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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte VII: Razão áurea

Eduardo estava de costas para a porta da loja, enfileirando e reorganizando alguns discos. Todos os dias antes de fechar a loja ele e Duque aproveitavam a queda no movimento para colocar os discos de volta às suas prateleiras. No começo Duque ficava injuriado ao ver tamanha desorganização que as pessoas tinham, e quando um cliente saía ele ia até o balcão onde o freguês, que nem sempre levava algo, tinha olhado alguns discos e colocava todos na mesma ordem em que estavam enquanto resmungava pequenas ofensas para si mesmo. Não suportava saber que um disco estava fora do lugar, ou que alguém tivesse deixado alguma capa de cabeça para baixo. Queria ouvir um pedido e poder dar as coordenadas exatas de onde estava o disco escolhido, como se fosse um sábio que tivesse o dom de com um simples fechar de olhos visualizar a saída ou encontrar a resposta para um problema. E detestava quando qualquer ser espalhafatoso retirava essa sua graça quase divina.

Duque colocava um disco na vitrola quando a mulher adentrou na loja e ao virar-se deparou com aquela forma levemente agridoce da silhueta contornada pela luz que entrava pela janela. Olhou atentamente cada ponto bem dimensionado que compunha todo aquele fausto feminino. Era uma mulher alta, mais alta do que ele próprio. Seu corpo era ligeiramente delgado, possuía uma uniformidade viçosa, de onde não se podia realçar uma única parte sobreposta às demais. O cabelo liso vertia leve de sua cabeça caindo sobre os ombros, que pareciam não fazer esforço para sustentar os longos braços, e quando jogado para frente sobre o busto, deitava-se sobre os seios cobrindo-os até a metade, demonstrando um corte propositado e por estar bem aparado uma constante preocupação em mantê-los no comprimento ideal. Os seios como se tivessem sido manipulados delicadamente, eram de tamanho médio e bem dispostos sobre o peito. Não sobressaíam num possível encontro frontal como aquele que Duque estava tendo e permitiam que todo o resto do corpo fosse admirado ao mesmo tempo. O ventre era um pouco alongado e a cintura acentuada sem destoar do resto do tronco. O quadril era fino e as nádegas brandas e firmes protuberâncias que mantinham uma relação de tamanho com os seios, delineando um perfil praticamente liso, com suas curvas bastante adequadas. As pernas eram finas e bem torneadas, sem excessos e com um ar adolescente, despertando uma expectativa de que ainda fossem se desenvolver. Os pés e as mãos eram simples ornamentos diante de todo o deslumbre que aquela mulher causava, mas não eram menos delicados e chamativos. Caso fosse possível separar os membros do seu corpo como elementos matemáticos, e reuni-los numa equação, haveria uma grande chance de se encontrar a razão áurea ou uma semelhança com o homem vitruviano. Tamanha beleza estava aprisionada em um vestido azul de largas alças nos ombros que sustentava o tecido perfeitamente liso, sem dobra alguma, como se uma faixa tivesse sido enrolada àquele corpo e moldada de acordo com cada saliência ou reentrância. O vestido contornava o corpo da mulher desde um pouco abaixo das axilas – sem deixar parte alguma dos seios à mostra – e seguia delineadamente até um pouco abaixo dos joelhos, onde era mais folgado para permitir uma liberdade de movimentos.

Tudo isso foi a conclusão, um tanto ultra-romântica, que Duque tirou de uma tacada só nos poucos segundos que teve para admirá-la sem passar uma impressão pejorativa. Após perceber que poderia ser mal interpretado fez uma cara de surpresa e interrogação, passando assim a ser a vítima daquela situação. A mulher ao ver que ele estava estático aproximou-se do balcão, e quebrou com sua voz suave e imponente que carregava junto uma atitude preponderante, uma camada imaginária que havia paralisado Duque:

– Bom dia! O senhor, se assim devo chamá-lo, é o dono dessa loja?

– Sim, – disse Duque enquanto fechava uma gaveta e estendia o braço para abaixar o volume do rádio que já liberava os primeiros ruídos característico dos velhos vinis – sou eu mesmo. Mas senhor já é me dar muita experiência. A maioria do que está aqui nessa loja é mais velho que eu, eu acho que isso deixa o ar meio pesado.

– Ah, me desculpe. Eu só quis ser educada, mas reparando bem essa pintura dá um ar juvenil ao ambiente, embora, retrate tantos mestres do passado que na maioria já estariam completando um século de vida.

– Então a senhorita, se assim posso chamá-la, conhece esses rostos que estão aqui? Sabe que a maioria das pessoas acaba me perguntando quem são eles. Difícil encontrar alguém tão jovem que saiba sequer o que é um trompete.

– Com certeza, por mais que pareça, a idade não representa o conhecimento que eu tenho de música. Sabe que na primeira vez que eu passei por aqui, há alguns dias, eu senti uma aura interessante só de olhar pra loja. Não sei se foi o nome que é bastante impactante ou se foi porque já faz um bom tempo que eu procuro uma boa loja de discos. Por falar em nome, você é o Duque?

– Isso, na verdade é um apelido de juventude. Todo mundo já teve um. Duque terminou a frase com um sorriso de canto de boca e um olhar de recordação. Lembrou-se por um momento dos amigos que haviam começado a chamá-lo de Duque na época da faculdade. Vez ou outra tinha a oportunidade de encontrar com alguns e ver como sua vida havia destoado de tudo que era esperado para seu futuro.

– Bom, eu sou Isabella. Faz uns dois meses que eu comecei a trabalhar na região e costumo passar nesse horário, hoje fiquei meio surpresa quando vi a loja aberta. Vocês têm alguma programação especial ou mudaram mesmo de horário? Ela conversava sempre com um sorriso verdadeiro no rosto, era uma pessoa que fazia amizades rapidamente.

– Não, na verdade não sei se você percebeu, mas ontem a gente tinha fechado durante à tarde, aí resolvemos abrir mais cedo hoje pra tentar recuperar algumas vendas. Pelo jeito foi uma decisão muito boa. Talvez a gente resolva manter esse novo horário de acordo com o que acontecer hoje.

– Tomara que sim. Eu não percebi a loja fechada porque sempre passo no horário que vocês já tinham fechado. Meus turnos são meio estendidos às vezes e dificilmente consigo controlar o tempo que trabalho. Mas você falou “a gente”, sempre usando o plural, só que eu não vejo mais ninguém, será que tem alguém que perdeu a hora? Isabella continuava sorrindo a cada frase. Possuía uma naturalidade infantil no seu jeito de falar e um carisma enorme que deixava qualquer pessoa à vontade durante uma conversa. Duque inclusive começou a imaginar qual seria sua profissão, provavelmente psicóloga.

– Somos mais de um sim. Embora não pareça, é difícil cuidar disso tudo sozinho. Tenho um ajudante, na verdade um amigo que trabalha comigo. Inclusive ele foi o autor desses desenhos. E pelo que eu percebi você vai gostar de conhecer, já que ficou admirada com as pinturas.

– Claro, adoraria conhecê-lo. Será que ele está por aqui? A nossa conversa acabou tirando o tempo que iria usar pra procurar alguns discos, mas foi proveitosa e agora vou precisar voltar outro dia para fazer umas compras.

Quando Duque ia responder, Eduardo entrou na loja pela porta dos fundos carregando alguns pedaços de pano e um recipiente pra borrifar água em plantas que ele usava para limpar os discos. Estava bastante animado cantando uma música irreconhecível para outra pessoa. Quando viu Duque conversando procurou a dona daquela voz e parou abruptamente, fixou o olhar em Isabella e deixou seus olhos seguirem o caminho que aquele rio de formosura indicava. Só acordou quando Duque o apresentou para Isabella.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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