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Ônibus 174

Dez anos do espetáculo televisionado

Por Marjorie Okuyama

Exatamente dez anos atrás, um ônibus da linha 174 foi parado por volta das quatorze horas por um rapaz de 22 anos, Sandro Barbosa do Nascimento. A partir daí, desencadearam-se uma série de acontecimentos que resultaram num fim trágico.

No Bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, policiais, jornalistas e curiosos formaram uma multidão em volta do ônibus que foi seqüestrado durante cinco horas e dez pessoas do sexo feminino foram mantidas reféns pelo seqüestrador. O episódio teve cobertura ao vivo em rede nacional e ficou tão marcado na memória de todos que foi feito um documentário dirigido por José Padilha em 2002 e em 2008 um filme intitulado Última Parada 174 na direção de Bruno Barreto.

Na sociedade contemporânea é difícil não estereotipar as pessoas e Sandro foi mais uma vítima. Garoto de rua pobre, viciado em drogas e sem nenhuma perspectiva de vida acaba vivendo de assaltos, vai para a cadeia, é solto e volta as ruas continuando sem rumo perdendo assim sua esperança de ser feliz e vivendo dia após dia tentando sobreviver de alguma forma. Mas a história não começa assim, Sandro viu sua mãe ser degolada aos seis anos e depois disso, foi viver na rua. Todos chegam inocentes, mas precisam lutar para viver e assim começa a sua jornada e o primeiro passo é cortar relações com o passado tentando fugir da dor e do sofrimento buscando diversas válvulas de escape. Não foi diferente com Sandro, no dia 12 de junho pela primeira vez ele tornou-se o protagonista de sua própria história.

Não se sabe se ele estava drogado no dia do seqüestro, porém uma coisa é certa: a cobertura da mídia influenciou na operação policial. Ele se incomodou com a imprensa chegando cada vez mais perto do ônibus, a polícia teve várias oportunidades para pegá-lo, porém sentiram-se pressionados uma vez que toda a operação estava sendo transmitida ao vivo. E, depois de cinco horas, Sandro simplesmente saiu do ônibus com uma refém, pegando os policias de surpresa. Já fora do ônibus, o atirador do BOPE, Marcelo tomou a iniciativa de dar o tiro, mas acabou acertando a refém Geísa Firmo Gonçalves ela acabou levando mais três tiros disparados por Sandro. Ele foi imobilizado e morreu asfixiado dentro do carro de polícia. Após alegações de que a morte de Sandro foi ocasional, os policiais responsáveis pela morte de Sandro foram levados a julgamento por assassinato e foram declarados inocentes.

O fato que mais chamou a atenção foi a indignação das pessoas que gritavam para os policias matarem o seqüestrador. É exatamente esse o trabalho da polícia hoje em dia, eliminar os ‘sandros’ que a sociedade se recusa a ver. Sandro Barbosa do Nascimento representou os diversos meninos de rua que existem até hoje e que a sociedade aprendeu a conviver como parte do cotidiano e, a partir do momento que eles invadem seu espaço, as pessoas querem mesmo que tudo acabe exatamente como num espetáculo clichê onde o bandido morre no final e fecham-se as cortinas.

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Categorias: Cinema, Especial, Hades, Rio de Janeiro

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3 Comentários em “Ônibus 174”

  1. 22 de junho de 2010 às 22:25 #

    POUCO DIVULGADO.POR QUE SERÁ…..PROF.a NELI

  2. Jéssica
    23 de junho de 2010 às 19:28 #

    Texto muito bom.

    “…a partir do momento que eles invadem seu espaço, as pessoas querem mesmo que tudo acabe exatamente como num espetáculo clichê onde o bandido morre no final e fecham-se as cortinas.”

    É essa a sociedade hipócrita em que vivemos.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Crônicas do Olimpo: Emoções e promoções « Pandora - 12 de junho de 2010

    […] dez anos, o ônibus da linha 174 foi sequestrado por Sandro Barbosa do Nascimento, que manteve por quatro horas dez reféns, no […]

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