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Mestre Jonas

Capítulo XV: Lições

Por Lucas Marcelino


Eduardo corria desesperadamente rua acima. Quando entrou no mercado, foi direto para a seção de bebidas e pegou algumas caixas de cerveja em lata. Tinha se esquecido de pegar um carrinho ou uma cesta para carregá-las e precisou fazer um malabarismo para poder levar todas. Antes de ir para o caixa, passou no corredor dos salgados e levou alguns pacotes de salgadinhos com sabor de requeijão, que eram os preferidos de Duque. Levou ainda alguns amendoins – era preciso estar preparado para aumentar a oferta de suborno.

Enquanto Eduardo pagava – nem se preocupou em dar seu CPF para a atendente – e enchia as sacolas, Duque sentava-se atrás do caixa e ligava todos os transmissores e receptores do aparelho de som. Regulou todas as equalizações que os aparelhos proporcionavam.

Quando ainda era jovem e circulava pela loja – que ainda não levava seu nome – olhando todas aquelas capas e desenhos magníficos em tamanho surreal, se comparado com os cd’s atuais, tinha a impressão de que algo ali permitia que ele obtivesse a felicidade plena. Os garotos que compartilhavam da mesma idade dele naquela época só aspiravam ao velho devaneio de ser um jogador de futebol. Depois da Copa de oitenta e dois, onde o mundo conheceu o futebol mais bonito já jogado até hoje e percebeu que ele não era o suficiente para vencer, em todas as ruas os garotos corriam atrás de bolas e narravam seus lances imitando a voz do Osmar Santos e repetindo suas frases. Havia ainda uma disputa ao começar o jogo. Aqueles que jogavam na frente e normalmente eram mais habilidosos, além de se inspirarem em lances geniais que nem sempre davam certo, assumiam nomes e características dos grandes jogadores brasileiros – ainda não havia a globalização que trouxe entre outras coisas, o fanatismo surpreendente por times estrangeiros – como Falcão, Júnior e outros. Duque que só jogava na zaga, achava engraçado um amigo que sempre brincava sobre a alcunha de Sócrates e dava toques de calcanhar em todos os lances, irritando os companheiros de time.

Para Duque, algo o tornava mais importante para o mundo e podia fazê-lo mais reverenciado e lembrado que o futebol; a música. Não passava um dia sem ficar alguns instantes ao lado do balcão da loja onde Seu Gerval, o antigo dono e inquilino da sua mãe, recebia os pagamentos pelos discos vendidos. Naquela época os discos eram objetos de desejo e não precisavam da malícia que Duque usava atualmente para serem vendidos. Todos faziam questão de terem coleções com os últimos lançamentos e aqueles que tinham pais que viajavam pelo mundo, pediam discos de presente. Muito do que ele sabia sobre música e transmitia durante suas tentativas de venda, aprendeu com aquele senhor que sempre mantinha um disco no prato e fazia questão de perguntar que artista o garoto queria ouvir. Como ainda era jovem e possuía pouco conhecimento musical, sempre escutava as bandas da moda e em um determinado momento chegou a ouvir por dias seguidos álbuns de bandas brasileiras dos anos oitenta que dominavam as rádios. Sempre escutando histórias contadas pelo velho hippie que comandava a loja. Um dia, como se houvesse sido promovido pelo professor, ouviu de Seu Gerval que ele já merecia conhecer a nata da música, pois havia correspondido honestamente com o coração à todas as provas a que havia sido submetido e que ali havia sido identificado um sucessor para carregar a áurea dos transmissores da boa música, aqueles que não se envergonham em ficar parado durante uma festa ou que não se importam em estar de fora das grandes rodas de homens populares por não se alegrarem com composições ínfimas marteladas intensamente pelos meios de comunicação. Nesse dia foi apresentado a alguns dos grandes compositores e artistas que com qualidade construíram e mantiveram no auge a história da música verdadeira, como denominava Seu Gerval a música feita por prazer e com sentimento. Ali ele decidiu viver pela música.

Naquele momento em que aguardava Eduardo voltar do mercado, Duque lembrou-se do quanto sua vida havia se transformado. Tinha no fundo realizado sua promessa e seu sonho. Poucos amigos podiam dizer que estavam satisfeitos com suas vidas e nenhum se gabava de ter se tornado um jogador de futebol. Mas quando se lembrava da forma substancial da sua vida, de como ela prosseguia e como ele havia transformado tudo inconscientemente, não sabia se era tão importante ter se realizado. No fundo queria ter uma existência mais ampla e ativa.

Para apagar esses pensamentos, colocou o disco de Chopin e aumentou o volume. Fechou os olhos e movimentou as mãos como se as deslocasse sobre as teclas de um piano. Há muito tempo não ouvia esse disco, que havia ganho do antigo dono, com a promessa de ser uma música erudita com a previsão da música pop. Ali não havia somente a técnica e o perfeccionismo, mas havia paixão e entrega total na concepção da música.

Enquanto ouvia umas das primeiras faixas que compõe aquela compilação, Eduardo entrou na loja e fitou Duque. Ia falar algo e entregar o que havia comprado, mas parou e observou a expressão que Duque tinha na face. Estava completamente absorto por uma espécie de tristeza e satisfação, natural dos momentos de reflexão, onde as pessoas analisam seus erros e conectam momentos de júbilo para moldar um final feliz.

Lembrando de que devia voltar para a casa de Isabella, Eduardo fez um barulho qualquer para despertar Duque e começou a falar como se não houvesse visto nada.

– Estão aqui suas cervejas e os salgadinhos. Para garantir trouxe também amendoins. Agora me passa a mercadoria. Eduardo colocou a sacola do supermercado sobre o balcão e estendeu a mão apontando para a capa do disco.

– Ah, sabia que ia conseguir mantimentos para essa noite de uma maneira fácil. Mas saiba que isso é só um empréstimo, não imagino onde posso achar outra prensagem desse disco e nem passa pela minha cabeça ficar sem uma cópia dele.

– Pode ficar tranqüilo que eu devolvo, mas será que ele vai ter o efeito que eu espero? Se tiver posso fazer uma oferta melhor. Eduardo fingiu puxar a carteira do bolso.

Ahah. Jamais você vai conseguir pagar por esse disco, enquanto eu for dono dele. Tanto é que nem está à venda. Agora se existe algum disco erudito que pode provocar a alteração de estado que você deseja, é este aqui. Acho que você percebeu como ele desperta emoções, logo que entrou aqui.

– Mas não são bem essas emoções que eu pretendo, não quero Isabella remoendo o passado e sim inspirada para o futuro.

– Espero que esse futuro não comece em nove meses, se é que você me entende. Só aproveite em especial o Scherzo em Dó Sustenido Menor. Entre todas as inovações de Chopin essa música tem um trecho que ele marcou a partitura com um X. Ele havia planejado uma série de mudanças de acordes, mas como sabia que a maioria dos pianistas nunca executaria a tempo, pediu que eles improvisassem. Aí está o truque rapaz, saiba improvisar para fugir dos olhos atentos nos seus erros e inverter a situação a seu favor. Caso consiga escapar das primeiras armadilhas que Isabella vai criar, você terá um tempo livre para fazê-la retirar o alerta que está instalado em seu coração.

Como você consegue criar esses cotejos musicais com qualquer coisa? Eduardo ficou abismado com a forma que Duque citava ações e sentimentos sempre comparados com momentos e interpretações musicais. Além de tudo era um grande historiador musical.

– Se você ouvir a música e não apenas escutá-la, com certeza vai perceber que ela é uma tradução dos momentos mais importantes da vida. Quando um compositor consegue traspassar o que sente para sua música ela fica irresistível. É por isso que eu ainda não encontrei nada melhor que o blues para expressar minhas idéias. E falando nisso, Chopin era o compositor favorito dos músicos negros de Nova Orleans

– Depois a gente conversa mais Duque. Já faz quase meia hora que eu saí da casa da Isabella. Pega suas cervejas e seu amendoim e vai falar mal do juiz lá na sala.

Eduardo pegou o disco e colocou numa sacola. Já ia saindo quando Duque o chamou.

– Uma última coisa. Chopin foi um inovador e por isso conquistou a todos mesmo sendo considerado excêntrico. Vocês dois tem histórias que podem bloquear a admiração alheia. Ele era considerado maníaco sexual, embora se protegesse atrás da tuberculose que o mantinha sempre febril e com excitação constante. A única coisa que pode apagar seus problemas aos olhos dos outros é a sobreposição de qualidades que elas nunca experimentaram ou possuíram.

– Entendi o que você quis dizer. Vou lembrar-me disso quando for preciso. Até mais.

– Calma, só um adendo. Chopin defendia uma forma correta de se usar o pedal, que no piano é muito importante para o som.

-Qual? Perguntou Eduardo apressado em sair, mas percebendo que não poderia ir embora antes de ouvir tudo.

– A sua própria maneira. Ele nunca marcou a forma de usar. Defendia que os dedos que faziam o toque do pianista. Haja como você acha ser correto, não tente pensar como Isabella e se ela gostar será sua admiradora. Na música erudita um movimento desnecessário pode ser excessivo e o jeito de tocar vale mais que a força e altura do som. Tente tirar e não imprimir boas impressões em Isabella, assim você levá-laá ao ápice.

– Tudo bem mestre, vou executar essas lições e conseguirei pegar uma mosca com dois palitos. Até amanhã.

Eduardo saiu desta vez sem esperar outra observação de Duque. Correu para a casa de Isabella e encontrou-a esperando-o, enquanto Duque voltou para seu sofá e terminou sua noite embriagado e feliz pela vitória do seu time, mas aquela conversa toda havia mudado algo dentro de si.

 

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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