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Especial

O consumismo da dor e do sangue

Por que o comércio da violência vende e por que é vendido afinal

 

por Érica Perazza

 

A quantidade de crimes cometidos numa cidade do Brasil pode ser comparada com a quantidade de crimes de um país europeu.

Um conflito, um ato social, a opressão da polícia, um caso passional, logo viram manchetes e chamadas de todos os jornais, tanto impressos quanto televisivos e eletrônicos.

A Imprensa acostumou-se a explorar a violência na sociedade. E por mais que achamos indignante este comportamento, muita vezes somos o mercado consumidor, a audiência, os leitores. Portanto, a mídia se sente atraída pelo sensacionalismo e incentivada a comercializar dor. O jornalismo opta em apelar pelo emocional em lugar na racionalidade. E o melhor: isto rende lucro. A violência também é originária do sistema político e econômico vigente. Cidadãos todos os dias encontram-se numa batalha com a desigualdade para conquistar a dignidade.

Essas questões foram discutidas durante a Semana de Jornalismo da PUC-SP na última terça-feira, dia 25, na mesa “Imprensa: o comércio da violência”.

 

Claúdio José Langroiva Pereira, professor de Direito da PUC de São Paulo, acredita que o Estado é o autor da atual sistemática do jornalismo que propõe, mas também mantém (de acordo com seus interesses) o esclarecimento ao público. Ele indica, porém, como culpada a mídia “que se rende a política pública e também se apropria da maneira que bem entende”. Pois assim ela “responde a suas expectativas: prender a atenção da população comovida com notícias de guerra e propagandas da violência”. A liberdade de expressão não pode tornar-se libertinagem. A máxima hoje em dia não é saber se expressar, mas se as pessoas gostaram de como você se expressou. Dessa forma, nossa liberdade de pensar é usurpada. “Estamos todos diretamente envolvidos com estas questões, seja pela TV, telefone, internet, cinema, pois todos esses meios transmitem violência. Até através das cores como o vermelho”, diz Claúdio. E ele se pergunta: A mídia impõe como violência ou é nossa vontade analisar como violência?

Afinal, tanto pelos jornalistas como pela audiência, a violência foi eleita pauta de sucesso. Apresentadores ficam mais agressivos e contentes a cada marca do Ibope.

Para essa situação mudar, Claúdio afirma: “O jornalista deve ter um compromisso com a sinceridade. Não digo verdade, pois ele é refém das informações que apura.” Ele também defende uma legislação da imprensa. “A Lei de Imprensa moldada na ditadura foi adaptada para a democracia. Todavia, agora com a ausência dessa ou qualquer outra lei, estão presentes as violações de quem tem poder para o bel-prazer da exploração. Temos que pressionar o Congresso para que não haja este vácuo jurídico”.

Boa parte do império da comunicação abandona sua missão de se esforçar para revelar o máximo da verdade. Não encontramos liberdade em qualquer veículo. Há limites, há controles e o pior, eles são simplesmente aceitos.

Como fazer um jornalismo ético, sem as tentações capitalistas e neutro?

Sem outros tipos de violência como o sigilo e a discriminação da mídia a movimentos sociais, por exemplo?

Lúcia Rodrigues, jornalista e repórter da revista Caros Amigos, está convencida de que os profissionais estão acomodados. “Grandes reportagens são raras. É difícil ver alguém realmente ir atrás e apurar bem os fatos. Poucos investem em mais de uma fonte, não checam as informações. Falta criticidade, contextualização, investigação. Temos agora somente um jornalismo fast-food, que é extremamente paradoxal, pois contribui para a não-informação ao leitor”, observa Lúcia.

De um lado, vemos uma exploração banal dos sentimentos com casos escabrosos, de outro vemos a omissão. Lúcia conta que no ano de 2006, de 12 a 20 de maio, período caracterizado pelos crimes de “banhos de sangue” do PCC (Primeiro Comando da Capital) tanta a mídia quanto a Secretaria de Segurança Pública, não mostraram a realidade. Ela investigou e descobriu que foram mortas 493 pessoas e não 86 como foi passado oficialmente. Dessas mortes, 47 delas foram praticadas pelo PCC e existem quatro vitímas desaparecidas até hoje. O Conselho Regional de Medicina (CRM) interveio para evitar pressões das perícias e dos laudos, mas na época não adiantou muito.

“Ainda existe tortura e execução a sangue frio feitas pela polícia”, ela revela. Na maioria das vezes é justificada pela classe social (pobre), cor da pele (negra) e origem (periferia). “Todo batalhão possui seu esquadrão da morte. Todo comandante sabe disso e é ou conivente ou omisso”, critica.

Como explicar isso? Por que a imprensa não aprofundou as investigações? Por que o ministério público dificulta o trabalho jornalístico? “Não podemos nos contentar com dados oficiais, a mídia não pode comprar esta visão. O jornalismo deve ter autonomia”, finaliza Lúcia.

A maior violência vem do próprio jornalismo: o silêncio que ele provoca com sua hipocrisia e cinismo.

Leia também:

 

 O fedor do jornalismo feudal

 O jornalista como vontade e representação

As teorias metafísicas do passado, presente e futuro da profissão

 

 

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Categorias: Caixa de Pandora, Comportamento, Especial, Metalinguagem

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3 Comentários em “Especial”

  1. 20 de julho de 2010 às 3:44 #

    É mais fácil controlar quem sente medo. Se a mídia publicasse as coisas boas que acontecem, o sistema se arrefeceria, por que o amor é contagioso! E nada mais perigoso para o sistema do que as pessoas terem esperança, amar o outro ao invés de ter medo dele!

    Junto da denúncia do que é violento, do que desumaniza – porque a crítica é necessária -, há que se abrir espaço para o bom e o belo! As pessoas precisam saber que o amor e a esperança ainda vigoram, resistentes, inquebrantáveis, eternamente nascidas para a novidade da vida…

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  1. Metalinguagem « Pandora - 28 de junho de 2010

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