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Mestre Jonas

Capítulo XVII: Indicado

Por Lucas Marcelino

Era uma tarde de verão. Excepcional como todas as tardes desta estação que aformoseia pessoas de bem com a vida e causa pavor àquelas que não têm tanto a comemorar. Os dias ardentes, úmidos e o Sol extasiante que atravessa, à frente de Apolo, todo o empíreo límpido e brilhante, rajando contra a Terra seus raios, que assim como as flechas do deus que o acompanha, causa doenças e produz curas, são transformados em vilões por pessoas que não querem ver o mundo brilhar.

Duque pelo contrário, sempre foi admirador do Sol – com toda sua realeza nos céus e o poder místico criado pelos gregos para adorá-lo. Costumava nos momentos de pouco movimento, quando sua loja não chamava atenção dos transeuntes e ele podia sentar-se nos degraus, passar horas tomando aquele sol, que revigora as forças ao mesmo tempo em que parece produzir um peso nas pálpebras. Por mais que não fosse seu desejo permanecer com a loja vazia, tinha uma simpatia e acima disso, uma inveja dos prédios vizinhos que possuíam bares praticamente sem movimento. Onde era possível retirar o necessário para se sustentar e ainda assim passar momentos de folga em pleno expediente. Quantas vezes ainda via pela vidraça, seus amigos encostados nas colunas, ou, então, o velho Dalvino que levava uma cadeira para frente do bar e chegava a tirar cochilos – soltando pequenos roncos – em plena luz do dia. Talvez – pensava Duque – fizesse isto para provocá-lo, pois, sabia que ele jamais deixaria que alguém levasse algo do botequim, mesmo que a sesta fosse mais importante. Mas, agora, ao mesmo tempo em que o sucesso rondava os velhos vinis, estimulado por mais uma dessas psicoses febris, que surgem subitamente e elevam ao mesmo patamar de Apolo qualquer objeto insignificante, vinha a labuta para quem por anos cultivava amor quando os mesmos ainda eram motivo de deboche e sátiras.

Por anos Duque ouviu de pessoas que carregavam o rótulo de modernas, brincadeiras e conselhos difamatórios sobre o ramo da sua boutique – termo usado uma vez por uma senhora, que dizia que aquilo era tão bom e tão desatualizado como os franceses. Como resposta, disse que se as pessoas dessem a importância devida aos discos e às paixões como os franceses, São Paulo talvez pudesse ter o charme e a elegância que ela provavelmente admirava de Paris. Arrependeu-se logo que terminou a frase, pois, a única cidade a quem ele entregava sua paixão e, sua vida, era São Paulo. Mas manteve a posição agressiva com que soltou a frase enquanto lançava o olhar sobre a senhora que abandonava a loja.

Naqueles dias, no entanto, não era mais possível tomar essas decisões enamoradas a todo momento. O fluxo de clientes era alto e mal tinha tempo suficiente para citar suas famosas e superestimadas curiosidades sobre músicas, compilações e artistas. O trabalho começava a ficar desgastante e ele não se sentia totalmente feliz, vendendo objetos de tamanho estimo para pessoas que provavelmente os tratariam com abuso no início e com descaso no futuro – mais ou menos como as pessoas tratam seus amores. Por isso desejava rapidamente encontrar um ajudante, que se juntasse a ele e ao casal apaixonado, que por esse motivo, andava causando alguns transtornos.

Eduardo, que sempre fora pontual e incansável, após dividir-se entre seu quarto nos fundos da loja e a casa de Isabella, havia se tornado um funcionário normal. Chegava algumas vezes com atraso, assoviando Samba e amor. Tinha momentos de pura lassidão, onde parecia querer fugir dali. E de uns tempos pra cá – havia comentado com Duque durante um momento em que jantavam após o expediente – começara a provar alguns tipos de drogas, de forma consciente e controlada – como ele dizia. Não abusava e nunca demonstrou sinais de que estivesse sobre o efeito delas, mas Duque sempre o alertava sobre o perigo que a mente humana oferece a todo instante a si mesmo. Quando ouviu que o jovem queria experimentar drogas alucinógenas como o LSD, Duque, que já tinha provado os efeitos, tentou ser claro, como fazem os pais ao dizer aos filhos como eles vêm ao mundo. Argumentou apenas que os efeitos podem ser variados dependendo do momento psicológico do usuário, mas como ele era o homem mais feliz que conhecia o ácido só aumentaria seu estado de alegria por um tempo, talvez até estimulasse sua arte.

Só que Duque ficava preocupado mesmo com o rendimento do trabalho. Já estava difícil manter o ritmo e se Eduardo tivesse algum problema, ele não teria como sustentar o funcionamento da loja.

Aos poucos surgiram alguns interessados em trabalhar naquele recinto. As entrevistas eram rápidas e objetivas, como se estivessem conversando rotineiramente com algum amigo. Após uma delas, com uma moça jovial, os dois comentavam as qualidades da concorrente. Eduardo foi enfático:

– Você viu que corpo? E ainda assim consegue ser simpática, diferente do normal para mulheres bonitas.

– Eu percebi, mas acho que você iria apanhar um bocado da Isabella se a gente contratasse essa moça. Duque deu dois tapas de consolo no ombro do amigo.

– Que nada, ela não tem esses modos individualistas. Às vezes acho que ela sabe muito bem do potencial que tem. Jamais eu a trocaria. Pode contratar sem medo.

– Não. É melhor procurarmos outra pessoa. Ela não me agradou tanto quanto a você. Tem horas que acho que você foi fraco por não resistir a Isabella. Disse Duque, usando uma entonação como se Eduardo fosse um homem que se entrega a paixões de forma despreparada, apenas olhando uma mulher.

– Ah sim, você sabia que não tinha chance com ela, por isso, nem quis tentar algo. Mas se essa garota tem o que a gente procura, por que você não quer contratá-la? Pode ser que ela vire até minha patroa futuramente, mas tudo bem. Desde que você seja feliz. Dando de ombros, Eduardo caçoava da solteirice do chefe.

– Eu quero alguém pra trabalhar, não uma modelo pra fazer propaganda. Nós já temos clientes, e eu não quero uma reunião em torno dela. Mas você se daria bem, com certeza ninguém iria se interessar pelos seus conselhos.

– Tudo bem. Vamos pensar em outra pessoa. Aquele rapaz de ontem, parecia gostar bastante de música.

– Reprovado. Duque respondeu seco, meneando a cabeça negativamente.

– Por quê? Eduardo estava ainda mais confuso com o método de seleção e, principalmente, cansado de trabalhar naquele ritmo.

– Porque ele eu quero um funcionário, não alguém para brincar num parque de diversões.

– Mas ele conhece quase tudo. E você sempre diz que isso é um parque de diversões.

– só que eu trabalho como o diretor do parque. Não vou largar os instrutores correndo pelos brinquedos.

– Já não sei o que você pretende, mas acho que assim vai ser difícil ter mais alguém almoçando conosco todos os dias. Eduardo levantou-se e foi para seu quarto. Já era tarde e foi dormir.

Duque fechou a loja e dirigia-se para sua casa, quando, inesperadamente, o telefone tocou. Ele voltou, contrariado, para atender. Uma voz conhecida, mas um pouco irreconhecível chamava do outro lado. Depois de ficar brevemente estático, Duque respondeu e teve uma surpresa tão grande quanto aquela no dia em que Eduardo apareceu na loja. Depois de conversar por alguns minutos e tentar desesperadamente conseguir uma entrevista pessoalmente, teve que ouvir tudo por telefone mesmo, atitude que ele odiava, e terminar a ligação ainda mais sobressaltado do que quando atendeu aquele telefonema.

No dia seguinte, Duque abriu a loja e quando Eduardo encontrou-o, estava pensativo, com o olhar vago na vidraça e o rosto apoiado sobre a mão fechada que forçava e desfigurava sua face. Ele ainda parecia conversar consigo mesmo, mexendo de leve os lábios e movimentando os olhos como se raciocinasse sobre um argumento levantado por um ser imaginário.

Eduardo vendo aquela cena estranha, e, percebendo que havia algo emblemático naquela conjuntura, foi até ele e acordou-o daquela abdução. Duque despertou com um olhar de dúvida e em seguida concordou. Eduardo não entendeu a ambigüidade e perguntou o que havia ocorrido.

– Bom, a gente não precisa mais procurar um funcionário. Foi a resposta que ele deu, firme.

– Por quê? Você encontrou alguém? É por isso que está com essa cara.

– Sim. Foi de um jeito que eu jamais esperava, mas até que foi uma boa solução. Agora é preparar as mudanças que ocorrerão.

– Mudanças? Mas a gente não ia querer alguém somente pra repartir nossas funções? Acho que não vai ser tão difícil assim.

– Para você não. Mas para mim, muita coisa muda agora. Acho que eu já deveria ter encarado isso antes. Agora a vida me entrega tudo, assim, na minha porta.

– O que está acontecendo? Pelo menos me ponha por dentro das circunstâncias. Sou teu amigo, me diz quem é esse funcionário.

Duque falou com a voz presa, sua garganta parecia não querer abrir. Dos seus lábios, saíram palavras que Eduardo não conhecia no vocabulário do amigo.

– Meu filho.

– Quem? Eduardo franziu o cenho e se aproximou do balcão onde estava aquele homem, que demonstrava no rosto uma fisionomia de quem confessava seu maior segredo. Talvez fosse impossível, até mesmo para aquele homem um tanto misterioso, ter um segredo maior que este.

– Meu filho. Ontem, depois que você se retirou, recebi uma ligação da Márcia, dizendo que iria mandar meu filho para morar comigo por um tempo. Eu não imaginava que isso fosse acontecer tão rápido, mas após eu dizer que não tinha interesse em me reaproximar muito dela, essa notícia foi solta, como uma repreensão a minha atitude. Agora é só esperar ele chegar.

– E como você se sente com tudo isso?

– Com todos os sentimentos do mundo. Fico feliz e preocupado. Não sei como as coisas vão ser daqui pra frente, mas tenho certeza que serão excelentes. E com novas emoções. Vamos trabalhar e deixar o tempo passar, enquanto a gente pode.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora

São Paulo – SP – Brasil

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