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Mestre Jonas

Lucas Marcelino

Parte V: CRIME

– Eu não tinha como reagir e nem deveria. Na verdade eu os havia atraído. Quando cheguei na casa da Claudia mesmo com a chave eu fiz questão de pular o portão, uma vizinha deve ter visto e fez o telefonema quando ela chegou. Com a minha resposta ela deve ter ficado assustada e resolveu chamar a polícia.

-Então o que você fez quando estava cercado? Duque já sentia certo alívio por imaginar que ele não tivesse concluído o assassinato.

– Eu não tinha nada nas mãos então sentei e esperei que eles me prendessem. Fui levado para a delegacia e de lá para um centro de detenção, por tentativa de homicídio.

– Mas você não chegou a agredir a moça então?

– Jamais. Eu sabia que no fundo não teria coragem de fazer alguém sofrer pelas minhas mãos. Sempre tentei retratar as imagens mais belas possíveis e não seria com sangue que eu sujaria toda minha história. Apenas dei um susto e arrumei uma forma de não vê-la por um tempo. E esses dois anos serviram para esquecer e dar a devida importância que ela merecia.

– E como você passou esse tempo preso? Não deve ser fácil conviver em um ambiente que não condiz com seu caráter. Você fazia o que enquanto esperava o tempo passar?

– Na verdade eu saí até rápido demais. Pensei que fosse pegar algumas décadas por ter sido atuado em flagrante, mas eu acabei não cometendo o homicídio e tive um álibi que eu não esperava.

– Qual? Duque não entendia muito do código penal e nunca passara perto de uma delegacia ao menos.

– Quando eu estava preso o julgamento ainda caminhava. Uma hora apareceu um advogado para me defender. Os advogados que eles cedem não conseguem muita coisa, geralmente não tem muito gabarito nem interesse em ganhar o caso.

– E quem foi que pagou esse advogado?

– Quando eu fui ao júri o advogado me defendeu dizendo que eu não havia cometido o crime, não estava armado na hora que os policiais chegaram e que estava sobre forte pressão emocional, o que ajuda a reduzir a pena. E na hora de ouvir as testemunhas a Claudia depôs em minha defesa. O próprio juiz ficou confuso quando ela disse que eu não era culpado e que ela havia provocado tudo ao ter me traído. Todos ficaram estarrecidos e eu mesmo fiquei muito surpreso. Depois descobri que ela havia bancado o advogado e todo o processo para me tirar da prisão. Não sei se foi por arrependimento.

– E você foi atrás dela quando saiu ou tentou encontrá-la em algum momento? Durval já passou a enxergar um pouco de beleza no caráter de Claudia. Embora nem a conhecesse e ela tivesse causado um atordoamento na vida daquele rapaz, conseguia ver uma tentativa de redenção. – Acho que ela demonstrou ter um lado bom e consciência dos seus erros.

– Nunca, se há remorso que eu guarde é com uma traição. Não pode haver confiança total com quem já falhou uma vez. Corrigir, não apaga o erro. Eu vou ter que carregar uma ficha suja pelo resto da minha vida. Eduardo mordeu o lábio superior e suspirou fundo, como se tivesse compreendido naquele momento o tamanho do problema que havia provocado por um impulso fútil.

– Bom, eu não concordo completamente, mas isso é problema seu. Só gostaria de saber como você passou esses dois anos. O que fazia pra passar o tempo?

Eduardo se levantou, foi até a loja e pegou embaixo do balcão principal, onde ficava o caixa, sua bolsa. Voltou para a cozinha e colocou a bolsa sobre a mesa. Abriu o zíper e tirou uma pasta com uma grande quantidade de desenhos dos quais a maior parte era de flores e datava da época em que ficou preso. Duque olhou os desenhos superficialmente e pode ver vasos com inúmeras flores de cinco pétalas pequenas e delicadas. Tinham cores como roxo e azul. Em outros pode ver plantas com poucos caules de onde saiam apenas uma flor, retratadas em várias cores, muito vibrantes e chamativas. Eduardo explicou que as primeiras eram representações de flores conhecidas como não-te-esqueças-de-mim e as outras eram ilustrações de amor-perfeito, as duas flores citadas na música.

– Quando eu caí na prisão, não tinha perspectiva de vida. Eduardo falava e andava pela cozinha, procurava algo pra comer, parecia perder as forças com aquela história. – Não podia chorar por que não há espaço pra lamentações na cadeia. Logo no primeiro dia um homem se apresentou dizendo que tinha conhecimento da minha história. Perguntei como e ele disse que se sentia como uma peça daquele xadrez, talvez fosse o bispo pelo tempo que já estava lá dentro e por isso tinha suas formas de conseguir informações, além de ser muito respeitado pelos outros presos e exercer influência, como uma forma de pajé.

Ele falou mais ou menos assim:

– Meu rapaz, eu fiquei sabendo que tudo que você fez foi num impulso da sua alma e eu admiro as pessoas que tem esse poder. Só pessoas assim podem fazer mudanças significativas no mundo ou no seu próprio universo. Eu estou aqui por impulso da minha alma também, a diferença é que eu não soube controlar o lado negativo e acabei cometendo uma desgraça.

– É. Respondi. Me faltou coragem pra ir até o final, mas mesmo assim já consegui uma péssima revolução no meu universo. Acho que criei um buraco negro que está devorando tudo à minha volta.

– Calma jovem, você já conseguiu encontrar um ótimo amigo. Ele falou isso enquanto estendia a mão que eu apertei com força e respeito, de alguma forma aquele senhor tinha uma aparência imponente, que lhe confiava um ar de experiência. Mesmo preso há anos não perdia sua feição de cavalheiro e intelectual. Então ele continuou: – Eu vim parar aqui por uma luta que levou muita gente para um lugar pior. E eu fui responsável por mandar uma pessoa junto com meus amigos para o cemitério. É meu único arrependimento não ter falhado ao impulso da minha alma. Destruí duas vidas, a dele e a minha, e não pude aproveitar o gosto da conquista que meus pares tiveram.

– Mas o que você fez, matou um homem? Por quê?

– Eu lutava contra a ditadura, fiz parte de vários grupos armados. E quando um dos nossos amigos foi morto numa emboscada, eu fui o escolhido para vingá-lo. Nosso grupo ia invadir a casa onde estava o assassino e eu deveria matá-lo. Quando entramos na casa, perto do centro de São Paulo, um reduto burguês da época, os outros companheiros foram para os quartos evitar que alguém pudesse atrapalhar nosso plano e eu fui em direção a uma biblioteca onde sabíamos que ele passava algumas horas durante a noite. Eu invadi a biblioteca de arma em punho e quando vi aquele homem se virar para mim debaixo de uma lâmpada fraca para o ambiente atirei uma vez e esperei ele se virar para terminar o serviço. Saí de lá e deixei-o agonizando sobre os livros que estavam na mesa. Encontrei com os outros e fomos embora para nossa “base”. No dia seguinte eu estava preso.

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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