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Mestre Jonas

Parte XIV: Surpresas

Por Lucas Marcelino

Quando Eduardo saiu da loja com Isabella, ele baixou as portas deixando pra Duque fechar os cadeados. Logo após eles saírem, Duque despontou de trás da parede em que estava escondido ouvindo sorrateiramente a conversa entre os jovens apaixonados.

Não tinha a intenção de cuidar da vida deles, mas como grande fã  de novelas e um apaixonado desiludido e já calejado pela sua própria trajetória, gostava de apreciar empolgação que movia aquele romance. Sentia-se rejuvenescido quando ouvia a forma como os dois conversavam, o modo como toda a história havia começado e estava se desenrolando, e o horizonte que se abria belo e esplendoroso para o casal de amigos. Esse momento particular, mesmo não envolvendo sua vida diretamente, era uma forma de excitação para uma existência quase mórbida que ele vinha tendo ultimamente. Duque só possuía uma preocupação: como Isabella entenderia a história de Eduardo com Claudia. Será que ela compreenderia tudo que havia ocorrido nesse passado próximo mas praticamente inexistente, que Eduardo fazia força para extinguir?

Duque lembrou por um momento das mulheres que haviam passado em sua vida. E se hoje não fazia questão de estar apaixonado como os pombinhos que ele espiara a pouco, era simplesmente pelas decepções que havia tido em suas experiências amorosas. As mulheres eram em toda forma convidativas em um primeiro momento. Homem algum podia resistir a um rosto que o agradasse ou a um olhar que o prendesse. Como se as mulheres de repente se tornassem sereias beneficiadas pela evolução, um modo de mexer os quadris quando andam ou a maneira de sorrir – que nada lembravam ou recordavam os cantos mágicos das lendas regionais – já eram pretextos suficientes para um homem criar seu próprio rio, aonde iria mergulhar de cabeça, sem interesse algum em voltar à superfície. Para aquele homem desacreditado da utopia romancista, essa imersão na surrealidade do amor, só podia acontecer quando o homem estivesse fora de seu completo juízo. Não descartava apaixonar-se como Eduardo, talvez até tivesse sentido uma aflição quando viu Isabella, mas àquilo não era coisa rotineira e ele não esperava por notícias do Cupido, que na mitologia grega havia se apaixonado justamente por um descuido seu.

Depois dessas divagações, ele foi até a frente da loja e trancou os cadeados, supondo que Eduardo não fosse voltar tão cedo. Entrou para sua casa e se preparou para assistir ao futebol. Estava sentado num sofá vermelho de couro, que já havia sido reformado pelo menos três vezes e que ele mantinha como um adereço na sala. Estava com os pés apoiados numa mesa de centro, onde ficavam as revistas que lia no horário de almoço e um vaso de flores sobre um quadrado tricotado há muito tempo. Mantinha ainda em toda a casa o velho aspecto que sua mãe criara durante sua infância, quando tudo aquilo era símbolo da modernidade que se exaltava em propagandas. Ainda que tivesse trocado a velha televisão – que ainda funcionava e ficava em uma estante deslocada para o canto – por uma de tecnologia atual, alguns costumes na decoração carregavam o ar de nostalgia e melancolia. A cor escura dos móveis em madeira de lei envernizada, com seus ornamentos, e o chão de tacos encerados uma vez por semana, criava um aspecto frio e trazia a mente uma forte sensação de solidão. Embora o dono daquela casa fosse extremamente alegre e comunicativo, trabalhando diretamente com pessoas, um visitante que estivesse ali pela primeira vez, provavelmente se questionaria sobre a intimidade do homem que residia ali. Mas tudo isso não passava de um gosto pela classe que Duque enxergava naqueles móveis. Não chegava a ser soberbo, somente sentia que daquela forma, passava aos outros uma impressão de honestidade e caráter íntegro.

Sobre suas pernas estiradas no meio da sala, apoiava uma bacia de plástico cheia de pipocas com bacon, preparadas da forma tradicional, com milho aquecido no óleo. Segurava com uma das mãos uma lata de cerveja, que ele deixava sobre um rack onde ficava o telefone e com a outra mão apertava constantemente o controle da televisão, tentando decidir qual canal fazia a melhor transmissão da partida.

Quando já estava acomodado no sofá, acompanhando os primeiros momentos do jogo, ouviu a campainha tocando e batidas fortes na porta. Levantou num sobressalto e diminuiu o volume da televisão, mas não ouviu voz alguma. Colocou a bacia e o controle sobre a mesa e se dirigiu em passos lentos e uniformes até a porta da cozinha que dava para o pequeno quintal. Não havia forma de visualizar quem estava lhe chamando e como tocava a campainha, imaginou que fosse alguém necessitando com urgência da sua ajuda. Percorreu então rapidamente o salão, atravessando os balcões e quando chegou até a porta indagou a pessoa do outro lado, sobre quem era e o que queria. Ouviu uma voz familiar respondendo:

– Abre aí Duque, não é ladrão não. Sou eu Eduardo!

– Que não é ladrão eu já sei. Nunca vi ninguém tocar a campainha antes de roubar uma casa. Você não tem mesmo o dom para cometer crimes, é melhor pensar em outra carreira. Já  tentou ser pintor? Duque zombou do amigo, enquanto buscava as chaves na gaveta do caixa. Abriu a porta com uma tranqüilidade que deixou Eduardo mais esfuziado.

– Cara, preciso da sua ajuda urgente. Estava na casa da Isabella…

– E o ladrão está lá? Duque interrompeu o amigo para fazer mais uma piada, que só irritava o rapaz já ofegante.

– Não tem ladrão nenhum, me deixa falar. Eu estava com Isabella ouvindo um discos na sala e aos poucos o clima começou a esquentar. Sem segundas intenções, eu perguntei qual música a deixava mais à vontade. E ela respondeu que dependia do momento, mas que a música clássica fazia com que ela se sentisse mais sensual, a forma rígida de se tocar esse estilo provocava nela um sentimento contrário, de liberdade.

– Essa mulher é mais surpreendente do que nós pensamos. Você  deu sorte, meu caro.

– Depois a gente discute isso. Quando ela disse essa frase eu tive a idéia de fazer uma surpresa. Inventei a desculpa de que ia buscar cerveja e alguma coisa pra gente comer e corri pra cá pra pegar um disco que a deixe pasmada e mais solta.

– Um tanto quanto egoísta essa sua idéia.

– Tá bom. O problema é que eu conheço pouco de música clássica e nem imagino que compositor ela vai gostar. Agora eu preciso da sua ajuda pra escolher uma música legal que ela não vá se entediar, coisa muito fácil nesse estilo.

Duque parou pensativo, levou o dedo indicador aos lábios e começou a roer a unha, como se buscasse embaixo dela uma resposta no seu catálogo encefálico. De repente passou a mão na cabeça e fitou Eduardo com a feição de um cientista que encaixa duas idéias estúpidas em uma nova teoria revolucionária.

– Como sempre a sorte está do seu lado, e ela se chama Duque. Tenho o compositor perfeito e melhor ainda, a música perfeita para a trilha do seu acasalamento.

Eduardo que tinha ficado exaltado com a solução encontrada, se irritou com a forma que Duque havia se expressado, mas não mencionou seu pensamento, pois precisava daquela sugestão.

– Eu preferiria fazer sexo ouvindo blues, é muito mais interno e franco, deixando espaço para os improvisos. Como diria Hendrix que era especialista em mulheres: “O blues é fácil de tocar, mas difícil de sentir”. Ao contrário de Isabella, que só você  teve a felicidade de tocar. Inclusive, aquele disco que você deu a ela tem uma das melhores dedicatórias de um Romeu desesperado.

– Dá pra você falar o nome desse cara logo? Eduardo temia que sua demora fizesse Isabella mudar seu comportamento.

– Parece que você nunca ouviu Chopin. O maior mulherengo dos compositores romancistas. Desde pequeno já era um prodígio, comparado a Mozart e exímio escritor de cartas, algo mais importante que os feromônios para as conquistas sexuais na época. É mais fácil enganar alguém quando não é preciso disfarçar a expressão da face.

– Tudo bem Duque, eu já conheço seu gosto pelo pudor e pelas formas arcaicas de educação, mas se me permite, estou tentando quebrar um pouco desse pudor. Coisa que não deveria ser muito complicada no século XXI.

– Não, que é isso. Eu não quero atrapalhar, mas sabe que estava bem acomodado no meu sofá vendo o futebol. E agora que estou aqui, acho que mereço uma gratificação pela minha descoberta. Você disse que Isabella está esperando você chegar com cervejas e aperitivos, certo?

– Sim, foi o que eu disse para ela. Isso se ela ainda quiser tomar algo depois de aguardar esse seu discurso.

– Pode ficar tranqüilo, provavelmente ela está se produzindo para retribuir a surpresa que você está preparando para ela. Pelo menos ela pensa assim. E gostará muito do disco que eu vou te emprestar, logo depois que você me trouxer umas cervejas e um lanche para eu continuar vendo meu futebol. Sabe que enquanto eu estou solteiro, meu maior amor é meu time. E assim como as mulheres, ele me deixa menos irritado quando estou bêbado e de barriga cheia.

Eduardo entendeu a mensagem e partiu imediatamente para o mercado que ficava no próximo quarteirão. Enquanto ele corria Duque abria a porta de um dos balcões, onde havia guardado uma coleção de Scherzos de Chopin – seu compositor favorito – que ele não ouvia desde a última vez que havia transado sob a autoridade do amor.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.  
 
Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
 
São Paulo – SP – Brasil

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