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Dossiê Chernobyl – O maior acidente nuclear da história

Por Lucas Marcelino

Ano que vem com certeza veremos grandes passeatas, matérias exclusivas com moradores e promessas compensatórias. Tudo porque serão completados os vinte e cinco anos do acidente no Reator 4 da usina nuclear de Chernobyl. Mas antes que chegue até nós um novo feixe de elétrons pelos tubos de raios catódicos das nossas televisões – para aqueles que ainda não compraram novos monitores para assistir a copa – uma análise menos comovente deve ser feita para nos livrar de choros que podem atrapalhar a visão do problema que ainda está soterrado sobre toneladas de cimento.

 

Chernobyl

A cidade de Chernobyl – seu nome significa grama negra – fica ao norte da Ucrânia, na divisa com a Bielorrússia, sobre o rio Pripyat. Na época da construção, toda a região estava integrada à União Soviética. A central nuclear foi construída a vinte quilômetros da cidade de Chernobyl e a cem da capital da Ucrânia, Kiev. Um complexo que abrigou os trabalhadores ficava a quatro quilômetros da cidade de Pripyat. Lá quarenta e cinco mil pessoas estavam abrigadas no momento do acidente.

Radioatividade

A radioatividade foi descoberta em 1896, quando o cientista francês Henri Becquerel guardou uma amostra de óxido de urânio junto a placas fotográficas. Essas placas foram escurecidas pela atividade do urânio, mesmo estando cobertas por um material opaco para proteção. Com isso ele percebeu que estava sendo emitida alguma radiação pelo urânio, que atravessava o material de proteção. Essa radiação foi estudada em seguida pelos cientistas e prêmios Nobel Marie Curie e Rutherford. Que descobriram novos elementos radioativos e outros tipos de radiação. A partir desses estudos descobriu-se que a radiação é produzida pelo decaimento nuclear, onde o núcleo do átomo sofre uma decomposição parcial – também conhecida como fissão nuclear.

A criação de todos os elementos químicos, exceto o hidrogênio, é realizada pelo mudança no núcleo do átomo. Pela fragmentação, chamada de fissão, ou pela junção de núcleos para formar um núcleo maior conhecida como fusão nuclear.

Diariamente estamos expostos a radiação. Os tipos mais fracos, α e β, são absorvidos e neutralizados pela pele, sendo menos nocivos que a radiação γ. Esse último tipo pode atravessar corpos e edifícios, ionizando moléculas que estão na sua trajetória. As proteínas e o DNA são danificadas por essa radiação e perdem sua função, gerando doenças como o câncer. A radiação pode ainda ser usada para curar doenças.

A usina

A construção da usina começou em 1970 e em 1983 foi inaugurado o quarto reator. No momento do acidente estavam sendo construídos mais dois reatores que tiveram suas obras paralisadas três anos após o acidente e em 12 de dezembro de 2000 o complexo foi fechado definitivamente.

A usina era formada por reatores dos tipos RBMK – Reator nuclear arrefecido por água moderado a grafite – e PRW – Reator de água pressurizada – que podiam produzir 1000 megawatts de energia elétrica. Esse último modelo é usado em Angra e precisa ser construído próximo a reservatórios de água, por isso as usinas são localizadas próximas a rios ou mares de onde é retirada a água para resfriamento, método criticado por ambientalistas, pois aumenta a temperatura da água, afetando os ecossistemas da região. As quatro unidades de Chernobyl eram do tipo RBMK e a planta da usina era considerada um modelo dentro da União soviética, que tinha planos de extensão.

Esse tipo de reator utiliza urânio-235 como combustível. A reação nuclear de um grama desse elemento produz aproximadamente 82000000 kJ de energia, valor mais de um milhão de vezes maior que o produzido pela queima de um grama de metano – gás usado em algumas termelétricas. Para produzir essa energia os átomos são bombardeados por nêutrons e quebram-se como esferas de vidro, formando núcleos menores que geram novos elementos como o bário e o criptônio. Quando esse núcleo é quebrado ele libera elétrons que passam a atingir novos núcleos, gerando uma reação em cadeia. Nos reatores usados em Chernobyl essa reação em cadeia era moderada pela utilização de grafite, reduzindo a velocidade dos nêutrons e permitindo o controle da reação.

Essa reação é altamente exotérmica, produzindo uma temperatura extremamente elevada, podendo fundir as paredes do reator, que são produzidas com tijolos especiais e espessas paredes de cimento e chumbo, com mais de um metro de espessura.

O urânio-235 representa apenas 0,7 % das reservas, para se obter energia o urânio deve ser enriquecido. Esse processo eleva a quantidade de urânio-235 para 3% – nível usado nos reatores nucleares – e é realizado pela centrifugação de compostos de urânio, mas esse processo também pode ser usado para gerar material para a produção de bombas atômicas. Por isso o Irã vem sofrendo retaliações constantes a cada vez que anuncia o desenvolvimento dessa tecnologia ou a criação de novas usinas de enriquecimento.

O acidente

Na noite de 25 de abril de 1986 os cientistas que trabalhavam na usina decidiram realizar um teste para verificar se as turbinas da usina seriam capazes de produzir energia suficiente para manter as bombas de refrigeração funcionando mesmo com uma queda de energia, até que os geradores a diesel pudessem entrar em operação. Esse procedimento manteria o reator resfriado, evitando uma explosão pelo aumento da temperatura. Durante a execução desse teste ocorreram inúmeras falhas que proporcionaram a explosão do reator.

Para evitar que o teste fosse cancelado, os cientistas burlaram uma séria de medidas de segurança. O sistema de segurança foi desligado e o reator teve sua capacidade reduzida para apenas vinte e cinco por cento, um procedimento que não é sugerido por medidas de segurança. Por razões desconhecidas houve uma queda de potência para menos de um por cento. Então essa potência teve de ser aumentada lentamente. Mas trinta segundos após o início do aumento a potência cresceu repentinamente e de forma inesperada. O desligamento de emergência do reator que cessaria a reação em cadeia falhou.

Em frações de segundo o nível da potência e de temperatura subiu de forma descontrolada e o reator explodiu. A tampa de vedação, que pesava mil toneladas foi arrancada e a temperatura de mais de 2000°C derreteu as hastes de controle, onde estava armazenado o grafite para controle da reação, que acabou entrando em combustão e em seguida começou a ser liberado para a atmosfera os materiais radioativos provenientes da fissão realizada pelo reator. A explosão teve força superior a quatrocentas vezes as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Não existe uma causa clara para o acidente, mas acredita-se que a combinação de erros humanos e tecnológicos foram cruciais. O teste aconteceu sob pressão, pois havia sido interrompido por nove horas e precisava voltar a fornecer energia para a capital, Kiev. Falhas técnicas na produção do reator também são apontadas como causa do acidente. As hastes de controle para reduzir a fissão podem provocar efeito contrário quando inseridas muito rapidamente, o que pode ter ocorrido em Chernobyl. E um acidente anterior na Lituânia em 1983, teve causas parecidas, mas que não foram relatadas para Chernobyl.

Para conter o incêndio os bombeiros jogaram água de resfriamento no núcleo do reator por dez horas,sem resultado satisfatório. Então durante o período de 27 de abril até 5 de maio, trinta helicópteros sobrevoaram a área despejando um total de duas mil e quatrocentas toneladas de chumbo e mil e oitocentas toneladas de areia para tentar abafar o fogo e absorver a radiação.

Com essa medida eles acabaram provocando efeito contrário, pois mantiveram material acumulado sob a camada de areia e chumbo e o calor aumentou novamente. Somente após 6 de maio o fogo foi controlado com nitrogênio.

Conseqüências

Os trabalhadores que combateram o fogo foram severamente submetidos à radiação e trinta e um deles morreram logo após. Cerca de oitocentos mil homens trabalharam na limpeza de Chernobyl e sofrem até hoje com danos à saúde. Cento e trinta mil pessoas foram retiradas da região.

Depois de sete meses o reator 4 e o núcleo derretido foram cobertos por uma espessa parede de concreto armado. Esse abrigo, conhecido como sarcófago, foi construído supondo-se que pudesse abrigar o material remanescente e conter a radiação. Após alguns anos foi revelado que ele havia sido projetado para durar entre vinte e trinta anos. Em 1997 foi criado o Plano de Proteção, que prevê um abrigo com duração de cem anos.

Hoje vinte e um por cento da Bielorrússia está contaminada por césio-137 que foi espalhado pela chuva e vento e pelo rio próximo a usina, após o acidente. Em alguns ambientes como terrenos para criação de escolas é realizada a escavação do solo para retirar a camada contaminada. As águas da bacia do rio Dnieper e lençóis subterrâneos estão contaminados, além de lagos, o que propicia a contaminação de peixes.

Atualmente a contaminação se concentra em áreas de florestas ao redor da usina, árvores frutíferas sofreram contaminação e as folhas das árvores serviram com um filtro armazenando a radiação. Ainda há uma grande contaminação nos alimentos, devido o consumo de feno e capim por animais e a produção rural para consumo próprio.

A quantidade de casos de câncer é outro ponto grave. Mesmo em crianças e jovens nascidos após o acidente, ainda pode ser observado o efeito da radiação absorvida pelos pais, já que ocorrem deformações genéticas que são transferidas por gerações. A pobreza e a falta de fiscalização também intensificam os problemas. Até oitocentas famílias podem ter voltado a morar clandestinamente na região, que tem o acesso controlado.

Conclusões

Ainda não existe um consenso sobre a utilização de energia nuclear, principalmente pelo nível de segurança alcançado. Um desastre pode acontecer a qualquer momento em uma das centenas de usinas que estão em operação no mundo. De um lado tem-se a obtenção de grande quantidade de energia através do uso de pequenas massas de urânio. De outro estão o acumulo dos dejetos com o tempo de operação, que ainda não tiveram um método de neutralização eficaz e o alto custo para construção e manutenção dessas usinas que chega a ser quase o dobro das usinas hidrelétricas. A usina de Angra 3 consumiria mais R$9,5 bilhões para ser finalizada, tendo em vista que a maior parte do material para sua construção já foi comprado de uma empresa alemã pelo acordo fechado para construção de Angra 2.

Na região de Caetité na Bahia, foram encontrados pontos de água com quarenta vezes mais urânio do que o tolerável pelo Ministério da Saúde. No local funciona a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), principal culpada pelas contaminações e que diz ser a grande quantidade de urânio no solo da região o real motivo da contaminação. O Ministério público já havia denunciado a empresa por despejo de material radioativo no ambiente.

Em 1987, pessoas se contaminaram em Goiânia, através de um equipamento de raio-x que foi parar num ferro velho. O dono do local abriu a cápsula que continha cloreto de césio e ao ver o sal azulado e brilhante resolveu mostrar para a família e amigos. Uma sobrinha dele ingeriu o sal e morreu. Seu corpo foi enterrado em um caixão de chumbo devido à grande contaminação.

Não se tem ainda uma posição correta sobre a utilização de energia nuclear. Se olharmos pelo ponto de vista da saúde pública, rapidamente optaremos pela utilização de outras fontes de energia renovável. Que estarão disponíveis eternamente, da mesma forma que os resíduos e as lembranças dos desastres nucleares.

Abaixo segue um link para o site da artista brasileira Alice Miceli, que faz imagens da radiação remanescente em Chernobyl.

http://www.premiosergiomotta.org.br/blog/index.php?blogid=3

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Categorias: Ciência e Tecnologia, Europa

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6 Comentários em “Dossiê Chernobyl – O maior acidente nuclear da história”

  1. Anna Cláudia
    26 de maio de 2010 às 1:13 #

    Nossa, adorei a postagem. Ajudou bastante, estou fazendo um trabalho sobre a Bielorrússia e achei interessante falar sobre a explosão, que de certa forma, também afetou o país.
    Muito bom, belo site !

  2. Sylvia
    25 de agosto de 2010 às 17:58 #

    Realmente o texto ficou legal, dava pra ser BBBEEEMMM mais enxuto, mas ficou bom!
    Só tá faltando mesmo as referências… vc disse um monte de coisas…soltou alguns dados…mas sem referências…parece só a sua opinião sobre o acontecido.

    Bem e na minha opinião…usinas nucleares são de longe a melhor opção energética…podem ser caras mas a quantidade de energia não se compara… sem contar que hidrelétricas tb causam muito impacto no meio ambiente.

  3. joao fancisco adamowicz
    17 de março de 2011 às 17:38 #

    estou fazendo um trabalho sobre catastrofe no japao com alunos meus e gostaria de mostra fotos de crianças nascidas em chernobil apos a esplosao da usina e mostrar os problemas que uma usina causa obrigado isto serve para que nossos governantes vejam que quem sofre e o povo emquanto o Brasil tem ventos e sol a vontade os governantes querem ganhar comisao emcima do povo isto é querer o bem do povo? dilma ou voces so querem dindin.

  4. Mari Perséfone
    17 de março de 2011 às 17:45 #

    Esse texto tirou mitas dúvidas que eu tinha… Parabéns! Por mim, o texto seria bem maior! rs

  5. Samantha
    31 de julho de 2012 às 12:46 #

    Adorei a postagem. Muito fácil compreenção e sanou muitas dúvidas!

  6. ROBERTO
    30 de maio de 2013 às 10:09 #

    Parabéns, Postagem clara e esclarecedora

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