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Trote universitário

Professores, dirigentes e alunos indicam diferentes saídas para trotes violentos

Por Rafael Carneiro da Cunha

 

“Veterano é expulso após aplicar trote no sul de Minas”. “Ministério Público vai apurar trote violento em Barretos”. “MPF investiga veteranos e universidade por trote em Mogi das Cruzes”. Em todo início de período letivo as manchetes sobre casos de violência na recepção de calouros nas instituições brasileiras de ensino superior repetem-se. Apesar de concordarem que a violência deve ser combatida de alguma forma, calouros, veteranos, dirigentes e professores estão distantes de um consenso.

Para o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), Oriowaldo Queda, autor do livro “Universidade Preconceitos e Trote”, o trote deve deixar de existir. Para ele, defender a prática do trote como um rito de passagem faz com que se mantenha uma tradição violenta. O primeiro caso registrado no país data de 1831, em uma escola de direito de Recife (PE).

Segundo Queda, ao ingressar no ensino superior, o aluno deve ter consciência de seu papel na sociedade, responsabilidade não compatível com a prática dos trotes, que pouco contribui para a formação de um futuro profissional ou pesquisador socialmente responsável. Para ajudar nesse entendimento, as instituições deveriam promover palestras e atividades com psicólogos e sociólogos. Hoje, 14% da população entre 18 e 24 anos está no ensino superior.

Para a psicóloga da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-SP) Neuzi Barbarini, o vestibular caracteriza-se muito mais como um rito de passagem do que a recepção dos calouros. “O vestibular, mesmo sendo uma forma injusta de se avaliar, requer uma preparação do aluno para entrar na universidade e principalmente na vida adulta”, explica.

Mesmo assim, Neuzi entende a necessidade de um evento de integração. “Gosto da ideia da festa, pois é muito importante o exercício da convivência. As escolas têm que fazer um trabalho para desvincular a festa da balbúrdia”, diz.

O pró-reitor de cultura e relações comunitárias da PUC-SP, Hélio Deliberador, também acredita que palestras com especialistas podem ajudar na solução do problema, mas defende que é importante a manifestação do jovem, mas sem violência.

Trote solidário

O trote solidário ou cidadão é apontado por muitas instituições como a solução para diminuir ou até acabar com a violência na recepção dos novos alunos. Doação de sangue, plantio de árvores e arrecadação de alimentos são alguns exemplos das atividades desenvolvidas.

Para Queda, não há vantagem nesse tipo de iniciativa. “Em muitos lugares, os alunos desenvolvem tarefas que duram uma semana. Depois a maioria deles não continua praticando os atos solidários. De que adianta?”, questiona.

Enquanto isso, Deliberador defende a prática, pois os estudantes começam a praticar atividades de cunho cidadão, mesmo que não imediatamente. “Percebemos um excelente resultado, que pode se verificar também no grande envolvimento dos novos alunos”, diz.

“Não posso dizer que o trote solidário foi chato, mas não correspondeu às minhas expectativas. Preferia ter ido ao trote de rua”, diz a aluna do primeiro ano de jornalismo da PUC-SP, Marianna Costa.

De acordo com a psicóloga e professora da PUC-PR Neuzi Barbarini, os alunos consideram o trote solidário apenas como algo a mais. “Sei do caso de uma aluna daqui da universidade que convidou na primeira semana todos os calouros para o trote solidário e depois de alguns dias convidou-os para o tradicional”, lembra.

O estudante do sexto ano de engenharia elétrica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Guilherme Soares se diz a favor dos trotes solidários devido à integração promovida, porém acredita que nas repúblicas ele não deve ser exercido. “Fui recebido pelos moradores com um churrasco, fiz pedágio e arrecadei muita grana. Nos anos seguintes quando chegaram os novos moradores fizemos o mesmo, sem violência”, lembra.

Também no Congresso a questão está em debate. Tramitam três projetos de lei que tipificam como crime o trote estudantil (PLC 09/09, PLSs 404/08 e 104/09).

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