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Metalinguagem

O jornalismo prostituto

 

e os cafetões da guerra

por Érica Perazza

 

A impunidade não ocorre somente entre criminosos que roubam e assassinam. Ela está presente em todos os patamares da sociedade como o governo e a imprensa.

A começar nos EUA, onde a reputação estatal e midíatica cambaleou devido ao caso Watergate na década de 70 e praticamente despencou na era Reagan. Atualmente, pactos entre esses poderes ( e também ações acima da lei do próprio Estado) veem destruindo os últimos resquícios de independência e neutralidade na comunicação à população.

A organização FAIR publicou um artigo no qual acusa New York Times de ignorar a notícia da morte de dezenas de civis afegãos causada por ataques aéreos americanos sobre a vila de Niazi Kala, praticados em dezembro de 2002. De acordo com o Pentágono, “a vila era um alvo legitimamente militar, pois abrigava líderes do Talibã. Como acreditar sendo que o mesmo Pentágono durante a Guerra do Afeganistão, comprou imagens de satélite para a mídia não ter acesso a nada?

Segundo a ONU, ” mulheres e crianças desarmadas foram perseguidas e mortas por helicópteros americanos, enquanto tentavam se esconder ou resgatar sobreviventes”. Apenas jornais britânicos como o The Guardian, apurou o ataque e reportou que, como os corpos estavam muito destruídos, foi dificíl saber precisamente quantos  civis afegãos foram mortos, estimam entre 32 a 107.  [ Clique aqui para ler a matéria da FAIR, em inglês ]

Além do mais, a Guerra do Iraque que os americanos tratavam como “libertação” com arsenal de armas cirúrgicas (que acertam precisamente o alvo, sem atingir seres humanos) foi transmitida pela CNN na época sem vítimas. Sabemos hoje que pelo menos 150 mil morreram ou foram gravemente feridos. Se foi possível falsificar imagens de um conflito ao vivo, como o cinema faz com efeitos especiais, do que mais as redes de telecomunicações são capazes de fazer e esconder? Foram os soldados que morreram em vão, mas a mídia que serviu e serve à Guerra em nome de sua hegemonia.

No Brasil, a Rede Globo, criada durante o regime militar obedeceu como uma filha aos ditadores. Como relata o jornalista, José Arbex Junior, em O Jornalismo Canalha, ela “disseminava uma imagem positiva do regime, de mostrar à classe médias as ‘vantagens’ do chamado ‘milagre econômico’ e mesmo de construir uma falsa sensação de ‘união nacional’ em torno do poder. Paulo Henrique Amorim criticou uma vez: “Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.”

Enquanto isso, milhares de estudantes, militantes, inocentes que lutavam até sua última gota de sangue a favor da liberdade, eram presos, torturados e mortos. Estima-se que foram 30 mil torturados. A imprensa considerava “terrorista” qualquer um que resistisse ao autoritarismo do regime, mas foi ela que se tornou cúmplice de crimes contra a vida. Grande parte dos desumanos que cometerem tais crimes continuam livres, recebendo até aposentadorias pagas com os impostos de suas vítimas. O livro “Luta, Substantivo Feminino”, da série Direito à Verdade e à Memória possui 27 depoimentos de sobreviventes (intercalados às histórias de 45 mortas e desaparecidas na resistência à ditadura) na qual uma delas conta: “Eu era jogada, nua e encapuzada, como se fosse uma peteca, de mão em mão. Com os tapas e choques elétricos, perdi dentes e todas as minhas obturações.”

Vários gritos de dor foram silenciados pelo jornais brasileiros para dar voz a um jornalismo de realidade covarde e arbitrária. São imensuráveis as coberturas distorcidas e despedaçadas; e não somente a manipulação dos fatos, mas como observa Perseu Abramo, “um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade”. Um acontecimento não apurado ou tratado corretamente pela imprensa, deixa de ser real, deixa de existir. Pelo menos é o ELA acha. As versões oficiais (que claramente não são imparciais) sobre o mundo substituem e anulam todos os outros universos existentes. Reportagens descontextualizadas, antagônicas, impostas, irrelevantes mancham a construção de uma identidade cidadã, pois tantas vezes nos submetem e nos induzem a pensar, a acreditar e a viver de uma única forma possível e limitada num mundo já definido e comprimido.

O jornalismo prostitui-se, vendeu sua alma ao demônio do capitalismo. O poder goza com prazer a cada omissão, a cada distorção, a cada mordida na defesa dos interesses dos menos favorecidos. São orgias masoquistas, todos compram seu amor hipócrita e sujo.

 

Quantas são as vidas que se perdem e não são encontradas, quantos fatos corruptos acontecem que a mídia, aliada ao governo, coloca um manto fétido em cima? Nós nunca iremos descobrir ou nem chegar perto das verdades das mentiras contadas. Quem são eles para dizerem que não temos o direito de saber? Quem são eles para retirar nossos direitos previstos na Constituição? E quem somos nós que nos permitimos deixar outros tornarem-se donos de nossas visões de mundo e construírem nossas próprias verdades?

 

 

 

 Leia também:

O consumismo da dor e do sangue – Por que o comércio da violência vende e por que é vendido afinal

 

 

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Categorias: Caixa de Pandora, EUA, Metalinguagem

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2 Comentários em “Metalinguagem”

  1. 3 de julho de 2010 às 17:08 #

    Excelente artigo.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Metalinguagem « Pandora | Vivo Media Group - 28 de junho de 2010

    […] Link: Metalinguagem « Pandora […]

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