se tornado parceiros nas atividades da faculdade. Passavam horas  estudando, debatendo e se conhecendo mais profundamente. 
Para Duque, Márcia  trazia uma tranqüilidade em relação ao seu futuro nos estudos. Podia  contar com o amplo conhecimento que ela possuía e ainda discorria sobre  diversos assuntos. Há muito tempo não conhecia alguém que ainda  amasse os discos e que fosse tão informada sobre música. E era isso  que o estimulava a querer cada vez mais estar ao lado dela.
Márcia via em Duque  um rapaz frágil e desatado do mundo à sua volta. Sentia que podia  imprimir nele suas marcas e fazê-lo pensar como ela queria. Agradava-lhe   ter esse domínio sobre outra pessoa e a vontade de levar essa  experiência  até o fim e verificar como seria a nova personalidade de Duque, mantinha   nela o interesse por aquele rapaz desengonçado e inocente.
Entre os dois havia  uma mesma intenção – completar-se em outra pessoa. Ambos queriam  conviver com um parceiro que fosse semelhante nas vontades e no modo  de ser. Buscavam por caminhos diferentes os mesmos objetivos. Era uma  espécie de narcisismo que os tornava altruístas. E foi desta necessidade   que nasceu o amor para os dois.
Márcia visitava Duque  com freqüência. Saíam muitas vezes direto da faculdade para a casa  dele e passavam horas ouvindo discos raros que praticamente não se  encontrava em outro lugar. A mãe de Duque já via na amiga do filho  sua possível nora e o aconselhava em relação ao modo de agir com  a garota. Desejava que ele construísse um relacionamento e encontrasse  um rumo para sua vida. Precisava encarar a vida de frente e assumir  as responsabilidades que chegavam com o tempo, ela não podia ensinar  tudo a ele. E nem pode.
Um dia, quando os dois  chegavam da faculdade para montar um debate que deveriam apresentar  para alguns professores, encontraram a loja fechada. Duque demorou para  encontrar a chave que ele não usava já fazia alguns anos. Quando  cruzavam  a loja, toparam com o uma figura que os deixou apreensivos. Seu Gerval  estava apoiado no batente da porta, estarrecido, com uma mão apertava  o coração, como se estivesse sufocando.
Duque correu na frente  e apoiou o senhor que mal conseguia andar, mas descobriu em seguida,  que o problema não era com ele.
Márcia chamou Duque  e o abraçou. Quando ele olhou para a cozinha, viu sua mãe caída.  Ela havia sofrido um enfarte e quando Seu Gerval foi procurá-la para  fechar a loja, encontrou-a sem sentidos à beira da pia. Havia chamado  o serviço de saúde, mas já não existia nada que pudesse fazer.
Duque ficou alguns  instantes sem pensamento algum. Não se mexia e não dizia palavra alguma.   Parecia ter morrido junto com a mãe. Quando conseguiu fazer algo, correu   e abraçou a mãe que estava distendida sobre o velho tapete de borracha  que estava ali para evitar uma possível queda, mas que não pode  amortecer  o mundo de Duque, que sucumbia.
Uma semana após o  incidente, Seu Gerval decidiu encerrar suas atividades na loja. Disse  que não conseguiria continuar ali, com as lembranças que o  atormentariam.  Pensou em se desfazer de todo o material, vendendo para algum outro  comerciante, mas sugeriu que Duque continuasse seu ofício. Ele não  teria outra forma de renda, e por menos que rendesse a loja, ainda era  uma quantia que o manteria com uma vida tranqüila, podendo pensar em  outra forma de gerir o negócio.
Márcia sabia que  trabalhar  na loja tiraria a possibilidade de Duque concluir a faculdade, mesmo  assim, decidiu apoiá-lo e pediu o rapaz em casamento. Precisava dar  uma base para Duque se sustentar e realmente estava apaixonada por ele.  Foi a solução mais plausível no momento e acabou por resgatá-lo  do abismo em que ele pensava em mergulhar.
Duque abandonou o curso   de história e passou a dedicar-se à vida de vendedor. Dividia o tempo  entre passar discos e ensinamentos sobre música para os clientes, que  eram decaíam na época, e cuidar da casa e da mulher que havia assumido  o posto de pessoas mais importante na sua vida.
E foi nos últimos  meses da faculdade, quando eles já levavam uma vida estável,  que Márcia descobriu que estava grávida. Uma nova alegria e uma nova  preocupação. Duque começou a perceber que estes dois sentimentos  andavam sempre juntos. E que era hora de crescer mais, e tornar-se,  ele, agora, um pilar onde sua família pudesse encontrar amparo e  sustentação.
Os folhetins  publicados  fazem parte da editoria Crônicas do  Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são  exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial  sem a autorização de seus autores  é proibida. Respeite os direitos autorais.


Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil
Anúncios

Tags:,

Categorias: Crônicas do Olimpo

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: