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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte IX: Originalidade

Quando a figura de Isabella já não era mais visível para Eduardo, na verdade já tinha sumido do campo de visão há alguns minutos e seria necessário uma luneta ou algum instrumento do tipo para poder enxergá-la, ele percebeu o quanto havia sido tocado pelo jeito e pela beleza que estiveram presentes na sua frente por poucos mas excitantes minutos. Não havia dúvida de que aquela mulher tinha se transformado numa espécie de guia para seus olhos e pensamentos. Havia muito tempo que não sentia tamanha apreensão quando via uma mulher se afastar, como se pudesse nunca mais vê-la, coisa que acontecia rotineiramente no seu tipo de trabalho. Quando ainda pintava na rua, via centenas, até milhares de mulheres maravilhosas que conseguiam desviar vários olhares masculinos quando passavam. Por vezes se deixava levar por um corpo bem esculpido ou por um charme que estava presente numa combinação de roupas, em um corte de cabelo ou jeito de andar. Gostava de analisar as mulheres. Não ficava reparando, como a maioria dos engravatados ou moleques que passavam pela calçada onde desenhava, nos corpos exagerados, fabricados em academias ou expurgados por remédios para controlar peso. Achava até irritante que uma pessoa pudesse usar de formas artificiais para conquistar uma imagem, que também se tornava artificial. Afinal, se havia sido formada por algo postiço devia ser também postiço. Como uma inteligência artificial, não poderia ser superior ao que é natural. Uma máquina jamais poderia dominar o homem. Com certeza era capaz de pensar mais rapidamente, de produzir resultados mais precisos, de vencer um ser humano na força ou de ganhar um jogo de xadrez. Mas se não era capaz de produzir seu próprio raciocínio como poderia produzir soluções? Uma máquina nunca havia criado nada, somente reproduzido um pensamento humano muito complexo de forma infinitamente mais rápida e precisa. Um programa mal desenvolvido resultaria num produto mal acabado e nenhum computador corrigiria isso. Os computadores não podiam ter idéias. Essa foi a conclusão final que Eduardo tirou e por isso embora parecesse cético para a maioria das pessoas mantinha dentro de si uma crença em algo superior, algo que havia feito os homens e as mulheres como são, e que deveria ser respeitado. Respeito que era afogado quando uma mulher recorria a uma plástica, quando tentava mudar as formas de seu rosto ou de seu corpo. E principalmente quando uma mulher não aceitava a si própria. A pior característica que uma pessoa podia ter, usava as mulheres como exemplo porque elas costumam demonstrar mais abertamente suas insatisfações, era a rebeldia contra sua forma física. Característica pior que o narcisismo exagerado que não passa de um amor excessivo por si próprio, algo que toda pessoa deveria ter, e que resgataria do fundo do oceano da vaidade o respeito pelo criador, pela força maior que impulsiona o universo.

Eduardo era um romântico cavalar, um legítimo ultra-romântico. Sua rejeição a corpos esculpidos sinteticamente produzia de forma oposta uma atração enorme a mulheres que admitiam seus defeitos e conseguiam ainda ressaltar seus atributos, físicos ou não, mas naturais. Uma ruga que vinha com a idade, uma mancha na pele ou uma imperfeição qualquer podia representar algo na vida de uma mulher e por si só era interessante. Uma mulher inteligente, educada ou simpática e não construída em clínicas estéticas era na maioria das vezes muito mais atraente que um corpo torneado, bronzeado e comprado. Para Eduardo, um cérebro que movia um corpo era mais útil do que um corpo que sustentava um cérebro. Embora já tivesse se apoderado de um corpo sem cérebro algumas vezes, não sentia uma vontade pura de possuir mais uma vez uma mulher como objeto somente. Queria sentir a mulher que permanecia ali dentro, como a impressão que vive numa tela e que só pode ser vista com uma longa observação.

Divagações desse tipo eram constantes na vida de Eduardo, tirava suas conclusões de suas próprias idéias e era seu próprio guru. Muitos de seus amigos o achavam exótico, alguns admiravam sua excentricidade e outros reconheciam que ele tinha a capacidade ser, de certa forma, superior por possuir um pensamento próprio, livre de influências e avançado mesmo entre pessoas liberais como o círculo de artistas ao qual ele pertencia. Podia ser feliz sem se importar com pequenos detalhes, sem o interesse de querer parecer com os seus iguais. Não seguia regras impostas, seguia as regras básicas para uma convivência harmoniosa e não mudava seu jeito de ser para parecer agradável aos amigos ou para ser bem visto em algum lugar. O que fazia era justamente o que sentia ser melhor pra si. E o fundamental era que não fizesse mal a ninguém. Respeitando esse princípio podia desenvolver livremente seu modo de vida. E foi exatamente isso que o levou até aquele ponto de sua vida. Era feliz e não tinha do que reclamar. Agora só lhe faltava conquistar Isabella para poder juntar toda a felicidade que almejava em um frasco que carregaria com todo o cuidado pelo resto da vida. E era exatamente o momento certo para completar o volume que ainda faltava para encher esse frasco.

Duque voltou para a loja e deparou-se com Eduardo encostado em um dos balcões olhando para a rua enquanto do outro lado da loja um homem olhava alguns discos. Percebeu o quanto Eduardo estava desligado do mundo e sabendo que se tratava de Isabella resolveu trazê-lo de volta da sua viagem extra-sensorial.

– Eduardo, você já atendeu nosso amigo?

Eduardo pousou novamente na Terra, mas antes que respondesse o homem replicou a Duque:

– Não, não precisa. Na verdade só entrei por curiosidade. Havia muito tempo que eu não via uma loja desse tipo. Provavelmente passarei aqui, com mais calma, durante a semana. Obrigado pela ajuda, mas já estou no meu horário, outro dia eu volto.

– Fique à vontade. Se quiser pode passar durante o fim de semana. Obrigado pela visita e se tiver algo especial pode deixar um pedido. Enquanto Duque falava o homem foi saindo da loja e como raramente acontecia, tinha no rosto uma expressão de sinceridade que dizia que ele voltaria à loja.

– Então, o que achou da nossa estimada cliente? Parece que vocês se entenderam bem. Duque falava de cabeça baixa enquanto procurava outro disco. O que estava na vitrola já havia parado há um bom tempo sem que Eduardo percebesse.

– O que você quer que eu fale? Com a simpatia dela qualquer parece estar se dando bem. Mas a gente nem conversou direito. Quando pensei em falar alguma coisa ela já disse que precisava ir embora, vai ver que não foi muito com a minha cara. Eu é que fui muito com a dela.

– Que é isso. Percebi no olhar dela, e que olhar, que você causou uma boa impressão. Principalmente quando entrou aqui sem pinta de galã. Ela provavelmente deve ser muito assediada. Tudo culpa daquele vestido azul. Duque riu da própria ironia. O que era um vestido comparado com a beleza de Isabella?

– O melhor é que ela não é daquele tipo exagerado. Tem um corpo comum mas com cada pecinha no lugar. Será que ela passa aqui amanhã? Eduardo perguntou para Duque, entregando seu entusiasmo pela moça.

– Eu não sei dizer, mas você poderá me responder quando eu voltar. Amanhã vou buscar uns discos com um amigo. Ele está se desfazendo de um lote bom, tem bastante coisa legal que o pessoal anda procurando.

Duque queria saber qual seria a atitude de Eduardo. Se ele iria tentar conquistar Isabella ou se ficaria esperando alguma demonstração de interesse da moça. Com certeza aquilo seria divertido, então resolveu antecipar uma visita que faria a um amigo para dar a oportunidade a Eduardo de ter um momento a sós com Isabella. Saiu logo cedo no outro dia e deixou somente as instruções básicas para que Eduardo cuidasse da loja. E Eduardo aproveitou para abrir a loja ainda mais cedo.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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