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Alma Boa de Setsuan

Por Thaís Teles

Encontros, desencontros, risadas e reflexões. Todas essas sensações eram experimentadas pelo público ao longo do enredo da premiada peça “Alma Boa de Setsuan”, de Bertold Brecht, com direção de Marco Antônio Braz, em cartaz desde o dia 4 de agosto no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca). Ganhadora do Prêmio Shell/2008 na categoria de melhor direção, e do Prêmio APCA/2008, nas categorias de melhor espetáculo e melhor atriz, a peça mescla de maneira inteligente humor e qualidade.

Noite fria de domingo, muitas vidas sintonizavam os mesmos canais de televisão, outras tantas dormiam, enquanto outras perdiam-se pelas ruas paulistanas à procura de um programa cultural pelos diversos pontos da cidade. O Tuca foi o local escolhido por centenas dessas pessoas.

Cortinas abertas. No palco, vários atores se movimentavam e faziam gestos espontâneos, preparavam suas vozes, repassavam seus textos em voz baixa. Os bastidores tornavam-se parte do enredo da peça, preparavam as mentes dos espectadores para a história que logo mais seria encenada. Aos poucos os burburinhos e o som de pessoas se acomodando em suas poltronas foram diminuindo, as luzes da platéia foram apagadas e toda iluminação estava concentrada naqueles atores. Silêncio. Um homem surgiu pelos fundos do teatro trajando roupas exóticas e com uma pomba irreverente em seu ombro esquerdo, à medida que andava interagia com o público na tentativa de transportá-lo à província de Setsuan, localizada na China. Atrás dele vinha Denise Fraga, trajando um figurino ainda mais exótico, de cores pouco vivas e que contrastava com a maquiagem extremamente carregada e colorida. Subiu ao palco e juntou-se aos demais. As luzes foram apagadas, os atores sumiram na escuridão, uma música oriental tomou conta do teatro e o cenário se transformou. Tinha início mais uma noite de apresentação da peça “Alma Boa de Setsuan”, escrita em 1941, por Bertold Brecht. No enredo, Denise Fraga interpreta a prostituta Chen Tê, moradora da província de Setsuan que viu sua vida mudar após a chegada de Deus, representado pelo ator Ary França, e que concentrava em sua figura a Santíssima Trindade. Sua vinda à Terra a tinha como objetivo encontrar uma alma boa, caso sua busca falhasse acabaria com o mundo. Ao chegar à Setsuan deparou-se com uma quantidade enorme de pessoas que se diziam devotas e esperavam sua vinda, mas não foram capazes de lhe conceder um local para descansar. Somente Chen Tê se dispôs a dar-lhe um teto para dormir, sua generosidade lhe rendeu uma recompensa em dinheiro, o suficiente para comprar uma tabacaria e mudar de vida.

Dona de seu próprio negócio, os miseráveis da cidade começaram a abusar de sua bondade. Para se livrar dos importunos e exploradores, Chen Tê inventou a existência de um primo, Chui Ta, ela própria disfarçada. Segundo Denise Fraga, essa dualidade assumida pela ex-prostituta foi um dos maiores desafios que enfrentou ao longo da montagem: “Essa peça tem uma grande cilada para a atriz que faz esse papel principal, pois a Chen Tê não é atriz, logo, tive que me concentrar bastante e extrair da própria personagem esse lado masculino que culmina em seu primo. É um desafio intenso de busca que tenho que enfrentar e superar em todas as apresentações.”, afirmou.

Encontros, interesses, sentimentos e frustrações, o bem e o mal se entrelaçavam nas diversas situações vividas por Chen Tê. “Como ser bom e ao mesmo tempo sobreviver no mundo competitivo em que vivemos?”, esse foi um dos questionamentos levantados pela ex-prostituta ao longo da trama, porém, a resposta não foi dada, cada espectador era convidado a respondê-la mentalmente.

A presença de Chui Ta em Setsuan deu um novo ritmo à província, culminando no desaparecimento de Chen Tê, essa situação desencandeou uma busca intensa por aquela que fora eleita a alma boa da região. Vendo-se cada vez mais enclausurada em sua dualidade, Chen Tê continuou levando a farsa, porém, ao descobrir que estava grávida repensou sua condição ao projetar as possíveis conseqüências que aquelas atitudes poderiam trazer para seu filho. Sua dignidade foi mais forte que sua consciência e então Chen Tê deu fim à farsa e ao primo.

Questionada sobre a mensagem inserida na peça, a protagonista afirmou: “Não acho que a peça trate exatamente da impossibilidade da bondade, pois a própria palavra bondade já foi transfigurada pelos tempos que vivemos. Falar hoje que alguém é bom é quase falar que esse alguém é bobo. Acho que a peça fala claramente é da impossibilidade da disponibilidade, do coração aberto, da esperança. Vejo que um dos grandes segredos do sucesso da peça é esse assunto tão identificável. Por que gentileza não gera automaticamente gentileza? Por que às vezes a gente precisa se fazer tão duro para se fazer respeitar?”, disse Denise.

O cenário simples, prático e envolvente acompanhava os movimentos dos atores e formavam nessa riqueza de detalhes uma dança perfeita, capaz de envolver o público ao longo de toda trama e aflorar nas pessoas sorrisos e lágrimas. “A cenografia é um projeto lindo do Márcio Medina que transformou pequenos camarins no próprio cenário e quem manipula isso somos nós mesmos. Essa movimentação do próprio elenco fazer o teatro acontecer resulta numa concepção muito bonita. É uma coisa bem brechtniana o desvendar do fazer teatral para o público, ou seja, a máscara é retirada. Mostramos o que é o fazer teatral não só encenando, mas também movendo esses objetos, desvendamos nossos truques, mas nem por isso a máscara perde seu efeito”, disse Denise. Para a espectadora Camila Boscov a atuação dos atores nas mudanças cenográficas foi singular: “A peça superou minhas expectativas, pois além de dar uma mensagem reflexiva ao público, os atores em momento algum deixavam o palco e participavam das várias mudanças de cenário. É muito bom poder presenciar não somente a interpretação, mas o trabalho em equipe presente em todos os momentos da peça,” afirmou.

O desafio de representar Brecht de uma maneira bem humorada surgiu há mais de seis anos, quando o diretor Marco Antônio Braz, seu grupo, o Círculo de Comediantes, e Denise Fraga resolveram colocar o projeto em prática: “Foi muito difícil conseguir o patrocínio porque são onze atores em cena”, disse Denise. O problema foi resolvido a partir de uma parceria consolidada entre o Bradesco e a equipe. A partir de então, “Alma Boa de Setsuan” passou a viajar pelo Brasil e está há mais de um ano e dois meses em cartaz, em todos os locais que passa é garantia de sucesso.

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Categorias: Atena, Teatro

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