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Mestre Jonas

Capítulo XVI: Núpcias

Por Lucas Marcelino

Enquanto Eduardo corria para poder concluir sua surpresa, Isabella preparava tudo para deixar a situação perfeita e concluir a conquista do seu novo amor. Quando viu pela primeira vez aquele homem não imaginava que poderia sair daquela loja, algum dia, levando algo mais que discos e muito menos que fosse se interessar por histórias que não estivessem gravadas naqueles acetatos. Mas com o tempo e as visitas posteriores, percebeu quão diferente era aquele atendente que parecia não ter outra opção na vida a não ser trabalhar ali. A impressão que ele deixou foi de que era obrigatoriamente submisso a Duque e que ali, como se fosse a versão masculina das princesas dos irmãos Grimm, estava um sujeito pronto para enfrentar a vida e preso por uma falta de oportunidade. Ela errou quanto a relação de Duque com Eduardo, mas pôde comprovar com o tempo que o rapaz era mesmo uma figura fascinante.

Isabella aproveitou-se da ausência do namorado para montar o quadro que ela achava ideal para gravar para sempre na mente de Eduardo sua própria imagem. Decidiu que naquela noite remataria sua condição de amor único de Eduardo e captaria o coração dele. Estava decidida a formar uma única pessoa com Eduardo e aquela seria a noite em que se entregaria como corpo para unirem-se como alma.

Quando Eduardo chegou até a casa encontrou Isabella ainda mais linda do que ele já a conhecia. Mesmo com a correria que ele utilizou para montar sua surpresa houve tempo suficiente para Isabella arrumar-se e produzir um clima extremamente romântico. Naquele momento os dois haviam encontrado a sintonia que faltava para poderem se entregar ao desejo que o corpo exigia, seria naquele momento uma primeira noite de núpcias. Mesmo sem realizarem o matrimonio sentiam-se prontos para terem o momento que as pessoas costumam guardar como se precisassem de autorizações e liberações celestiais. Entre eles já havia o sentimento mais sagrado e por isso julgavam válido que pudessem se entregar ao prazer sem ferir regras, que na verdade não reinavam sobre eles. Se um homem e uma mulher chegam ao nível de amarem-se incondicionalmente não há porque aguardarem licença para o ato do sexo, no momento em que o amor comanda as atitudes tudo é válido para que ele seja ainda mais forte e completo. E foi pensando assim que eles tiveram a primeira noite de concupiscência. Tinham agora assumido o estágio mais alto do amor, onde nada mais entre eles estava escondido. Um pertencia totalmente ao outro.

No dia seguinte, Duque acordou sem a tradicional dor de cabeça que persegue àqueles que exageram no álcool. Sentia-se bem e logo lembrou tudo que havia passado na noite anterior. Como Eduardo ainda não deveria ter chegado, decidiu abrir a loja e começar a trabalhar. Escolheu como trilha alguns discos de Caetano Veloso. De vez em quando tinha a necessidade de repassar algumas discografias e encontrar novamente pérolas musicais que já havia esquecido. Foi até a prateleira e encontrou o disco Qualquer Coisa, colocou para rodar e começou a organizar a loja antes de liberar a entrada para os clientes. Deliciava-se com as músicas do disco que ele considerava um dos melhores do cantor baiano. Entre as composições primorosas e regravações dos Beatles estava uma música que agradava muito a ele. No momento que Duque retornava a agulha para o começo da música pela terceira vez, Eduardo entrou na loja.

– Que aspecto bom você apresenta rapaz. Nem preciso perguntar como você usou os pedais, parece que você pisou fundo neles. Duque cerrou o punho numa espécie de comemoração. Sempre fora assim com os amigos, gozando de coisas que normalmente poucas pessoas tomam a liberdade de comentar.

– Estranho, pensei que você reclamar por eu estar atrasado e não ficar tirando uma com a minha cara. Você às vezes coloca as coisas em patamares inadequados. Nunca sei quais são suas prioridades.

– É que exatamente agora encontrei uma música que há muito tempo não ouvia. Engraçado como as coisas acontecem, parece que nem o mundo sabe botar as coisas em ordem. Sempre surge uma surpresa.

– E que música seria essa? Provavelmente você vai zombar de mim. Falando nisso, amanhã te entrego o disco. Foi meio difícil convencer Isabella de que ela não podia ficar com ele

– Silêncio. Ouve essa parte. Duque interrompeu o amigo e aumentou o volume do rádio. Nesse momento Caetano cantava a frase:

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?

– Essa música é perfeita pra você. Viu como a gente acha cada coisa no meio desse monte de plástico velho. O Caetano sempre me surpreende, essa música se chama “Samba e amor”. É a desculpa perfeita pro seu atraso hoje. Pode ficar tranqüilo que dessa você escapou.

Eduardo já havia se acostumado com o jeito irreverente que Duque usava para resolver as situações estranhas que apareciam. Por isso mesmo tolerava as brincadeiras dele. Sabia que ele não queria dizer realmente o que dizia, mesmo quando falava sem metáforas, estava sendo metafórico.

– Quer dizer que eu devo sua paciência ao Caetano? Realmente a vida é surpreendente. Nunca imaginei que fosse dever um favor a um homem com uma cabeleira dessas. Eduardo devolvia a provocação zombando do dono da loja que usava uma cabeleira vistosa.

– Pois você deve a dois. E é melhor que ser demitido por um atraso de meia hora. Sorte sua que eu coloco as prioridades na ordem errada e seu emprego está a salvo. Por sinal a gente precisa falar sobre isso.

– Caramba, o dia estava ótimo até agora. Vamos, qual o problema?

– Não basta a noite ser maravilhosa? O dia é diferente bicho. Como você agora tem outras atividades e o movimento está mais forte eu vou te dar um aumento. Só que a gente precisa aumentar o ritmo até eu conseguir contratar alguém.

– Contratar. Mas a gente sempre deu conta do recado, funciona tudo certinho aqui. Eduardo não imaginava que fosse dividir aquele ambiente. Na verdade, não esperava que um dia fosse ser necessário mais funcionários para atender os clientes e muito menos que eles viessem.

– E você já tem alguém em mente? Como você vai fazer para contratar uma pessoa para vender discos?

– Da mesma forma que eu contratei você. Vou olhar para a cara do indivíduo e dependendo do que estiver escrito nela ele tá contratado. Só que desta vez não vou contratar nenhum delinqüente. Na verdade eu vou chamar algumas pessoas e a gente vai decidir junto, não quero que você fique revoltoso com a minha escolha.

– Tudo bem patrão, você que manda. Quando a gente vai começar a entrevistar os candidatos?

– Assim que eles aparecerem. Que tal se eu colocar um anúncio numa folha de sulfite e colar na vidraça da loja? Aqueles que souberem ler já estarão aptos a concorrer à vaga. Duque não largava seu sarcasmo mesmo quando tratava de coisas sérias.

Já haviam se passado mais de um ano desde que Eduardo começou a trabalhar com Duque e nesse tempo o movimento realmente havia aumentado consideravelmente. Quando Isabella apareceu na loja eles já tinham a intenção de estender o expediente, mas ainda não era viável ter outra pessoa trabalhando. Por um lado o trabalho era excessivo, mas com outra pessoa poderia ficar ocioso e nenhum deles reclamava de fazer algo que gostavam.

Os meses iam se seguindo enquanto Duque e Eduardo buscavam a pessoa certa para trabalhar. Era preciso que fosse alguém que não tivesse apenas capacidade para realizar o trabalho, mas que agradasse a ambos. O clima deveria permanecer da mesma forma, um tanto familiar. Nesse período Isabella passou a ajudar nas vendas, principalmente nos fins de semana, quando não estava trabalhando. Ela desempenhava perfeitamente o papel que os dois homens haviam traçado para o novo funcionário, era uma pena que ela não pudesse largar a advocacia para juntar-se a eles.

Vez ou outra apareciam alguns aspirantes a vaga. Não eram necessariamente aquilo que Duque esperava, não teve um feeling perfeito com nenhum deles, mas surgiram pessoas interessantes e métodos curiosos que Duque utilizava para desqualificá-los.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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