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Copa do mundo

Trocando figurinhas

por Lucas Marcelino

 

“Que é isso, colecionando fotos de homem?”. “Você não tem com que gastar dinheiro?”. “Você tem o Cristiano Ronaldo? Ele é muito gato!”. “Pra mim só falta a 538”. “Você não teve infância?”. “A do Adriano não vale mais nada”.

Durante os últimos dias, essas foram algumas das muitas frases que ouvi de amigos, amigas – as interessadas no Cristiano Ronaldo e no Kaká –, meus pais e desconhecidos, a cada vez que tirava meu álbum de figurinhas da copa da mochila e abria para colar os novos cromos que eu conseguia.

Lançado em Abril pela Panini, o álbum virou febre e está batendo recordes de venda. E pra quem imagina que só crianças entraram na brincadeira, fica o recado de que a coisa é mais séria do que parece. Logo no início da distribuição das figurinhas e álbuns, um grupo de assaltantes invadiu uma distribuidora na cidade de Santo André, no Grande ABC. Numa ação que levou cerca de meia-hora, eles roubaram um caminhão com mais de 600 mil cromos. Quando o assalto foi anunciado, muitos colecionadores – e a própria Panini – ficaram preocupados. O produto que já era difícil de ser encontrado ficaria ainda mais raro, já que a editora só lançaria novo lote em dois dias, pois não esperava tamanha procura. No dia seguinte a carga foi encontrada em uma favela com a ajuda de denúncias anônimas e muitas pessoas dormiram aliviadas.

Caça ao tesouro

Comecei minha coleção depois de ver o álbum de um primo. Fui até uma banca no centro de São Paulo e comprei o álbum, que já havia se tornado artigo precioso, junto com alguns pacotes. Nas primeiras compras minha felicidade foi total. Consegui colar cerca de duzentas figurinhas sem ter uma repetida. Com o tempo elas vieram e a tarefa agora era outra: trocar as repetidas.

A primeira oportunidade que tive foi na faculdade, de onde eu menos esperava. Durante a aula o professor interrompeu uma explicação para perguntar se alguém tinha o álbum. Consegui trocar algumas figurinhas, mas ele já tinha o álbum quase completo. Com o tempo surgiram amigos que acabaram influenciados pela forma diferente de se sociabilizar e acabei completando mais páginas do álbum, até que o momento mais crítico me alcançou. Faltavam poucas figurinhas e não havia mais com quem trocar.

Na mesma situação que eu, se encontram inúmeras pessoas, o que as levou a se encontrarem. Todo domingo a feira de artigos usados que ocorre tradicionalmente no vão livre do MASP tem uma nova concorrência. A partir das duas horas da tarde – o horário “oficial” – dezenas de sujeitos se deslocam para trocar suas figurinhas. Cada um munido da sua lista, as vezes com listas de amigos, eles buscam incessantemente os cromos que faltam. Numa pequena caminhada dá para verificar o tamanho da diversidade dos colecionadores. Como boa representação da heterogeneidade paulistana forma-se círculos e as mais variadas formas geométricas que são constituídas por pessoas de todas as idades, culturas e raças, em busca de um único objetivo. Como se fosse seu próprio título mundial, completar o álbum é a coroação perfeita para a brincadeira. Isso promove a ação de “vendedores” que aparecem com pastas recheadas de figurinhas, onde cada um pode escolher precisamente os números que faltam. Pagando, claro, um preço mais salgado.

Negócio sério

Entre idas e vindas, ali se encontram e conhecem sujeitos que movimentam um mercado impressionante.

A Panini possui fábricas no Brasil e na Itália. Na fábrica brasileira, que fica na Grande São Paulo foi dobrada a quantidade de funcionários para produzir 4,5 milhões de figurinhas por dia – 25% mais que na copa de 2006 – e foram comprados dois equipamentos para evitar que cromos repetidos saiam no mesmo envelope. A fábrica de Modena, na Itália, tem segurança reforçada para evitar roubos e a ação de traficantes, que compram lotes destinados a países onde o preço é mais baixo e revendem em países onde o pacote custa mais. No total, são produzidos, pelos mil funcionários da empresa, cerca de 48 milhões de figurinhas por dia.

Cada pacote rende no Brasil, um lucro de R$ 0,14 para os donos de bancas de jornal e se tornou a maior fonte de renda para esses comerciantes, chegando a provocar o desespero de alguns que viram os estoques se esgotarem pela demora na reposição logo no início das vendas. A Panini alegou que não esperava tamanha procura pelos álbuns, o que ocorreu, segundo alguns colecionadores, pelo pequeno número de cards repetidos.

Colecionadores

Colecionar figurinhas é algo divertido e que já superou o tabu de ser brincadeira de criança. Mas tem um lugar onde essa diversão é ainda mais impressionante.

O Brasil briga forte para se tornar o maior mercado de cards do mundo, superando a segunda posição da Copa de 2006, quando perdeu para a Alemanha que era o país sede. Por isso, alguns países deixam de receber figurinhas, que passam a abastecer os colecionadores brasileiros. Mas o título de maiores coladores de figurinhas vai para a Suíça.

O pequeno país com cerca de 7,7 milhões de habitantes defende o título de melhor mercado per capita, vencendo na Copa de Alemanha e na Eurocopa de 2008. A quantidade de figurinhas que a Panini estima vender na Suíça beira os 250 milhões, cerca de oito para cada habitante. Até por isso, eles recebem um tratamento especial da empresa.

O álbum suíço é vendido com características especiais. Para essa copa ele vem decorado com a cruz característica da bandeira suíça e com um extra de vinte jogadores da seleção nacional, além dos dezoito que estão na edição mundial. A expectativa de venda é de 800 mil álbuns, justificando o mimo recebido.

Para aqueles que não possuem tempo – como o presidente da FIFA, Joseph Blatter, colecionador assumido – ou não querem investir na diversão, a FIFA lançou junto com a Coca-cola, um álbum online onde os colecionadores recebem uma quantidade de cards por dia para colar e trocar virtualmente. A FIFA espera receber cerca de 5,5 bilhões de visitas até o fim da copa. No twitter, a extensão @torcidapanini faz promoções e sorteios onde o ganhador pode levar até vinte pacotes de figurinhas de uma vez.

Com toda essa dinâmica em torno dos álbuns, não poderiam deixar de ocorrer problemas. Um deles foi a decisão de alguns treinadores, de não seguir a lógica – pelo menos da FIFA e da maioria dos torcedores – e deixar de fora das convocações, grandes astros que foram inseridos no álbum. No total, 48 jogadores impressos nos cards foram preteridos por seus treinadores, mas vão à Copa pelo menos nos álbuns. A Panini pensou em relançar figurinhas dos substitutos, mas decidiu deixar o álbum seguir a tradição das outras copas onde sempre houveram surpresas e decepções entre os torcedores e colecionadores.

Seja na Suíça ou no Brasil. Com jogadores esquecidos ou não. O álbum da Copa da África é um sucesso extraordinário que reúne todas as gerações em prol de um mesmo objetivo. Colecionar também é torcer e como bom torcedor, que tal se encontrar com os amigos e comemorar cada nova figurinha conquistada?

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Categorias: Esportes, Território Nacional

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