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A internet como espaço público

Por Érica Perazza

A internet é recente, mas nos apegamos tanto a essa tecnologia que não conseguimos mais imaginar nossas vidas anteriormente… Ou sem ela.

Para algumas pessoas funciona como terapia. Preenche vazios de solitários, pois sempre há o que fazer o que ver o que conhecer com quem falar. De certa forma ela se tornou uma fuga.

Mas mal percebemos isso. Mal percebemos como a internet tem um poder de influenciar em nossas opiniões e ideias, no que sabemos no que precisamos saber, no que queremos ser e no que nos tornaremos.

A internet (assim como a TV) aos poucos se mostra sendo uma ideologia (talvez inconsciente) que indica e prescreve o que devemos pensar e como devemos pensar, o que devemos valorizar, o que devemos sentir, o que devemos fazer e como devemos fazer. Mas existem ideologias fragmentadas que constroem seus próprios valores e versões de verdade. Mas é sempre uma concepção de mundo que beneficia apenas uma parcela da população. Uma ideologia que deixa éticas perecíveis em determinados momentos.

São imagens, notícias, vídeos, músicas e até aforismos proliferando-se e sendo compartilhados por milhões de pessoas ao mesmo tempo em várias localidades do planeta.

Essa abrangência da web finalmente fez com que a humanidade percebesse ( apenas percebesse e não se tornado de fato) que é um organismo único, que todos são interligados e aspirantes a um futuro semelhante. Ela é uma ponte entre entidades e cidadãos. O Twitter deu essa ênfase. Mas parece que quanto mais nos aproximamos de uma linha de fuga, mais nos tornamos distantes. A interação pode ser fútil e superficial se não reconhecerem as opiniões dos usuários fora da web.

A Classe C brasileira, esquecida socialmente, arrombou esse mundo virtual com mais de seus 27 milhões usuários a princípio e agora já chegando aos 50 milhões. É o equivalente a 45% de uma esfera que ela tem acesso, diferente da Educação, Saúde, Transporte e Política. Ela se sentiu pertencente e ativa no mundo. Aliás, todos os cidadãos, pois é um lugar livre, sem censura. A internet é um LUGAR. Um lugar como as ruas que antigamente eram invadidas por manifestações. É um universo que agrega todos os tipos de pessoas e classes. A tendência do mercado era se sofisticar, ultrapassar os 100%. Agora querem atingir essa nuvem grande e cinzenta para se popularizarem.

A internet é um mundo utópico, onde todos participam, sem hierarquia, sem distinção de raça, cor, sexo, classe social. Onde todos poderiam ser livres, faze e dizer o que pensam e desejam. Onde todos são capazes de mostrar seu conteúdo. Um conteúdo que se expande e se espalha até o mundo real e que até pauta outras mídias.

A prática dessas idéias, as discussões, debates, comentários em fóruns, blogs, redes sociais, ajudam a fortalecer a esfera pública e dá uma nova vida a democracia. As pessoas começam a explorar novos horizontes a partir do momento que experimentam novos pensamentos dentro delas.

Na era da democratização da comunicação, os blogs refletem bem isso. A democrática e libertária internet é um espaço aberto a opiniões, críticas, desabafos e questionamentos. Temos uma maior visibilidade do mundo com tantas fontes e perspectivas. Os blogueiros até chegaram a ameaçar a profissão do jornalista, mas hoje percebemos que essa ferramenta serve muito mais para somar.

Hoje o Senado e a Petrobrás também possuem blogs informativos. Em contrapartida, a divulgação dessas informações perde o elo com o interesse público, pois tende ao interesse da empresa e do Estado. É importante que haja a mediação do jornalista. Porém, é importante também que o jornalismo volte as suas tradições de apuração, checar se é verdade mesmo e esclareça o que está acontecendo à sociedade. O público vendo o que a empresa ou o Estado publicou, confere com as matérias jornalísticas, e dessa forma constrói sua própria versão de verdade, qualifica sua opinião.

Essa crença da emancipação da internet sem censura pode se tornar uma ilusão. Ela pode cercear a liberdade de você ser quem você quer ser. Pois cada vez mais o espaço de liberdade de expressão diminui. Essas ferramentas são utilizadas por empresas na contratação de profissionais, como forma de analisar seus candidatos e pode acabar limitando seus verdadeiros instintos e vontades, forçando um mundo perfeito… e falso.

A Lei Azeredo é um exemplo disso.

Aprovada desde 2008, ela propõe novas formas de enquadramento para os crimes cibernéticos. O senador Eduardo Azeredo afirma que a proposta não vai causar nenhuma mudança para os usuários “tradicionais” de computador. Porém, muitos críticos dizem que pode prejudicar ações corriqueiras realizadas, por exemplo, nos blogs. Pois o artigo 285-B criminaliza a ação de “obter ou transferir, sem autorização ou em desconformidade com autorização do legítimo titular da rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, protegidos por expressa restrição de acesso, dado ou informação neles disponível.”

Essa lei pode representar a des-territorialização nas relações entre os cidadãos e instituições, como as entidades estatais. A presença pública já é escassa na política o mundo real e agora estão se movendo para o virtual. Os internautas acreditam que a liberdade e o espírito reacionário na web permitem mudanças, mas esquecem que a internet é um instrumento do próprio sistema e que pode acabar apenas fortalecendo as precariedades dos direitos civis, por exemplo.

Por muitos cidadãos essa medida foi vista como um futuro controle da internet e também da falsa sensação de liberdade. Uma vez que existem poucas iniciativas que potencializam, asseguram e levam a sério o que é abordado, discutido e feito através da web. Esse processo ainda está em desenvolvimento, afinal, somos a primeira geração, digamos, a lidar com a vinda da internet. Ficamos até vulneráveis demais devido a tamanha exposição, não existe uma divisão, uma linha tênue ou um conceito do que é público e privado.

Estamos vivendo o momento mais agudo da mudança de paradigma por causa dessa revolução.

ICQ e outros sites e novidades que chegaram a partir de 2000, já são considerados arcaicos.

De outro lado, a cultura genuína como literatura não é nem se quer lembrada. O público sofre de uma carência, ou melhor, um déficit de cultura. Há um tiroteio de palavras, de sons, de sensações que se propagam como se fossem cultura. Como se fossem. O conhecimento está desvalorizado e o que importa é somente receber vômitos de informações sem interpretá-las, desorganizadas, banalizadas, sem função emancipadora, sem nenhuma função.

As pessoas acreditam que através da internet vão se politizar, adquirir cultura, mas não, ela serve como auxílio. O que educa são livros e professores. E a sociedade converge seu tempo a internet, uma válvula de escape ao trânsito, ao trabalho, a realidade. E se vicia, se torna uma hipocondríaca digital, mas é um vício nelas mesmas, pois tentam se encontrar num vazio de persperctivas fúteis que adoram procurar.

É a máquina que fala, ouve, escreve, lê, pensa, discute, opina, sente, ama, odeia por nós. Não é uma extensão de nosso ser. Nós que somos uma extensão dela. E alguns sentimentos extremamente complexos irão desaparecer já que a máquina é limitada.

No inicio do filme “O Informante”, a aparição do grupo terrorista Hezbollah, revela que a modernidade está cada vez mais afastando a ética em relação à religião para triunfar a razão humana. Essa mensagem continua por todo o filme, porém a religião se transforma no jornalismo e todos os princípios que giram em torno do compromisso da verdade para com o público. Aliás, envolve muito mais do que a função jornalística.

O produtor Lowell Bergman tenta convencer o ex-biologista, Jeffrey Wigand a falar no programa de TV 60 minutos sobre a empresa de tabaco Brown & Williamson que faz seus usuários ficarem viciados em seu produto. Porém, Jeffrey encontra paradigmas em seu caminho que transcendem dilemas éticos. Ele, envolvido numa densa atmosfera de amor, medo, raiva e insegurança, teme por si e por sua família. Com isso, seu caráter e sua integridade serão postas à mesa. Para ele a questão não é o ato de fumar, mas sua responsabilidade perante milhões de vidas. Em contrapartida, a Rede de TV CBS, que possui relações com a empresa de tabaco, deseja subir no muro e pular do outro lado quando a questão se torna anti-humanista devido a bilhões de dólares.

Ben Bradlee, editor do The Washington Post, uma vez disse: Toda reportagem que sai num jornal deve ter algum propósito social: criar mais liberdade, defender ideias, fazer críticas, melhorar a situação dos menos privilegiados.

Esse é o ideal, mas que a CBS não consegue sustentar devido aos negócios. Todavia, o jornalista Lowell, percebe que Jeffrey é um humano demasiado humano como diria Nietzsche. Tanto quanto ele quando sua moral e sua profissão entram em crise. Lowell não está simplesmente preocupado com o que deve ou não ir ao ar e por que, mas com a segurança da sua fonte e a que ponto está disposta a ir uma pessoa que tem uma família e dignidade.

Nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada, pois nós ficamos inertes muitas vezes.

Há um coronelismo da imprensa

Os senhores feudais do showrnalismo disputam a quantidade fingindo servir a sociedade. Elegemos políticos, mas não os donos das mídias – um espaço público.

Talvez com a internet e a intensidade da nossa força de vontade que dermos a ela, tornemos o exercício dessa hegemonia conservadora um tanto quanto sutil até ela apodrecer. Hoje já não nos permitimos ser tão manipulados, não aceitamos tantas imposições, pois temos uma alternativa chamada internet que podemos checar e expor nossos comentários, participar. O problema é que ela está saindo do mundo underground para subir a luz que capaz de cegar.

A internet está quase saturada. As suas avenidas estão congestionadas. Deveríamos ter virado à esquerda, e seguido em frente. Agora estamos perdidos. Precisamos de uma nova linha de fuga.

Temos que extrair – de nossa esfera pública – maneiras de viver que fujam à norma, que não sejam dominantes na sua forma de existir, é não abusar dos clichês, dos dualismos, e traçar novos territórios, novas linhas de fuga. É pensar numa contracultura, numa cultura de sabotagem à tradição vigente. O devir é sabotar a tradição, é a alternativa, é o escape, é a libertação do pensamento da hierarquia da árvore como diz Chomsky.

Além disso, na sociedade de controle que vivemos temos que saber encontrar a ética em todas as esferas e espaços públicos, seja internet, jornalismo, na política e principalmente dentro de nós mesmos.

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Categorias: Ciência e Tecnologia, Comportamento, Crônicas do Olimpo

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