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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte VI: A PRISÃO


A noite chegava e Eduardo prosseguia relatando sua trajetória desde seu amor pela Claudia até seu período na prisão. Continuava agora o diálogo que teve com seu padrinho na prisão.

– Se você não queria matar esse homem por que atirou então?

– Quem disse que eu não queria matá-lo? Ele havia matado um dos meus melhores amigos de uma forma traiçoeira, merecia uma punição. Eduardo imitava a voz e a pose do homem enquanto repetia o que tinha se passado no primeiro encontro entre os dois.

– Mas você disse que se arrepende de ter sucumbido a um impulso e por não ter conseguido controlá-lo. Como agora diz que queria matar o homem?

– Eu queria matá-lo. Mas somente hoje eu consigo ver que aquela luta era mais entre os nossos grupos, para podermos contar histórias no futuro. Essas lutas não interferiam no andamento do país e mesmo que pareçam heróicas, serviam apenas como um jogo de caça ao inimigo. O que importava mesmo era a manifestação popular, cem mil no rio de Janeiro, outros milhares na Praça da Sé em São Paulo, um apertãozinho dos Estados Unidos. Grande parte dos que lutaram ao meu lado estão na direita hoje e se formaram no Mackenzie, o quartel da juventude burguesa na época. Meu arrependimento é de ter confiado em outras pessoas e dedicado minha vida a isso. Embora a única coisa que eu lamente é ter perdido dezenas de anos aqui. Arrependimento é coisa que carregamos até se lembrar da diversão que tivemos. Alguém se arrepende de Woodstock não ter dado certo? O que valeu foram os quatro dias de orgia no meio da lama. E os shows inesquecíveis, claro.

– Então você acha que foi tudo algo normal. O que tinha de ser naquela hora.

– Óbvio que sim. Só lamento as vidas destruídas. Se eu soubesse que meus amigos me abandonariam quando a polícia batesse na minha porta e que eu seria o único a negar todos os nomes enquanto era afogado e queimado num quarto escuro, por um homem que não tinha capacidade pra fazer nem sua própria barba, eu teria sentado em frente a televisão e pintado minha cara numa das passeatas pelas diretas. Mas jamais teria matado um homem.

– Me desculpe, mas eu fico até mesmo assustado pela naturalidade com que você encara todo seu passado. Não consigo nem me convencer de que fiz o certo, e sua história é muito mais grave que a minha.

– Rapaz, aproveite sua vida. Você só deveria chorar se ao invés de dar um susto numa traidora, você tivesse se jogado de um prédio por não agüentar uma traição. As mulheres fazem tudo para saber que um homem está sofrendo por elas. É como um troféu, um atestado de pureza. Você se saiu bem, por isso eu estou oferecendo meu apoio pra você sair por cima. Sabe que eu vi sua pasta e gostei dos seus desenhos. Já assegurei que ela estará intacta quando você sair daqui. Eu quando entrei aqui era o único que podia distinguir um Monet de um Picasso, e talvez o único que soubesse o que eles fizeram. Desde então tenho me dedicado a ser uma espécie de mecenas aqui dentro, defendendo os artistas que caem nessas celas. Já protegi músicos, pintores, arquitetos e muito mais. Se você olhar minha cela, vai perceber que tenho algumas peças como ornamento. São presentes que muitas vezes custam caro para entrar aqui, mas são mandadas por ex-presidiários que ficaram sobre minha tutela. E você é um deles.

Eduardo pegou a pasta que Duque mantinha aberta entre os braços e sem virá-la para si abriu em um plástico vazio. O seu novo mecenas não havia percebido a falta de um desenho, na verdade sua delicadeza estava toda focalizada no seu ouvido aguçado que podia detectar erros de reprodução nos artistas que costumava assistir interpretando seus músicos favoritos em bares pelas noites da cidade, mas não em um simples saco plástico que passou desapercebido quando ele folheou os desenhos. Na verdade ele era tão crítico com músicos novos que costumava dizer que eles não eram capazes de interpretar um grande músico do passado e somente podiam reproduzi-lo. Não via irreverência suficiente para superar aquela perseguição pela competência. Defendia que as bandas que faziam covers durante as noites só buscavam copiar o artista e nunca entender a explanação que estava depositada naquele conjunto de notas. Eram como a maioria das pessoas, que passavam a vida buscando conquistas e jamais paravam para desfrutar os louros da vitória. Quantas pessoas conhecia que haviam estudado para ter independência, depois conquistavam a independência e tentavam formar uma família sólida. Formavam família e padeciam pelos filhos. Criavam os filhos e pelejavam por uma velhice saudável. Ficavam velhos e temiam a morte. Morriam sem celebrar uma única vez tudo que haviam edificado durante todo esse tempo.

Já com ele era diferente, buscava sempre a satisfação. Podia abandonar um show pela metade, um namoro no primeiro beijo, uma festa no primeiro drink se não sentisse confiança no que estava fazendo. Olhava para seus discos e sabia que estava fazendo a coisa certa. Todas as vezes que vendia um disco, buscava no comprador um sentimento que o fizesse ser digno daquela obra. Já tinha chegado ao ponto de negar vendas a clientes por imaginar o descaso que teriam com os discos. Em tese se denominava um maluco, mas um perseguidor do sentimento mais nobre e íntimo que uma pessoa poderia ter e que todas estavam escondendo para sobreviver, o amor. Afirmava ter um espírito canino dentro de si. Podia passar por todas as angústias ou descasos sem demonstrar insatisfação, desde que conseguisse visualizar a felicidade no fim de todo o processo. Era um ultra-romântico no ápice.

Eduardo permaneceu alguns instantes naquela análise sobre a personalidade do Duque. Só retomou ao ponto que havia parado quando percebeu o tamanho da dignidade que aquele homem carregava, lembrando seu velho defensor na prisão, e que havia deixado sua história pelo meio.

– Então esse home te protegeu durante os anos que você ficou preso. Duque quebrou de vez o momento de introspecção de Eduardo. Queria saber logo como ele tinha ido parar na sua loja. Não suportava as brechas no passado, queria logo chegar ao presente e poder tocar a vida pra frente.

– Sim. Respondeu Eduardo. – Ele fez de tudo para eu sair de lá sem mudar meu caráter e esse desenho que falta eu mandei para ele. Usei minhas economias de uma semana de trabalho para subornar um dos agentes que me prometeu entregá-lo em mãos como fazia há alguns anos. Era um desenho representando a deusa Palas Atena, deusa das artes, da sabedoria e da guerra. Que tinha surgido de uma dor de cabeça de Zeus. Achei que ele entenderia o simbolismo. Com o resto do dinheiro que eu tinha juntado durante mais ou menos um mês eu entrei na sua loja para comprar um disco. O resto da história acho que a gente já sabe.

– Só falta você me contar o que significa essa tatuagem. Durval olhou para a mão de Eduardo e em seguida olhou para o relógio. Já estava cansado e pretendia abrir a loja um pouco mais cedo no outro dia.

– Quando eu estava na cadeia procurava não me envolver com presos. Todos sabiam que eu estava lá por um pequeno erro e que não tinha interesse no mundo do crime. Como todos têm uma tatuagem eu fiz essa medalha de São Lucas, por ser considerado o padroeiro dos pintores e artistas, talvez o primeiro a retratar a Virgem Maria. E que acompanhou o apóstolo Paulo, um dos apelidos do homem que me protegeu na prisão era apóstolo.

Durval se sentiu satisfeito com aquela resposta e sugeriu que era hora de ir descansar. Disse que abriria a loja uma hora mais cedo e ficou de acordar Eduardo. No dia seguinte quando Duque acordou Eduardo já estava esperando dentro da loja. Havia preparado o sagrado café e estava organizando os balcões. Logo após Duque levantar as portas de aço e abrir a porta de vidro que dava acesso à loja, já havia a primeira pessoa a desfrutar daquela antecipação no expediente. Era uma bela mulher que passava todos os dias antes da loja abrir e havia ficado curiosa com os comentários sobre a Duque Discos. Mas quem mais se impressionou foi Eduardo com a beleza daquela mulher.

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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