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Filosofia

Apontamentos acerca da conferência A Arte e o Espaço de Martin Heidegger

por Túlio Madson

 

         As considerações acerca da arte em Heidegger são condizentes com o seu trajeto filosófico, o qual propõe desde Ser e Tempo (1927) uma alternância acerca da pergunta sobre o sentido do ser; para a verdade do ser. Verdade aqui como; desvelamento, abrir uma clareira [lichtung], tudo aquilo que era revelado, no sentido que davam os gregos à palavra alétheia [ἀλήθεια].   

          
                 Da mesma forma que a questão acerca da verdade do ser, ainda não nos foi – até Heidegger – questionada, a questão do espaço enquanto espaço continua sem questionamento. Espaço aqui também como lugar, o que justifica o termo que ele utilizalugar-espaço [Ort-Raum], em referência ao topos [τόπος]. Como ele deixa entender na epígrafe da conferência A Arte e o Espaço (1969) – Δοκει̃ δέ μὲγα τι εί̃ναι καὶ χαλεπὸν ληφθη̃ναι ο̉ τόπος[1](Aristoteles, Fisica, Livro 4).         
         Qual seria nessa perspectiva o ser do espaço? Que relação teria com a arte[2] da escultura?  Ou melhor, em que medida tal arte possibilita o desvelamento do ser do espaço?
          A escultura por ser ela a mais espacial das artes, na medida em que o moldar os diferentes materiais na escultura, representa uma “delimitação para dentro e para fora”, um jogo entre a forma e o vazio. A objetivação do volume ocupado pelo material em sua forma, e a subjetiva sugestão presente entre seus vazios. É antes de tudo uma obra de arte corporal, no sentido em que ocupa.
     Nenhum artista melhor representa a escultura nesse questionamento acerca do espaço, do que Chillida[3], não por acaso a citada conferência é dedicada a ele. 
          No alto do monte de Santa Catalina em uma para na Espanha, velando o horizonte, encontra-se uma das mais famosas obras do artista, O elogio del horizonte, erguendo-se graciosamente em dois pilares de concreto, e a dez metros do chão, encontra-se uma elipse que se abre ao mar. Surpreende-nos a leveza do monumento de 500 toneladas, reproduzindo um jogo de luzes e sombras que enfeitam seus contornos, onde outrora havia uma singela região no alto de um monte, torna-se agora um lugar público dedicado à própria região, um Ode de concreto ao horizonte que sempre esteve ali, mas que geralmente passava despercebido. Abrindo uma clareira, um espaço próprio, tanto físico, quanto epistemológico, uma experiência que leva a ela própria, uma interferência que não modifica a região, mas a enaltece.
      

Trata-se de uma obra, que se apropria do espaço, incorpora-o, domina a paisagem a qual se insere. Essa dominação não se dá do mesmo modo da técnico-científica, e sim em outra perspectiva, que transcende a da dominação geométrica e tecnológica do espaço dado pela dominação técnico-científica. Tal dominação tecnicista do espaço, ao contrário das obras de Chillida, por exemplo, carecem de um lugar próprio, uma região de encontro, um canto [Gegend], um lugar onde o espaço acontece, que só é desvelado através da dominação artística.

         Portanto a discussão central nesta conferência parece-nos apontar para as divergências entre a dominação técnico-científica e a artística do espaço, ao invés da arte plástica da escultura propriamente dita, avisamo-nos da possibilidade de uma nova dominação, uma nova perspectiva a este mundo que concebemos através de átomos, partículas subatômicas, e medidas geométricas. A escultura parece-nos escolhida aqui para exemplificar um saber que se quer plástico, contrapondo-se a esta abordagem técnica do espaço.
         A distinção entre uma forma e outra de ocupar o espaço, reside exatamente nesta região comum [Gegend], proporcionado pela dominação artística, a escultura promove lugares que possibilitam um lugar comum.
   Ao final Heidegger leva-nos a concluir que a própria arte plástica não ocupa o lugar: “A arte como plástica: nenhuma ocupação do espaço”. Na medida em que ela não ocupa o espaço, e sim o incorpora, abre um diálogo com ele, e assim como O elogio del horizonte faz à paisagem do monte Santa Catalina, abre uma região que possibilita ao homem esta convergência ao seio das coisas, ao invés de incorporar a verdade do ser, ela possibilita um vislumbre, um lugar comum a ela.

[1] Parece ser algo grandioso e difícil de apreender, o Topos – ou seja, o lugar-espaco [Ort-Raum].
[2] Arte aqui como sendo o lugar onde a verdade acontece.
[3] Eduardo Chillida escultor espanhol (1924-2002)
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Categorias: Educação e História

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