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Sabático

Por José Salvador Faro

Termino a leitura do Sabático, o suplemento que o Estadão lançou hoje em meio a um fim de semana de estreia de várias reformulações do jornal. O novo caderno me anima a acreditar que o investimento no Jornalismo Cultural, vindo de um veículo que tem forte tradição no gênero, representa avanços de diversas ordens e inevitavelmente vai contribuir para que a cobertura da área ganhe em qualidade. No caso do Sabático – cuja intenção de resgatar o saudoso Suplemento Literário é abertamente declarada pelos editores -, é ainda cedo para saber como ele vai dar conta de dois desafios que já me parecem presentes nesta 1a. edição.

O primeiro deles diz respeito à concepção do projeto gráfico do produto. Não sou especialista nisso (e certamente nada ali acontece de forma improvisada), mas percebo uma excessiva concessão feita aos recursos não-verbais em todas páginas do caderno; em contrapartida uma certa espremidez dos textos, com pequenas notas, citações, listas de mais vendidos etc. Imaginei que, para uma edição de lançamento, o caderno surgisse mais provocador e menos repetitivo daquilo que já existe na imprensa brasileira, e mais ousado em termos de volume verbal, sem medo de que isso possa afastar os leitores da leitura (um paradoxo que mais me parece uma lenda), ou a revista piauí não teria se transformado no sucesso em que se transformou.

O segundo desafio remete à pauta. Também imaginei que nesta edição inaugural iria me deparar com alguma coisa relativa ao espírito do suplemento, isto é, a Literatura. Alguma coisa que falasse ao leitor sobre sua importância como forma de conhecimento do mundo, de contestação do mundo, de reprodução do mundo. Isso, claro, não quer dizer que a entrevista com Umberto Eco não esbarre nessas questões, mas o foco principal da matéria com o professor de Bologna – o suposto desaparecimento do livro enquanto suporte cultural – me pareceu requentado, até porque outros suplementos culturais já publicaram artigos do entrevistado sobre o mesmo assunto. E o restante da entrevista fica muito no plano geral das curiosidades e pouco no plano conceitual, onde me parece que a presença de Eco ancoraria mais fortemente a destinação pública do Sabático.

Tenho estudado o Jornalismo Cultural nos últimos 6 ou 7 anos em razão das atividades de pesquisa que desenvolvo na pós-graduação da Umesp. São muitas as conclusões a que tenho chegado, juntamente com meus orientandos que optaram por desenvolver projetos nessa área, mas algumas me parecem consolidadas. A principal delas: a demanda intelectual socialmente legitimada em suas várias instituições é também a força do gênero. É aí que os cadernos, seções, suplementos e veículos especializados no Jornalismo Cultural devem buscar o núcleo fundamental do que produzem – na forma e no conteúdo. Torço para que o Sabático não descuide disso…

 

Quer ler mais sobre história, cultura e comunicação? Acesse www.jsfaro.net

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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