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Cultura

A casa na colina

Lar do poeta Guilherme de Almeida abre-se a um pedaço da história da poesia e do Brasil

Por Érica Perazza e Thaís Teles

 

Sigmund Freud teve sua casa, onde  morou até sua morte, transformada em museu. É possível visitar em Hampstead, em Londres no Reino Unido, por apenas £6.  A casa de Sherlock Holmes, também aberta a visitação na cidade, ocupa o famoso endereço de 221b nas Baker Street dos livros de Sir Arthur Conan Doyle.Valorizadas por milhares de turistas e admiradores, as casas-museu contam um pouco (ou muito) das história da personalidade de seus donos e de sua época. No Brasil, onde existem pouquissímos museus e programas culturais em comparação à Europa, pode se encontrar uma joia rara, um verdadeiro achado e muito precioso. Nos arredores do bairro de Perdizes, encontra-se a Casa Museu Guilherme de Almeida. A Revista Pandora foi lá conferir uma lasquinha da história da literatura brasileira.

“A casa na colina é clara e nova. A estrada sobe, pára, olha um instante e desce”, descreveu certa vez Guilherme de Almeida,  que foi advogado, jornalista, crítico de cinema, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Ele ainda foi nomeado Príncipe dos Poetas pelo jornal O Correio da Manhã e desenhou o brazão de Brasília.

 

Pioneiro da crítica cinematográfica no Brasil, começou a escrever no final dos anos 20 uma coluna no Estadão sobre cinema, chamada Cinematódromo, na qual comentava os filmes que foram lançados, a vida dos artistas, um misto de coluna social com crítica cinematográfica. “Ele inclusive se correspondia com os hollywoodianos como Marinet que é o grande pai do futurismo, Charles Chaplin, Walt Disney”, conta Donny Correia, coordenador cultural da Casa Guilherme de Almeida. “Temos uma vasta quantidade de revistas datadas da década de 20 que ele recebia ou deveria assinar, ou seja, essas são singelas manifestações que demonstram a preocupação do Guilherme em estar constantemente atualizado com o que acontecia nesse mundo”.

Sua casa, localizada no número 187 da Macapá, rua traquila e residencial, travessa da Cardoso de Almeida, permanece da mesma forma como o poeta deixou desde a disposição dos móveis e ao seu acervo. Toda decoração da casa é composta por uma riqueza de detalhes que vão desde quadros feitos por amigos do casal até objetos utilizados por Guilherme em momentos de inspiração.

O local passou a ser negociado como museu em 1979 e a partir de aproximadamente 83 ou 84,  começou a funcionar como museu-casa. Existem uma série de melhorias que precisam ser feitas, inclusive para contribuir na questão da conservação. 

Entre as diversas dificuldades enfrentadas pelos responsáveis da Casa Guilherme de Almeida, Donny acredita que o principal desafio é “mostrar às pessoas interessadas em literatura ou qualquer pessoa interessada em conhecer de verdade nossa cultura, quem foi de fato Guilherme de Almeida. Queremos tirar essa imagem retrógrada e conservadora que parou no tempo de um romantismo tardio e que marcou a obra dele, mostrar ainda que muito do que foi produzido depois de sua morte, em termos de literatura, de arte, de crônicas, de  jornalismo, etc., teve no Guilherme de Almeida um primeiro movimento, uma primeira motivação, e essa é a grande missão no momento”.

Antes da casa ser reaberta ao público, o espaço requer uma política de segurança para assegurar a integridade das obras, logo, quando o espaço for reaberto, os grupos de visitas terão que serem formados por um número reduzido de pessoas. “Quando a casa estiver aberta, a idéia é que todo o material criado pelo Gulherme fique disponível para pesquisadores e demais interessados em conhecer ainda mais o trabalho dele ou que sirva como forma de pesquisa para que as pessoas cheguem a outros autores que o Guilherme tenha tido algum tipo de contato, como tradutor ou estudioso”, adiciona o coordenador.

A casa é um recanto de memórias e ricas memórias do Brasil. Nas paredes da sala de visitas uma grande quantidade de quadros detalham aquele ambiente que durante muitos anos foi ponto de encontro entre diversos artistas consagrados, como Tarsila do Amaral. “A sensação de entrar em um museu casa e poder ver como era o quarto, o local onde as obras eram desenvolvidas dá ao visitante um aspecto de maior intimidade com o escritor que tanto admira”, diz Donny. Além da presença de diversos objetos utilizados por Guilherme de Almeida em seu cotidiano, a proposta do museu é totalmente inovadora na cidade de São Paulo, uma vez que não há na cidade um museu-casa, ou seja, o espaço onde o artista ou personalidade morou.

No andar superior, há desenhos originais de Paim, Di Cavalcanti,  Biaggio Mazzeo. Guilherme usava para ilustração e acabou ficando com os originais, como por exemplo a capa do livro Raça, de 1925. “Ele mandava enquadrar o desenho original e o usava como capa também, geralmente mudava as cores, mas mantinha o desenho original”, conta Donny.

Vários objetos eram utilizados no seu dia-dia, como uma máquina Hamilton; estátuas do Brecheret, chamada Solon Dolorosa, baseada em um dos personagens de um dos seus livros. Entre outros pertences que marcam sua história, foi guardado um fuzil utilizado por ele durante a Revolução de 1932 e um cinzeiro, que Almeida fez a partir de uma granada utilizada durante o movimento. Ainda no segundo andar, Guilhermede Almeida possuía um escritório literário, onde recebia os amigos, jovens poetas, membros da Academia Paulista de Letras. Encostada de um lado, está a escrivaninha do pai do poeta, que possivelmente tem mais de cem anos. Num outro canto, o poeta mantinha uma espécie de interfone para se comunicar com o andar de baixo. Além disso,  ele instalou um gabinete  para que ele não precisasse descer para lavar as mãos.

Representante do Modernismo, grande parte da diagramação da revista Klaxon, foi feita por ele através de ele “um design muito moderno para época, como os números um e a letra ‘A’ que até hoje são modernos nos nossos dias”, observa Donny. “Na década de 20 era uma coisa imensa para uma publicação. Há coisas no Guilherme de Almeida que são pequenas sementes do que viria a ser o concretismo quase 30 anos depois. Ele estava muito a frente do seu tempo”.

Revigorar a memória de um autor e torná-la eterna não é tarefa fácil. Marcelo Tápia, diretor da Casa Guilherme de Almeida afirma que se sente com uma grande responsabilidade, uma vez que “o interesse pelo estudo e redescoberta da obra do Guilherme, andam esquecidas em decorrência de fatores extra-literários, existem alguns preconceitos, por exemplo, por causa da vinculação dele à Revolução Constitucionalista de 1932, alguma idéia de que ele seria mais conservador do que na verdade foi. Mas tudo isso torna-se detalhe quando analisamos sua obra, que é importantíssima dentro do Modernismo que precisam ser redescobertos. Nossa idéia é promover essa revitalização do interesse na obra dele por meio de cursos e de palestra, que já temos feito em outro local enquanto aqui está em preparação para ser reaberta – os cursos foram realizados na Casa das Rosas, que pertence à mesma Organização Social – e por meio desse centro de estudos que estamos fazendo, além da reabertura da visitação. Além disso, queremos divulgar a Casa para desenvolvimento de pesquisas acadêmicas e para pessoas que estão trabalhando com dissertação de teses. Lembrando que nosso acervo está sendo recatalogado e que muitas coisas estarão disponíveis para consulta na internet. Essa é a tarefa. Então eu me sinto com grande responsabilidade para reestimular não só o conhecimento pela obra do Guilherme, como pelo acervo do museu”.

A abertura do museu coincide com o lançamento do último livro do poeta, “Margem”, que, de acordo com Tápia, “é composto de poemas muito concisos ao mesmo tempo que dialoga com a vanguarda da década de 60”. Coincidência ou não, o último poema do livro foi escrito dois meses antes da morte do autor e batizado pelo próprio próprio como “Ponto Final”. E assim, buscando a concisão em seus poemas, Guilherme encerrou sua obra e em poucos dias sua vida chegaria ao fim.

A partir de abril os amantes da literatura nacional poderão conferir a rica e enigmática obra de Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, que teve parte de sua honra e memória apagadas pelo tempo.

 

Casa Guilherme de Almeida

Reabertura em abril
Rua Macapá,187  – São Paulo, SP |
Veja Mapa | Como chegar
(11) 3673-1883
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Categorias: Especial, Literatura, São Paulo

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