Anúncios

Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte X: Convite

Quando Duque disse que sairia no dia seguinte e o deixaria como responsável da loja, Eduardo não sabia qual sensação era melhor. Estaria pela primeira vez à frente da Duque discos totalmente responsável pelo funcionamento da loja, algo que ele sempre esperou. E estaria livre para poder desenvolver um método de conquista com Isabella. Praticamente não houve tempo para refletir sobre a responsabilidade de administrar a loja por um dia sem a ajuda de ninguém. Na verdade ele já esperava por isso há muito tempo e sabia que tinha capacidade suficiente para manter tudo sobre controle. Desde que seguisse todos os passos que vinha adotando durante os últimos meses e que Duque tratou de passá-los dia após dia quando começou a trabalhar na loja, não haveria situação alarmante. E esta oportunidade demonstrava também a confiança que o comandante daquele barco depositava no seu fiel e único marujo, como se fosse uma patente que ele houvesse adquirido naquele instante. Chegando nessas conclusões Eduardo deu-se por satisfeito e grato com a oportunidade e debruçou-se sobre uma mesa imaginária, igual a que havia no seu quarto no fundo da loja, para decompor minuciosamente as estratégias mais úteis e conjecturar sobre os resultados possíveis para sua verdadeira motivação: conquistar um posto importante na vida de Isabella.

Naquela noite após fechar a loja quase não dormiu. Costumava passar alguns instantes na cama refletindo antes de adormecer, sobre o dia que tinha passado ou sobre as atividades que deveria executar no dia seguinte. Sempre que havia uma tarefa nova ou que não era tão costumeira no seu dia-a-dia habituava ponderar sobre os métodos mais precisos para executá-las. Nessa noite passou algumas horas acordado tentado chegar a uma conclusão sobre o procedimento que deveria aplicar para começar sua conquista com Isabella e se deveria realmente fazer isso. Foi fácil se convencer de que não havia outra opção a não ser tentar algo, o difícil foi escolher a forma de fazer isso. E nesses pensamentos ele acabou dormindo profundamente pelo resto de noite que ainda tinha.

Acordou antes do despertador. Quase uma hora antes. Estava um pouco eufórico e não sabia por que se sentia assim, embora fosse importante e ele não conseguisse pensar em outra atitude, nunca tinha ficado tão apreensivo frente à possibilidade de conquistar uma garota. Isabella era especial. Por mais que se mostrasse futuramente uma mulher comum ou até pior que outras, naquele momento era a mulher mais fascinante que Eduardo conhecia e a que mais lhe chamava a atenção.

Levantou com a madrugada ainda escura. Caminhou pelo quarto na penumbra até encontrar o interruptor. Acendeu a luz e procurou a roupa que iria usar, uma camiseta e uma calça jeans como fazia todos os dias. Seria ele mesmo naquele momento, levando em consideração o comentário de Duque sobre a impressão que causou ao entrar na loja de forma simples. Talvez a moça gostasse de homens mais despojados. Talvez ela mesma só estivesse vestida tão formosamente porque seu trabalho exigia. Eduardo atravessou o pátio e foi até o banheiro, onde tomou um banho longo e reparou a barba. Voltou para seu quarto, calçou os sapatos, se perfumou e foi até a cozinha que ficava aberta, onde encontrou com Duque que se preparava para sair. Ao vê-lo Duque disfarçou o riso e fingiu não perceber o ânimo que tomava conta de Eduardo. Fez questão de ressaltar os cuidados que deveriam ser tomados e lembrou sobre os horários da loja.

– Já de pé? Achei que ia sair cedo sem te acordar. Hoje você toma conta da loja, certo? Como vou ficar o dia todo fora, você pode controlar o horário de hoje. Só não vai ficar fechado o dia todo, acho que um cliente passa para buscar uns discos que eu deixei separados embaixo do caixa.

– Pode deixar chefe. Não consegui dormir direito essa noite. Talvez tire uma sesta depois do almoço, quando estiver mais tranqüilo. Acho que vou fechar hoje quando escurecer. Talvez alguém tenha interesse em passar aqui, já aconteceu uma vez, né.

– Fique à vontade. Eu só volto à  noite, vou garimpar alguns sebos por aí. Até mais. Boa sorte. Duque deu um tapa nas costas de Eduardo e saiu carregando uma mochila. Cruzou a loja e saiu. Fechou a porta e correu em direção ao ônibus que já subia a rua. Decidiu nesse momento que compraria um carro o mais rápido possível.

Eduardo estava elétrico. Não conseguia ficar parado em um canto. A ansiedade de encontrar com Isabella tirava sua calma. Decidiu fazer uma faxina na loja enquanto esperava o horário de abrir. Colocou um lp após outro na vitrola enquanto limpava alguns discos e varria o chão. Todos tinham a ênfase romântica e Eduardo cantava em voz alta as frases mais impactantes. Quando se aproximou o horário em que havia aberto a loja no dia anterior ele levantou as portas e deixou o dia tomar conta do ambiente. Aos poucos a luz entrou e o barulho da rua invadiu o espaço junto com o ar carregado de odores característicos das grandes avenidas do centro de São Paulo. Depois de pouco tempo uma energia arremeteu Eduardo e ele sentiu a aura de Isabella. Abriu um sorriso e foi cumprimentá-la.

– Bom dia. Parece que vocês gostaram da minha sugestão de abrir mais cedo. E olha que eu saí antes do costume. Imaginei que teriam aberto a loja. Isabella estava bela e simpática como no dia anterior. Parecia carregar toda a boa ventura do mundo.

– Não consegui dormir bem e como o Duque saiu para resolver alguns problemas eu decidi abrir mais cedo e esperar que você  chegasse. Eduardo usou a expressão facial que as pessoas usam para demonstrar que estavam brincando com sinceridade. Estratégia muito usada na conquista quando se quer ser ofensivo sem ofender.

– Quer dizer que eu me tornei tão importante passando uma vez pela loja e sem levar nada? Olha que eu vou me tornar egocêntrica.

– E por que não seria importante? Quantos homens devem te prometer o lugar mais precioso nas suas vidas?

– Também não é assim. Isso acontece com todas as mulheres uma vez na vida e se chama pedido de casamento. Mas vocês estão com algum problema grave? Não quero perder essa riqueza que eu demorei tanto para encontrar, assim tão rapidamente. Eduardo procurou nela a mesma expressão que ele havia utilizado, para desvendar se ele seria essa descoberta.

– Não, na verdade ele foi buscar soluções. Foi encontrar com um amigo que está se desfazendo do seu estoque de discos. Logo mais teremos novidades.

– Que bom, por que eu pretendo preencher minhas prateleiras com esses discos e Estou só no começo. Hoje já levo alguma coisa. Será que vocês guardam pra eu pegar depois do trabalho?

– Com certeza. Se você quiser a gente pode começar a procurar agora mesmo. Me fala o que você curte e eu te mostro, já aproveito e dou umas dicas. Aí você passa à  tarde para pegá-los.

Eduardo ajudou Isabella a escolher alguns discos entre os milhares que estavam na loja. Durante esse tempo aproveitou para ficar o mais perto possível dela. Queria guardar seu perfume e sentir seu calor. Usou grande parte de seu conhecimento musical para manter Isabella interessada e conquistar alguns sorrisos e olhares de surpresa, que faziam Eduardo perder o foco sobre o que estava falando. Passaram quase uma hora andando pela loja e conversando sobre discos e música. Vez ou outra Eduardo citava algo da sua vida que tinha relação com alguma música, mas não chegou a citar a música mais determinante em sua vida, queria mesmo esquecer esse episódio. Só que em determinado momento eles colocaram a mão sobre o disco de capa simples dourada e que deveria ter se chamado Mitologia & intuição, mas acabou se chamando Dois. Isabella pareceu usar sua intuição feminina quando perguntou se esse disco não trazia nenhuma lembrança a Eduardo.

Por um momento Eduardo achou que pudesse haver algo naquela mágica toda que envolvia Isabella. Talvez ela conhecesse Claudia ou mesmo soubesse algo sobre Eduardo. Ele não estava livre de sofrer algo por conta de seu passado afinal, ele sempre teria uma sujeira em sua ficha criminal. Tentou responder da forma mais natural, disfarçando seu nervosismo.

– Esse disco tem ligação com o momento, talvez, mais importante da minha vida. Passei um longo período associado a uma música dele. E foi por conta disso que vim parar aqui e conhecer você. Viu como a música tem sempre um lado bom.

– A música só tem lados bons. E agora eu fiquei curiosa sobre esse episódio, se você não tiver problema em me contar. Quando eu passar a tarde a gente podia conversar um pouco mais. Acho que não vai ter tanto movimento assim na loja. Se não for exigir muita atenção. Isabella parecia não ter noção do seu poder de domínio sobre os homens, ou então fingia não saber que o possuía.

– Com certeza. Assim que você passar aqui a gente continua nosso papo e você pega os discos. E a gente pode ir para algum lugar aqui perto, um barzinho. Encontrar um lugar mais agradável para papear, que tenha um cheiro mais atual e não tenha pessoas interrompendo nossa conversa para perguntar sobre um disco que não vão comprar. Se não for indelicadeza isso é um convite. Eduardo considerou o interesse de Isabella perfeito para conseguir um momento de intimidade e torna-se mais achegado a Isabella.

Isabella aceitou o convite e após separar uns sete ou oito discos essenciais para começar sua compilação de clássicos se despediu de Eduardo e confirmou o encontro para à tarde.

– Então fica acertado. Eu passo aqui após o expediente, pego os discos e a gente vai para algum barzinho por aqui. Espero que o Duque não tenha ciúmes de ti. Ou então ele pode ir com a gente também.

– Não, pode ficar tranqüila. Acho que ele só  volta bem tarde. Estarei livre para você, ficarei esperando. Eduardo brincou pela última vez antes de Isabella sair e deixá-lo esfuziante de alegria. E o resto do dia correu dessa forma. Com Eduardo desligado do mundo quando não havia ninguém por perto, até chegar a noite.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

Anúncios

Tags:,

Categorias: Crônicas do Olimpo

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: