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Cirurgia da imagem

Folha renova seu projeto gráfico, mas não cura o câncer de sua credibilidade

por Thaís Teles

Rádio, televisão, internet. A Folha de S. Paulo criou campanhas para todos os veículos de comunicação a fim de chamar a atenção do público para seu novo projeto gráfico. A partir dos anúncios, a idéia era aflorar em todas as classes e tipos de leitores a curiosidade para a nova cara do jornal.

Segundo Eliane Stephan, designer e responsável pela mudança visual do jornal, o objetivo de tais mudanças era fazer “um jornal mais jovem, mais alegre, por um lado; mais organizado e, em certo aspecto. Em suma, torná-lo tipograficamente mais forte, no geral” Para tanto, as páginas do veículo passaram a ser dispostas em blocos de textos com tamanhos pré-definidos, chamados de módulos, além disso, foi-se estabelecido uma certa hierarquia na disposição das notícias, que dá ao leitor a percepção de quais matérias são relevantes. Outra mudança colocada em prática pelo jornal foi o aumento de 12% no tamanho das letras, a presença de cores fortes, como o azul que domina as páginas.

A adoção de tais medidas está ligada à vontade de fazer com que o jornal impresso dialogue com o mundo digital, o azul forte adotado para destacar diversas páginas, torna a leitura, em alguns casos, enjoativa, como no caderno de esportes, o título em destaque é destacado pelo laranja forte e de fundo o azul royal se torna evidente. A mistura de ambas as cores chama a atenção do leitor, mas contribui para que depois de um tempo perca seu charme. Porém, em alguns casos, essa mistura de cores deu muito certo e contribuiu para modernizar o jornal, como no caso do primeiro caderno, no qual os blocos são destacados pelo fundo azul e o assunto por um azul marinho, O contraste das cores deu uma vivacidade à página, em suma uma mudança positiva. Alguns cadernos, como a Ilustrada, receberam modificações mínimas, como o aumento no tamanho das fontes, fotos mais chamativas, e o caderno passou a ser dividido em blocos, pequenos detalhes que modernizaram e deixaram o caderno mais vivo, mas não se pode dizer revolucionário, apenas mais apresentável, uma vez que antes a Folha de S. Paulo, diferenciava seus cadernos pelas cores das fontes, padrão utilizado em alguns casos, como nos esportes e na Ilustrada.

Em suma, o leitor que sempre leu a Folha percebe claramente as mudanças, mas a modernização proclamada pelo jornal a partir desse novo projeto gráfico pode ser confundido com a perda do charme e qualidade que o veículo sempre procurou manter e tinha uma boa receptividade por parte dos leitores.

O novo projeto gráfico cumpre, em partes o que foi prometido, algumas mudanças contribuíram de maneira significativa para torná-lo mais atraente e moderno, porém, mudanças como o aumento das fotos e das letras fazem com a qualidade do texto seja questionada, uma vez que devem ser mais concisos em menos explicativos, ou seja, os leitores tem que saber interpretar a notícia de maneira correta. Essa idéia contradiz a essência jornalística, pois ao invés de esclarecer um fato o veículo passa a contar com o bom senso e inteligência do público, que é formado por diferentes classes sociais, idades e níveis de escolaridade. Nesse ponto, a Folha de S. Paulo tem o intuito de equiparar sua linguagem impressa com a virtual, nesta as notícias precisam ser concisas e diretas, porém, esse tipo de linguagem não condiz com os veículos impressos, uma vez que quem os procura são indivíduos que têm tempo e prazer de ler informações mais completas e profundas. Essa limitação da notícia contribui para que o jornalismo mal feito e preguiçoso se impregne cada vez mais nos novos profissionais e que a pesquisa, checagem, enfim, o fazer jornalístico seja apenas uma lembrança.

Em sua coluna, Suzana Singer, ombudsman da Folha, exemplificou a insatisfação dos leitores com as novas mudanças: “…De 147 mensagens enviadas sobre o novo projeto gráfico, só 18 foram de elogio. As críticas, no entanto, quase não apareceram no jornal.” e “…‘Os jornais estão diminuindo cada vez mais a letra para economizar papel. É uma idiotice porque, se é ruim de ler, a gente perde o interesse”, disse um leitor. Manifestações como estas mostram que a modernização dos tempos em decorrência do advento e presença da internet no cotidiano das pessoas não significa a necessidade da modernização de suas tradicionais fontes de conhecimento, no caso, os jornais impressos.

As melhorias estipuladas pela Folha de S. Paulo estão ligadas à queda na lucratividade que o jornal vem sofrendo ao longo dos últimos tempos. Além da crise financeira que abalou o mercado nos últimos meses, o veículo, no ano passado, publicou uma matéria na qual caracterizou os tempos da ditadura brasileira como “ditabranda”.A notícia repercutiu em todo país e desde então o veículo perdeu da sua credibilidade para muitos leitores. Esses dois fatores foram essenciais para que a direção do jornal procurasse medidas para recuperar os prejuízos, para tanto, apostaram no novo projeto gráfico, que ao contrário das expectativas, não agradou o público.

Mudar cores, tamanhos das fontes e fotos contribuem para dar uma nova cara ao jornal, porém, o que realmente atrai leitores é a capacidade de esclarecimento e lealdade que o veículo pode oferecer. Em muitos aspectos o projeto gráfico da Folha é plausível, não há como negar que mudou alguns paradigmas, mas a aparência fica em segundo plano quando o assunto é qualidade.

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