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Fantasias pedagógicas – 1a parte

Por José Salvador Faro

Pela 3a. vez consecutiva estou participando da experiência com Projetos Integrados (PIs) em cursos de graduação. O nome diz tudo, mas é conveniente detalhar um pouco o que vem a ser isso. Trata-se de uma proposta adotada nos últimos anos pelas coordenações pedagógicas de vários cursos em muitas instituições e traduz uma filosofia. Formula-se um projeto que consubstancie a prática dos estudantes em torno de uma atividade relacionada com a formação profissional que escolheram e em torno dele, de forma convergente e interdisciplinar, todos os professores e todas as professoras se articulam para que o resultado final acabe traduzindo a integração das várias áreas do conhecimento com as quais o aluno toma contato no período letivo em que se encontra. O resultado esperado é que, na concretização do projeto, transpareça a qualificação acadêmico-experimental do estudante.

Os PIs são, há muito tempo, uma obsessão de extração construtivista que vêm ocupando espaço crescente em todos os níveis de ensino; e seus pressupostos, mesmo relevando a simplificação que fiz acima, são admiráveis e devem corresponder certamente à utopia de uma filosofia que elimina a fragmentação do conhecimento em favor de um corpo unificado de práticas e de reflexões conceituais que dão conta da complexidade do saber.

Descrita assim, essa proposta que vai se tornando uma espécie de “pensamento pedagógico único”, é uma maravilha; vistas as coisas de perto, no entanto, para que um PI interdisciplinar seja possível, dois problemas indicam que a Universidade brasileira, em especial a particular, está corroendo a qualidade de formação de seus alunos e desqualificando a atividade docente.

No primeiro caso, o que tem sido chamado de “integração multi ou interdisciplinar” é, na verdade, uma operação reducionista de vários campos do conhecimento que se condensam para que possam convergir para a operacionalidade dos PIs. Em outras palavras: um verniz que transforma os fundamentos de todas as disciplinas num universo superficial de referências que só é aceito pelos alunos porque a mística de que ele está sendo preparado para o mercado encontra nesse praticismo inconsequente a sua legitimação. A rigor, os PIs multidiscplinares não estão preparando ninguém para coisa alguma, exceto para o desenvolvimento de habilidades rudimentares que seriam mais bem adequadas (e melhor desenvolvidas) numa escola técnica de segundo grau do que num curso superior.

No segundo caso, o problema todo decorre de uma esquizofrenia que toma conta da implementação operacional da interdisciplinaridade, necessária para que os conteúdos se articulem nos PIs. Como a ênfase recai sobre o produto final e em seus aspectos formais referenciados às práticas pré-existentes no mercado, todos os processos de reflexão e experimentação – para os quais, no final das contas, a Universidade existe -, ficam deslocados das atividades de ensino, transformando-se o professor numa espécie de tutor de grupos de estudantes com baixo índice de apuro e de interesse por uma formação intelectual mais densa.

Dia desses, um amigo professor me dizia que o efeito mais prejudicial dessa “fantasia pedagógica” é a própria inadequação que gerações inteiras de jovens graduados sofrem no mundo do trabalho, como comprovam inúmeras pesquisas que atestam que a Universidade brasileira – nessa configuração que adquiriu nos últimos anos – não prepara para o mercado. Pois eu penso que isso é verdade, embora o marketing das escolas de ensino superior diga exatamente o oposto. É possível que o processo todo reflita um paradoxo insuperável: uma Universidade esvaziada de suas principais características e disfuncional em relação às demandas do desenvolvimento. Como sempre… salvo raras exceções, como pretendo explicar em outra postagem.

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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