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Mestre Jonas

Parte XII: No palco principal

Por Lucas Marcelino

Eduardo demorou alguns segundos até  corresponder aos movimentos de Isabella. De início nem esperava que fosse acontecer assim tão rapidamente, foi mesmo surpreendido, por mais que aguardasse desesperadamente por uma oportunidade de beijá-la, imaginava que ele devesse tomar a iniciativa. Essa determinação de tomar o controle que Isabella teve, acabou por desconcertar Eduardo e até que ele se desse conta do que estava acontecendo, ficou alguns segundos paralisado e sem reação.

Quando finalmente voltou a si e pode sentir os lábios de Isabella pressionando seus lábios e a língua invadindo sua boca, o calor que sentiu, ferveu seu sangue e fez com que Eduardo pudesse agora concentrar suas forças na mulher que estava à sua frente o beijando ardentemente.

A música que servia de inspiração para o encontro entre os dois aos poucos foi invadindo o espírito de Eduardo. Sentia a língua de Isabella como se fosse as cordas de Hendrix vibrando freneticamente e causando sensações inexplicáveis. Suas mãos estavam tremendo como as mãos de Mitch Mitchell à cada virada ou lançamento estratosférico de batidas que produzia na bateria. Sua mente ainda funcionava de forma compassada, como se fosse superior ao seu instinto, produzindo efeitos diversos em seu corpo. Enquanto tudo ardia de paixão, podia sentir no fundo de sua alma uma sensação relaxante. Era como se uma parte do seu cérebro fosse Noel Redding, ocupando cada espaço deixado no auge das viagens sonoras dos outros integrantes, para não se fazer perder a estrutura cervical da música. Por vezes teve que controlar o espírito como fazia o baixista da Jimi Hendrix Experienced a cada vez que os outros músicos se perdiam nas suas improvisações dispersantes e alucinógenas.

Todo o corpo de Eduardo funcionava como uma banda no centro do palco, tocando na sua casa preferida, onde todos se sentiam à vontade com a platéia formada por amigos. A imagem que ele havia associado quando conheceu Isabella, de Jimi Hendrix tocando ao vivo sua música preferida em Woodstock, agora surgia em flashes seqüenciais de forma frenética, quase ininterrupta. Suas mãos passeavam pelo corpo de Isabella conforme as baquetadas de Mitchell, de maneira irrequieta e vigorosa, alternando, ora suas costas ora sua cintura, com sua silhueta perfeita. Subia rapidamente para seus ombros e acariciava a pele lisa descoberta pelo vestido de alças, sem mangas. Quando alcançava o auge do frenesi musical, suas mãos repousavam entorno do pescoço e seus polegares acariciavam os lóbulos das orelhas de Isabella, sua nuca e o ponto de junção de seus maxilares. Nesse momento sua língua se debatia dentro da boca de Isabella sem pudor algum, assim como as linhas melódicas da guitarra de Hendrix e toda sua expressão corporal. Parecia procurar algo que não existia dentro da boca de Isabella. Ia fundo deslizando sobre a abóbada palatina, passeava por toda a extensão da sua arcada dentária, sentido cada pilar perfeitamente encravado que sustentava aquele sorriso. Queria reproduzir cada nota quase imperceptível que conseguia se lembrar, como se os dentes fossem os trastes que separam as casas musicais nos instrumentos de corda. Em alguns momentos encontrava a língua de Isabella, que procurava retribuir todo aquele carinho com o mesmo ardor que sentia provir de Eduardo. Quando as duas línguas se juntavam e buscavam um enlace que muitos consideram o auge de um beijo, Eduardo colava seu corpo ainda mais em Isabella, pressionava todos seus ossos, cada superfície que pudesse entrar em contato com a pele dela e desprendia um calor violento que seduzia ainda mais Isabella. Representava assim o último espaço vago onde um baixista poderia buscar se expressar e mostrar aos outros integrantes a hora de voltar para seus corpos e seus lugares no palco.

Foram mais de dois minutos de um beijo esfuziante. Do qual nenhum deles conseguiu ter resiliência suficiente para tornar aquele momento lúdico ou apenas uma mera libertação hormonal. Não podiam mais separar dos seus corpos aquele sabor versátil que agora tinha sido provado empiricamente como o complemento perfeito para suas ambições emocionais e sexuais.

Eles se olharam profundamente nos olhos, buscavam a fidelidade liberada do fundo da alma. Isabella foi a primeira a falar:

– Já nem sei o que dizer. Só  posso garantir que foi o melhor beijo da minha vida e que já não sei o que fazer se não te encontrar amanhã. Disse enquanto seus olhos suplicavam pelo amor de Eduardo e sua boca confidenciava sua entrega ao homem à sua frente.

– E eu sei o que dizer? Sonho com você  há dias. Jamais pensei que teria essa felicidade durante a minha vida. Só o que posso dizer é que preciso continuar contigo e que o que me alimenta é essa paixão.

– Então posso anotar esse dia no meu diário? Sorria de forma irônica, que Eduardo não percebeu.

– Você tem um diário? Eduardo achou aquilo infantil, talvez a mulher da sua vida também pudesse ter atitudes que ele repudiaria, mas que jamais usaria como argumento para se proteger, pelo bem desse amor.

– Claro que não, eu só estava brincando. Mas com certeza esse momento ficará gravado na minha memória e eu terei o prazer de contar à nossa filha como foi que te conheci e como foi nosso primeiro beijo.

– Você não vai dizer isso pra ela. Com que cara eu vou ficar quando ela me olhar com cara de quem quer saber como é o melhor beijo do mundo.

– Até parece que esse foi o melhor beijo do mundo. Já tive tantos…

– Então não há por que anotar isso no seu diário, nem contar pro nossos filhos. Eduardo interrompeu-a com um ar misto de raiva e humor.

– Não foi o melhor, porque o próximo com certeza será ainda melhor que esse, mas eu vou deixar para amanhã. Assim, teremos tempo de imaginar como podemos melhorá-lo. Isabella falou aproximando sua boca da boca de Eduardo, sem sair do seu lugar, inclinando o pescoço, quase encostando os lábios nos lábios de Eduardo. Em seguida virou-se e procurou algo na bolsa.

– O que você procura? Não  vai me dizer que é dinheiro. Eu pago sua passagem. Só não a levo para casa porque ainda não tenho um carro. Ou melhor, porque o Duque ainda não comprou um carro.

Isabella soltou uma forte gargalhada e Eduardo após se sentir um idiota, percebeu que ela ria para ele e não da sua ingenuidade. Em seguida ela tirou um molho de chaves da sua bolsa e procurou a que abria a fechadura do portão da casa a qual estiveram conversando na calçada.

– Não vai me dizer que você  mora aí? Eduardo estava indignado, se sentia completamente enganado e essa era a posição em que ele mais se sentia ofendido. Jamais poderia imaginar que ela morasse bem ao lado da loja, a poucos metros de distância.

– Sim, eu moro aqui. Como eu sabia que nem você e nem o Duque tinham carro e que você iria insistir em me levar em casa, eu quis fazer uma brincadeira com você. Se você não gostou eu posso me mudar amanhã.

– Não, jamais, quero você o mais próximo de mim. Mas bem que você podia ter me dito durante todo o tempo que a gente conversou, que morava aqui ao lado e não precisava se preocupar com o caminho para casa.

– E como eu iria testar se você  era um homem gentil? Somente segurando minha sacola de discos? Eu iria pensar que você era um tremendo egoísta, afinal, você já me tomou novamente.

Eduardo percebeu que segurava a sacola com os discos desde que havia beijado Isabella e que logo após o beijo, foi seu primeiro impulso protegê-la.

– Eu preciso dormir um pouco, amanhã  passo na loja antes de ir trabalhar. Saiba que eu já te amo.

Eduardo ficou imóvel ao ouvir isso. Isabella como no primeiro beijo tomou a iniciativa e novamente foi ao encontro dos lábios de Eduardo. Os dois se beijaram ardentemente, mas Isabella preferiu interromper o beijo, fazendo Eduardo procurar ainda por um tempo sua boca. Abriu o portão e entrou na casa, acenando para Eduardo que só foi embora quando ela cruzou o quintal e acendeu a luz da sala, que se exauriu quando ela fechou a porta.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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