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Filosofia

A Questão da Verdade em Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral

por Túlio Madson

Nietzsche em “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral” limita o conhecimento como sendo estritamente humano, e enfatiza a impossibilidade do conhecimento em conduzir a algo “além da vida humana”, contudo os homens insistem em querer universalizar o conhecimento, transformando-o em algo que está fora de si mesmo

A faculdade do pensamento foi concebida ao homem como uma defesa natural, com a finalidade de conservar-se, tendo em vista a fragilidade física de seu corpo. Para conservar-se o homem através do intelecto especializou-se no disfarce. Porém esta exclusiva defesa natural acabou tornando-se para ele uma vaidade.

Dado isso é estranho como no homem, que por natureza precisa do disfarce, da dissimulação, para conservar-se, possa ter aparecido um compulsivo impulso a verdade. Nietzsche responderá a essa questão afirmando que o impulso à verdade é causado porque o homem por necessidade quer existir socialmente, e esse existir socialmente só se faz possível com uma série de convenções lingüísticas, onde são estabelecidas regras gramaticais e designações obrigatórias entre significado e significante. Assim é criado, portanto a noção de mentira, visto que quem infringir essas designações estará fugindo das convenções estabelecidas com a vida em sociedade, e será imediatamente posto à margem dela. Se analisarmos a fundo esta questão, chegaremos à conclusão de que a moralidade surge com uma diferenciação entre verdade e mentira, posto que aquele que não segue as convenções lingüísticas estabelecidas pela vida em sociedade, e nega aquilo a que todos convencionam como verdade, será rotulando como mentiroso, e terá uma visão depreciada de seu caráter, porque a sociedade relaciona a noção de verdade com a de “bom” e virtuoso, sendo isto a base dos seus preceitos morais.

Entretanto o homem almeja apenas as verdades que lhes são agradáveis aquelas que conservam a vida, ignorando as “verdades perniciosas e hostis”. Dizer a verdade, portanto, é “mentir em rebanho”, é usar as metáforas usuais de acordo com a convenção estabelecida. Esse processo de “mentir em rebanho” leva a um esquecimento inconsciente de que todo enunciado é uma mentira em seu caráter originário, fazendo-nos crer que se trata necessariamente de uma verdade universal, que transcende a nossa subjetividade.

A linguagem designa as relações entre as coisas e o homem. Tal designação se dá através da elaboração de metáforas, ou seja, um estímulo nervoso é transposto em uma imagem, formando assim uma metáfora, em seguida, essa imagem é transposta em um som, formando uma nova metáfora, logo tudo o que sabemos das coisas são as metáforas que associamos a elas. Quando a palavra já não traz mais a recordação para a imagem metafórica da qual se originou, faz-se necessário a elaboração de um conceito, ou como nos diz Nietzsche:

“Toda palavra torna-se logo conceito quando não deve servir como recordação, para a vivência primitiva, completamente individualizada e única à qual deve seu surgimento, mas ao mesmo tempo tem de convir com um sem-número de casos, mais ou menos semelhantes, isto é, tomados rigorosamente, nunca iguais, portanto, a casos claramente desiguais. Todo conceito nasce por igualação do não-igual.” 

Tudo o que separa o homem dos animais dirá Nietzsche, depende dessa aptidão de liquefazer a metáfora intuitiva em um esquema, portanto em dissolver uma imagem em um conceito. Enquanto a metáfora intuitiva é única e individual, o conceito é regular e rígido.

Chama-se verdade, portanto, o ato de usar corretamente cada conceito e designação, respeitando a ordenação e as convenções hierárquicas de cada um. O contrário disso é o mito e principalmente a arte, que embaralha os conceitos, que almeja novas transposições e metáforas, mostrando que o homem é irregular e inconseqüente, e justamente por isso é dotado de uma admirável capacidade de criação.

A arte por sua vez, é consciente de sua mentira, sabe que ela apresenta um estado de coisas de um modo tal qual ele não é na realidade, a saber, sendo permanente ordenado e belo. Oferecendo um sentimento apaziguador de uma harmônica permanência e de uma bela ordem, ela suaviza a crueldade, sem eliminá-la, o véu de beleza da arte despotencializa a crueldade e o horror, e, no entanto, ao mesmo tempo, é suficientemente transparente para deixar aflorar a face absurda e terrível da natureza humana.

O vislumbre de uma filosofia trágica passa necessariamente pela afirmação da realidade, tal como ela o é, subtraída dos consolos metafísicos que a filosofia a partir de Sócrates – ou antes, com Anaximandro -, embutiram nela. Através de uma perspectiva estética em relação ao mundo, em detrimento de uma racional.

Somos seres que necessitamos de ilusões, de simbolismos, de significações, a noção de verdade tem sido nossa maior ilusão, já que é uma ilusão que nega a si mesma, faz-se necessário neste tempo tão marcado pelo pessimismo e niilismo, um resgate a este status da arte, como o fundamento de nossas justificações, não desta noção de verdade, necessitamos de uma ciência artística e alegre, é esta a proposta de Nietzsche em a Gaia Ciência, um saber alegre, e comprometido com a afirmação da realidade tal como ela é.

 Obras incompletas / Friedrich Nietzsche; seleção de textos Gérard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Filho; posfácio de Antônio Cândido de Mello e Souza – 2 ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1978

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