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Mestre Jonas

Parte  XIII – Don Juan

Por Lucas Marcelino

Eduardo seguiu para casa um pouco trôpego pelo cheiro e pelo sabor de Isabella que haviam penetrado seu corpo e sua boca. Na verdade não os sentia, mas lembrava tão fielmente e eram tão agradáveis para ele, que os reproduzia com o poder de sua mente. Já havia lido sobre pessoas que conseguem realizar a materialização de pequenas vontades –  algumas tomavam um refrigerante num dia de calor, outras comiam seu chocolate preferido – somente com o poder da imaginação. Não que seguisse ou acreditasse em Jung ou Freud, mas ali podia mais uma vez perceber distintamente a fragrância e o gosto que ele tinha provado havia pouco. De repente veio em sua mente a imagem de Jean-Baptiste Grenouille – o protagonista de um livro – que podia sentir e guardar todos os cheiros do mundo. E lembrando-se do fim que a personagem tem, ele preferiu dispersar essas divagações e adentrou na loja com a cabeça totalmente vazia.

Quando cruzou o pequeno quintal que havia no fundo da loja, foi interceptado por Duque que havia o visto entrar enquanto preparava seu chá  – a única forma de dormir ininterruptamente.

Assoviava “Have you ever really loved a woman”, trilha do filme Don Juan de Marco. Parou na frente de Eduardo e continuou assoviando, esperando que este começasse a lhe contar o que havia acontecido no encontro com Isabella. Como Eduardo não disse palavra alguma, tomou a iniciativa:

– Oh grande Hernán Cortés. O maior de todos os conquistadores dessas novas terras que apareceram para nós. Dê-me a honra de tomar conhecimento sobre as táticas usadas para efetivar suas conquistas. Conte-me como usa seu conhecimento para criar estratégias infalíveis que fazem sucumbir qualquer fortaleza adversária. Duque prostrou-se em reverência, como se estivesse à frente de um rei ou outra autoridade. Sua cara exprimia o maior deboche possível.

– Como sabe que eu conquistei fortaleza alguma. Posso ter sido até  mesmo impedido de atracar em terra firme. Eduardo completou entrando na brincadeira.

– Se não estivéssemos na era da tecnologia, onde tudo que fazemos pode ser monitorado por qualquer pessoa, eu teria sido obrigado a descer de um ônibus e passar em frente ao local de batalha, carregando sacolas com discos.

– Quer dizer que você nos viu conversando?

– Ora, eu não vi nada. Se eu fui buscar discos a pé, seria obrigado a carregá-los na volta, só disse isso para você confirmar minha suposição. E não teria como um guerreiro voltar sorridente e aéreo de uma batalha onde houvesse perdido a chance de avançar em terra firme. E que firmeza eu diria. Duque provocava o amigo na intenção de fazê-lo soltar logo de uma vez toda a história. Fosse por irritação ou por simpatia.

– Eu me encontrei com Isabella há pouco e pode-se dizer que já  estou mais para bandeirante do que para conquistador. Derrubei a fronteira que cercava toda a riqueza daquelas terras e agora começo o processo para desbravar os mistérios que existem ali. Mas vamos parar de falar como idiotas do século quinze, se é para falar em metáforas, que sejam musicais pelo menos, já que dessas nós dois estamos inteirados.

– Seja como for, preparei um chá que você detesta, mas que não vai recusar porque está morrendo de vontade de contar como foi esse encontro. E se tomasse uma cerveja apenas já entraria em delírio, o que apagaria da sua memória essa noite fantástica. Está um tempo agradável, não é mesmo. Duque riu alto do seu próprio sarcasmo e caminhou para dentro da loja, enquanto Eduardo o seguia.

Quando entraram na loja, Duque encheu duas xícaras com o chá fervente, que Eduardo abominava. Sentaram-se frente a frente e Eduardo começou a contar como havia ocorrido tudo desde quando Duque tinha saído, passando pelo primeiro contato com Isabella quando abriu a loja até o momento em que ela voltou à tarde. Essa parte não interessava a Duque que estava mesmo curioso pelo encontro. Então Eduardo começou a contar os detalhes, sobre a surpresa que teve quando soube que iriam ficar no bar na mesma rua, sobre a astúcia que Isabella possuía mesmo quando falavam de assuntos completamente diferentes. Quando disse que havia beijado a moça, Duque deu um soco na mesa comemorando e vibrou exaltado. Eduardo não comentou as particularidades do beijo nem o que havia passado em sua cabeça naquele instante. Comentou tudo rapidamente, pois queria se enclausurar um momento em seu quarto e saborear intensamente todo aquele prazer que ainda fluía em seu sangue. Depois de relatar tudo levantou-se e foi para seu quarto, seguido de perto por Duque que lançava ao ar frases de incentivo e comemoração.

Só  saiu do seu quarto quase uma hora depois e dirigiu-se para o banheiro onde tomou um banho gelado para aliviar o calor que sentia interna e externamente, devido à noite quente que fazia. Deitou-se na cama e divagou um pouco, antes de ser tomado por um sono pesado que o fez perder a hora de abrir a loja.

Acordou com o barulho da porta de metal, que Duque abria para começar mais um dia de trabalho. Levantou-se rapidamente e se arrumou. Não queria perder a oportunidade de encontrar Isabella. Mas foi frustrado quando ela passou rapidamente na frente da loja e fez apenas um sinal que voltaria depois. Durante todo o expediente Eduardo trabalhou com a ansiedade que só torna as esperas mais longas.

No fim da tarde Isabella voltou à loja logo depois de sair do trabalho e encontrou Eduardo sozinho. Duque sabia que os dois se aguardavam angustiadamente e não quis ser empecilho para o momento em que os se encontrassem, mas mesmo assim ficou atento quando a moça chegou e ao silêncio que se sucedeu, devido ao longo beijo.

– Passei o dia inteiro pensando em você. Como foi difícil esperar até  agora, tive vontade de vir na hora do almoço. Isabella foi a primeira a falar, ainda um pouco ofegante.

– E eu que pensei que fosse te encontrar de manhã. Quando vi você  passar direto senti um aperto, havia acordado atrasado e achei que você já tinha ido trabalhar, então você passa e me faz só um sinal. Na próxima vez eu caio duro aqui na loja ou então coloco um disco do Otis Redding e fico ouvindo “I’ve Been Loving You Too Long” umas dez vezes.

Isabella não conhecia essa música, mas imaginava que fosse bem profunda, por se tratar de um dos maiores nomes do jazz.

– Mas além disso eu fiquei pensando em outra coisa quando você foi embora ontem.

– No quê? Eduardo estava mesmo curioso e tratava qualquer pormenor com importância máxima para que nada estragasse aquele romance que estava começando.

– Logo que eu entrei em casa, fui até o toca-discos e coloquei aquele álbum do Jimi Hendrix que você me deu. Não quis ouvir logo de cara a música que você me falou. Mas quando chegou nela eu tive que repetir umas três vezes. É uma música muito intensa, mas eu queria saber do que se trata, não tive tempo de procurar uma tradução e nem reparei na letra enquanto ouvia.

– A música é como a maioria das letras do Hendrix, sobre uma mulher. Existem dois tipos de mulheres nas músicas dele. As insignificantes, ou mulheres que ele trata como objeto, usando a linguagem erótica que era tão forte na época. E as intocáveis, que ele trata até com um endeusamento. Ele teve um trauma quando perdeu a mãe e acabou por criar esse dois opostos. Izabella é uma música onde ele retrata todo esse sentimento pelas mulheres que valem algo para ele. Os gritos que você ouve são uma declaração de amor extremo. Quando te conheci essa música se encaixou perfeitamente no que eu sentia e tive a idéia dedicá-la para você.

– Eu só posso dizer que adorei. Sabe que eu nem imaginava que pudesse um dia chegar a esse ponto e ter uma história tão inusitada. Mas acima de tudo eu sou hoje a mulher mais feliz do mundo. Isabella beijou novamente Eduardo.

– Você já me surpreendeu quando fomos até sua casa aqui ao lado. Eu pensei que você morasse longe. Agora me diga no que você trabalha. Acho que a gente tem muito que se conhecer ainda. Eduardo queria tornar aquela relação mais próxima. Sabia que ali estava a mulher da sua vida e que a história seria muito diferente da que teve com a Claudia anos atrás.

– Eu sou advogada, trabalho num escritório nesse prédio em frente. Faz poucos meses que comecei aqui e aluguei essa casa para morar perto do trabalho. Agora é a minha vez de perguntar. Como você chegou até aqui? Uma vez você me disse que tinha uma música que tinha relação com a sua história e com seu paradeiro na loja.

Enquanto Isabella falava, Eduardo fechava a loja e os dois caminhavam na direção da casa da dela. Lá continuaram conversando e Eduardo contou com todos os detalhes como tudo havia procedido, desde a vida que levava trabalhando na rua até conhecer Duque.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.  
 
Revista Laboratorial Eletrônica Pandora 
São Paulo – SP – Brasil

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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