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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte VIII: Isabella

– Aí está nosso Michelangelo! Exclamou Duque, apontando para Eduardo.

Às vezes fazia esse tipo de brincadeira comparando as pinturas na parede com as célebres imagens do teto da Capela Sistina. O orgulho que sentia por ter não somente a maior loja de discos da região – o que não era difícil visto o número de comércios destinados ao ramo – mas principalmente a que melhor representava o espírito que está presente nesses ambientes era um dos estímulos para continuar em frente. Qualquer pessoa que entrasse na Duque Discos passava imediatamente por um processo de purificação ao ver aquela tela gigante que rodeava toda a loja. Normalmente as poucas lojas que ainda existiam na cidade, principalmente na famigerada Galeria do Rock, eram formadas por prateleiras assombrosas que iam até o teto e ficavam abarrotadas de discos. Sempre havia um funcionário por perto e era quase impossível ter uma intimidade, tão apreciada pelos colecionadores, com aqueles artefatos que chegavam a despertar devoção. A maioria dos admiradores dessa forma de reprodução musical, que por ser analógica e bastante artesanal na sua confecção garante aquela fidelidade ao som tanto aclamada pelos defensores do bolachão, gosta de “sentir” a música por todos os poros do corpo e com todos os sentidos. Ainda se fosse possível o sexto sentido deveria ser usado para captar a música. Na Duque Discos era possível fugir dessa perseguição ao comprar um disco, raramente Duque ou Eduardo se aproximavam de um cliente enquanto ele estava olhando um disco. Nas poucas vezes que faziam isso era para lançar alguma curiosidade sobre o disco que tinha em mãos.

Ali naquele salão ornamentado por imagens de deuses da música e rodeado pelas suas criações, qualquer pessoa se sentia um pouco deslocada do mundo que corria lá fora. Sempre tinha uma música tocando no ambiente, como uma espécie de éter, ela inebriava os visitantes e acalmava os ânimos. Foi nessa situação que Eduardo se encontrou quando voltou à loja para começar mais um dia de trabalho. A música já não era o entorpecente que o atingia. Na verdade ele nem sequer ouvia a música nos dois ou três segundos em que ficou estagnado e depois que voltou a si não prestou mais atenção no som que rolava pelo ambiente. Acordou de sua viagem com a voz de Duque que o anunciava com entusiasmo. Caminhou em direção aos dois e sem saber se cumprimentava Isabella com um aperto de mão ou com um leve beijo no rosto ficou parado e levantou a mão fazendo um aceno, como se estivesse respondendo a chamada para o professor.

– Bom dia. Para Michelangelo ainda falta nascer de novo umas três vezes. E mesmo assim não chegaria perto nem de misturar a tinta como ele. Mas enquanto assinar como Eduardo ainda posso fazer alguma coisa interessante. Caso você queira ser minha modelo, daria uma ótima Monalisa e com um sorriso muito melhor. Isabella sorriu graciosamente e agradeceu o elogio.

– Meu nome na verdade é Eduardo, talvez eu adote Michelangelo como nome artístico. Brincou novamente. – Mas então, qual seu nome e o que te trouxe até uma loja normalmente muito antiquada para pessoas tão jovens quanto você? Eduardo ia citar também a beleza de Isabella, mas achou melhor ser um pouco mais resguardado no começo.

– Nem pareço tão jovem assim e se pareço não sou. Acho até que temos a mesma idade, só a maquiagem que ajuda um pouco.

– Eu como pintor posso detectar uma falsificação com muita facilidade e vejo no seu rosto que não existe nenhum detalhe que demonstre uma tentativa de manipular sua idade. Acho que somos da mesma idade, eu tenho vinte e cinco anos e já aprendi a identificar uma mulher com maquiagem. Sabe que você está de parabéns por ter um rosto tão belo sem precisar aderir a esses truques cosmetológicos. Eduardo havia percebido a ironia na frase da mulher e resolveu entrar na brincadeira, aproveitando para emendar um elogio estético.

Nesse momento Duque já se sentia fora da conversa e começava a perceber a afinidade que havia entre os dois jovens. Realmente para ele aquela moça não passava de uma mulher bonita e talvez um objeto de desejo, mas jamais poderia ser mais uma consorte em sua vida no sentido cru da palavra. Por mais que despertasse um desejo sexual ou até mesmo uma paixão incandescente queimando seu peito, ele sabia que sua vida e talvez sua idade eram obstáculos enormes para mulheres como Isabella e que ele devesse talvez procurar por outras mais maduras e nem tanto atraentes como ela. Sabia que existiam inúmeras mulheres da sua faixa etária que podiam ser mais interessantes que muitas moças a que estava acostumado ver Eduardo flertando vez ou outra. Era questão de ir aos lugares certos e encontrar uma receita mais adequada de conquista, já que muitas delas estão acostumadas a ter relacionamentos desagradáveis. Nesses casos é preciso mostrar mais o lado responsável para conquistá-las e depois deixar-se guiar pelo faro sexual. Tinha invariavelmente casos curtos com mulheres que conhecia nos bares que freqüentava, era um boêmio por assim dizer, só não conseguira ainda encontrar a mulher que o fizesse desligar da realidade fora do ato sexual, que o tivesse feito viajar por alguns instantes para fora daquela loja quando lembrava do seu jeito de falar ou que o tivesse feito acreditar na sua filosofia de vida, coisa que toda mulher tem.

Costumava fazer essas pequenas considerações em questão de segundos durante uma conversa ou enquanto observava algo. Ao perceber essa última conclusão sobre ele e Isabella mesmo tendo a conhecido a menos de cinco minutos atrás, decidiu que não tentaria discutir com sua intuição e saiu da loja pedindo licença e dizendo que iria ligar para um amigo que tinha um disco procurado por um dos clientes.

– Preciso entrar em contato com uns amigos. Ultimamente os discos estão sumindo, está cada vez mais difícil encontrar até mesmo alguns clássicos. Vou fazer umas ligações, fiquem à vontade. Duque saiu pela porta no fundo da loja deixando Eduardo e Isabella conversando.

Eduardo não sabia bem o que falar, só tinha respondido às brincadeiras de Duque e agora tinha que fazer surgir espontaneamente idéias da sua cabeça para manter o clima bom que estava rondando a loja. Pensou em comentar sobre o disco que estava tocando ou perguntar que tipo de música ela procurava, mas nada saiu da sua boca e o silêncio só foi quebrado pela voz de Isabella… quebrando o silêncio, mas não o encanto que Eduardo sentia cada vez mais.

– Eu preciso ir andando, já me atrasei um pouco. Se eu acelerar o passo ainda consigo chegar a tempo. Amanhã eu passo aqui logo cedo, se a loja estiver aberta né.

– Ah, com certeza. Vou conversar com o Duque para ver como a gente vai funcionar amanhã.

Isabella caminhou até a porta, seguida por Eduardo, e despediu-se dele com um beijo no rosto. Um sorriso se abriu e Eduardo ficou uns cinco minutos admirando Isabella enquanto sua silhueta sumia rua acima.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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