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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte XI: Encontro

Quando a noite chegou, Eduardo já estava mais tranqüilo. Já havia passado a euforia que ele sentiu quando recebeu o sim de Isabella ao seu convite. Ele passou o dia olhando para o relógio e imaginando como seria aquela noite.

Quando a tarde foi acabando uma noite singular foi surgindo. Havia no céu apenas a lua e algumas estrelas tímidas que pareciam temer em surgir. A temperatura era extremamente agradável e um vento suave soprava rua abaixo, amenizando o pouco calor que emanava da rua.

Quando começou a escurecer Eduardo encostou a porta da loja torcendo para que ninguém viesse fazer uma compra, não importava o valor que resolvessem desembolsar o importante era o horário que se aproximava e a consumação do seu breve sonho. Levantou-se da sua cadeira atrás do caixa e caminhou até a janela, a noite estava realmente surpreendente e era possível ver o céu limpo como raramente acontece em São Paulo. Ao longe via os prédios das grandes avenidas que escondiam a serena rua onde ficava a Duque discos. Em alguns momentos aqueles prédios pareciam eximir as casas históricas, quase centenárias, da existência. As ruas continuavam ali somente para servir de acesso aos grandes conglomerados de escritórios e consultórios por onde milhares de pessoas se encontravam todos os dias, resolvendo seus pormenores ou tratando da saúde. Estranho era que poucos moradores da região haviam estado alguma vez nesses prédios. Como se a exclusão que os prédios concediam aos outros imóveis também se alastrasse aos moradores e criasse um campo de proteção contra os infortúnios da vida urbana.

Eduardo estava contemplando uns desses prédios, que possuía a fachada totalmente de vidro e refletia as luzes dos carros nas avenidas, quando sentiu novamente um bem estar. Desprendeu o olhar daquela enorme vidraça para contemplar a fachada infinitamente mais esplêndida de Isabella que abria a porta da loja.

– Olá, podemos ir ou você ainda tem horário para cumprir? Não é porque o chefe não está que você vai sair mais cedo. Principalmente se a culpa for minha. Isabella estava totalmente à vontade com Eduardo, parecia conhecê-lo há muito tempo.

– Não, já havia fechado a loja, só estava esperando você chegar. Deixa só eu pegar seus discos, ou vai deixá-los aqui? E então aonde iremos? Você tem algum lugar preferido? Eduardo apanhou a sacola com os discos de Isabella e foi até a porta. Enquanto segurava a sacola na mão, girou a chave com a outra mão e abaixou a porta metálica que cobria a fachada da loja. Fez tudo sem aceitar a ajuda insistente de Isabella e sem lhe entregar os seus discos.

Caminharam umas duas quadras pela rua onde ficava a loja até que Isabella parou em frente um bar. Eduardo achou que ela fosse pedir alguma informação, mas quando viu o sinal pedindo para ele entrar, percebeu que o lugar escolhido era aquele mesmo. Não que ele não freqüentasse botecos – inclusive aquele – só achou que o encontro merecesse um ambiente mais sofisticado, principalmente pela mulher que lhe fazia companhia.

– Vamos, entre. Isabella chamava Eduardo que estava parado na porta esperando que ela saísse para irem até o lugar que ela escolhesse. – O que você acha da gente ficar por aqui? Sei que não é o melhor restaurante da região e também não tem muita privacidade, mas eu adoro esse bar e os lanches daqui são sensacionais.

– Não, por mim tudo bem. Na verdade eu sempre freqüento por estar perto da loja e hoje mesmo pedi um lanche no almoço. Acho que a gente pode ficar por aqui, se não tiver problema para você ir embora. É que seria bom se você ficasse o máximo possível. Eduardo já demonstrava abertamente o motivo daquele encontro. Não era somente o início de uma amizade, mas algo maior que ele desejava profundamente.

– Tudo bem, daqui não fica difícil eu voltar para casa. Mas essa vontade de passar muito tempo comigo pode ser um tiro pela culatra. E se você não for muito com a minha cara, eu posso ser chata também.

– Não só fui com a sua cara como ela não me sai do pensamento e se pudesse passaria todo o tempo ao seu lado. Mas vamos sentar que a gente nem começou a conversar.

O bar era genuinamente um boteco. Tinha duas entradas, com suas portas de aço que corriam por canaletas laterais cheias de graxa protegidas por chapas de alumínio promocionais e um pequeno degrau na entrada. O interior era rústico e de acabamento antigo em madeira. Em torno do bar, quase na altura do teto, ficava uma vão que servia de prateleira para garrafas ainda lacradas. A parede ao fundo era circundada por um espelho inteiriço que possibilitava a visão da rua para os clientes e do balcão para o atendente. Havia uma chapa onde eram feitos os lanches e alguns freezeres para guardar os ingredientes. O balcão era antigo e contornava todo o bar, com vidraças onde se podia ver algumas garrafas de vidro nos refrigeradores, desde o caixa que ficava à direita de quem entrava, até os banheiros que ficavam do lado oposto. No centro do bar o balcão tinha um formato de “U” que criava um corredor interno e era circundado por bancos de madeira fixos ao chão mas quase sempre frouxos. Do lado de dentro do balcão havia uma pia de inox com copos americanos e alguns utensílios para preparar bebidas simples. Ao lado da pia ficava uma cuba de vidro onde eram estocadas várias dúzias de laranja e um espremedor de frutas grande e antigo de alumínio, usados para fazer suco natural, considerado ali o de melhor qualidade do bairro. Ainda sobre o balcão ficava uma estufa para conservar os salgados, que iam do bauruzinho à coxinha de frango. Em uma das paredes próximas ao banheiro ficavam várias caixas de cerveja empilhadas à espera de serem refrigeradas nos congeladores verticais de várias marcas de cerveja.

O ar tinha se tornado abafado e apenas um leve vento amenizava o calor daquela noite. Os dois decidiram se sentar do lado de fora do bar e o dono organizou com a precisão de um maestro, três cadeiras e uma mesa de plástico, com o logo de uma marca de cerveja que lhe rendia descontos nas reposições de estoque. Pediram uma cerveja que chegou à mesa na temperatura ideal, formando pequenas gotículas com a fina camada de gelo que cobria a garrafa e um lanche para acompanhar a cerveja. O bar era simples e o ambiente calmo, perfeitamente como havia se espalhado a sua fama pelo bairro e mesmo alguns funcionários engravatados paravam ali para apreciar as cervejas geladas na medida certa e os lanches bem recheados.

O colóquio entre Eduardo e Isabella começou descontraído e a cada assunto que surgia eles percebiam a quantidade de conhecimento que cada um possuía. Vez ou outra algum deles se sobressaía com comentários mais profundos sobre um tema. Eduardo exímio conhecedor de música, futebol e artes em geral. Isabella quase uma doutora em roteiros turísticos e eminente analista da condição humana. Todo tópico que surgia era explorado até as últimas conclusões, sendo discutido, argumentado e debatido densamente. E cada vez que um deles falava o outro sentia que estava à frente de uma pessoa única em conhecimento e aparência. Aos poucos iam se sentido mais unidos e Isabella já começava a sentir no seu interior uma manifestação de afeto parecida com a que Eduardo cultivava desde o primeiro contato na loja.

Quando a noite já ia se alastrando e o dono do bar dava indícios de que iria fechar, eles resolveram terminar a conversa por aquela noite. Eduardo se ofereceu para levá-la até um ponto de ônibus ou táxi. Isabella aceitou e eles foram caminhando rua abaixo.

Em um momento Isabella parou em frente a um portão de madeira e pediu para ver os discos que havia comprado de manhã. Eduardo que havia carregado a sacola até ali passou para Isabella que contou duas vezes para se certificar que havia um disco a mais. Retirou todos da embalagem e por último viu um disco de Jimi Hendrix. A capa era tomada pelo rosto de Hendrix e embaixo havia a inscrição jimi hendrix:war heroes. Ela nunca havia visto este disco e ficou extasiada quando Eduardo perguntou se ela havia gostado.

– Como assim se eu gostei? Nem sei o que este disco está fazendo aqui.

– É um presente meu. Este disco é uma das maiores raridades do Hendrix. É uma união de músicas que ele gravou e não saíram nos discos anteriores. Aí você acha todas as vertentes possíveis que ele conseguia produzir na guitarra, para mim é o melhor disco dele junto com “Are you experienced?”. Eduardo segurava na parte de cima do disco e falava com empolgação enquanto Isabella segurava em baixo sem entender o que acontecia.

– Mas se é uma raridade deve ser uma fortuna. Por que você está me dando esse disco? Se você gosta tanto dele, não deve querer se desfazer dele tão facilmente. Como você pode confiar uma preciosidade para alguém que você mal conhece? Eu posso ir embora e nunca mais voltar.

– O valor não importa e tenho plena confiança de que você é a mulher mais adequada para proteger tudo que eu mais gosto. Desde o dia que você entrou na loja eu sei disso. Você me perguntou se alguma música tinha ligação com a minha vida e quando eu ouvi seu nome descobri uma nova ligação. A última faixa desse disco chama-se Izabella e é uma declaração ao melhor estilo Hendrix. Por noites eu sonhei com você assim como ele sonhava com essa Izabella. Passei horas ouvindo essa música e pensando em você. É uma das canções mais sensacionais que eu já ouvi e que agora está gravada em mim de uma forma inextinguível.

Isabella não soube o que responder. Não conseguia encontrar palavras à altura do que Eduardo havia dito e sabendo que já alimentava o mesmo sentimento, principalmente após descobrir naquele momento que Eduardo também era um homem sensacional e possuía uma ternura incrível, ela se aproximou dele e retribuiu tudo com um beijo.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

 

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