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Mestre Jonas

Por Lucas Marcelino

Parte IV: Acrilic on canvas

Duque fechou a porta do quarto com certa dificuldade, fazia anos que a porta não era aberta e as dobradiças rangiam. Os dois caminharam em direção à loja, mas Duque decidiu sacrificar as vendas da tarde, numa atitude egoísta e altruísta ao mesmo tempo, para apreciar o restante da história. Achava também que Eduardo não estava em seu melhor estado de espírito para atender clientes e se embrenhar entre os diversos balcões para procurar um disco. Sentia ainda uma necessidade que Eduardo tinha de expurgar todas aquelas lembranças que o haviam transformado quase em um indigente e que era seu único pertence além da bolsa que ele carregava da primeira vez que se encontraram.

Pediu que Eduardo se sentasse e continuasse, enquanto ele abria uma cerveja e lavava dois copos, para retirar o pó que se acumulava desde a última vez que havia recebido uma visita quase um ano atrás.

Eduardo prosseguiu sua homilia, como se houvesse preparado para defesa de um réu inocente que era acusado pela carência de conhecimento dos fatos. Mais do que nunca, na voz de Eduardo a justiça parecia ser cega. Havia um pequeno tom de inocência mas não a tentativa de aliviar sua culpa e sim mostrar que o que ele havia feito era agora um grande fardo que carregaria com a honra que se espera de um homem.

– Eu a encontrei com outro rapaz. Estava nos braços dele e sorria não um sorriso de amizade, mas de uma felicidade que há entre cúmplices enquanto executam o plano perfeito. Eduardo parou e deu um gole na cerveja enquanto Duque tomou a palavra.

– Me parece que você não entrou atrás daquele disco por causa do seu nome. Suspeito que tenha alguma mensagem camuflada, alguma música que represente essa fase.

Eduardo parou, olhou os desenhos da toalha que estava na mesa, desviou o olhar para o vitrô da cozinha que dava pra porta do fundo da loja. Encheu o copo com mais cerveja, sem se preocupar com a espuma que se formava, tomando a maior parte do copo, e começou a falar vagarosamente.

– Na verdade, nem sobre meu nome o disco fala, eu não me chamo Eduardo. Meu nome é Norberto. Nada mal pra um artista não é, se você pensar que Chico Buarque é um Francisco e Tim Maia um Sebastião. Mas na hora eu não tinha o que falar e acabei inventando essa história para manter o assunto. Na minha situação eu precisava fazer novos contatos.

– Eu imaginei que não houvesse somente verdade aí. Mas desembucha logo, agora acho que a gente tem um laço de confiança.

– Você é a única pessoa que eu tenho pra falar, mesmo que fosse meu pior inimigo eu não agüentaria muito tempo.

– Então para de enrolar Eduardo. Bom, vou continuar te chamando de Eduardo, tudo bem. Durval sentou-se e apoiou os cotovelos na mesa levando o copo à boca. Pegou um amendoim do prato e começou a mastigar esperando que Eduardo – achava estranho trocar de nome assim de repente – começasse a falar.

Tudo bem. Alegou Eduardo que também preferia esse nome. Eu resolvi não surpreender os dois da primeira vez. Mas quando encontrei com eles novamente, esperei que o amigo dela se fosse e comecei a falar o que tinha visto. Claudia tentou argumentar uma única vez, mas percebeu a firmeza no que eu dizia e acabou por condescender e passar para as desculpas.

– Eu não podia aceitar, mas também não podia deixá-la. O jovem pintor continuava com sua lamúria – Ainda era tudo recente e eu não tinha parado pra ponderar sobre o que aquilo representava. Decidi deixar tudo como estava. Fui pra casa de um amigo e ele me apresentou uma música dizendo que retratava minha situação. Quando ele começou a rolar Acrilic on canvas eu não me mexi até ouvir a última frase. Era uma música inebriante. Mesclava uma letra completamente soturna e perturbadora, com metáforas sobre pintura, e uma melodia completamente dançante. Sem contar a voz poderosa do Renato que parecia fazer uma ameaça, na minha cabeça veio a imagem de um assassino torturando verbalmente sua vítima. Aquilo entrou na minha mente e eu fui pra casa misturando vários sentimentos. Quando cheguei em casa pintei dezenas de quadros com as flores amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim exatamente como no fim da música. De repente uma ira e um sentimento de vingança me dominaram e cada vez que eu ouvia a música, repetidamente, eu tinha mais desejo de tornar aquela letra uma realidade.

Duque reavaliava se fizera bem em ter depositado tanta confiança em alguém que estava prestes a anunciar-se um assassino. Não sabia o que decidir, mas quis ouvir a história até o fim. Eduardo falava sem parar.

– Fui até a faculdade no dia seguinte, decidido a acabar com minhas angústias. Durante a noite tramei um plano. Ao encontrar com a Claudia esperei o momento que ela saiu pra cumprimentar uma amiga e retirei a chave da casa dela que estava na sua bolsa. Saí de lá e fui direto pra sua casa. Entrei na sala que tinha um aspecto antigo, coisa de universitário metido a artista, e comecei a pintar um quadro com seu rosto. Revirei toda a casa a procura de material que pudesse usar na pintura. Reproduzia na minha cabeça a música que citava batom e tintas inventadas e recolhi tudo que fosse útil. Encontrei um estojo de maquiagem e usei como material de pintura. Blush, lápis, rimel, tudo se encaixava na minha paranóia e eu achava formas de usá-los no desenho. Quando ela chegou a casa, eu vi pela janela que estava procurando as chaves do portão. Fiz um barulho e ela percebeu que alguém estava lá. Da forma que eu havia imaginado, ela resolveu entrar ao invés de procurar ajuda.

– Me encontrou sentado numa poltrona, encarando-a e olhando para a porta em segundo plano. Eduardo simulou a posição em que estava no momento em que Claudia havia entrado na casa. Encarava Durval, mas focalizava no mesmo vitrô que estava atrás dele.

– Quando ela entrou o telefone tocou. Eu atendi antes dela e respondi sussurrando: Sinto muito, ela não mora mais aqui! Tudo que eu fazia remetia aquela letra. De repente a sua expressão mudou de surpresa pela minha presença para um aspecto mais curioso. Eu me levantei e pude perceber que meu corpo fervia. Andei em sua direção e ela percebeu que eu estava com algum intuito diferente. Ela foi se desvencilhando de mim, encostada na parede, ia fugindo pelos cômodos. Na verdade eu não tinha certeza da minha decisão e ela parecia saber e começou a falar:

– O que aconteceu, você não disse que estava tudo bem, por que está agindo dessa forma? Eu nem sei o que pensar.

– Você não é diferente de qualquer outra mulher adúltera. Será que não merece o mesmo fim? Se ao menos tivesse me dito que eu não era tudo na sua vida. Eu iria aceitar, mas é fascinante o tamanho do ego quando temos a possibilidade de enganar pessoas, não é?

– Mas eu não queria te enganar, eu estava com um amigo…

– Sempre as mesmas desculpas, mas desculpas nem sempre são sinceras. Quase nunca são.

– Eu juro que isso não vai se repetir, nunca quis te machucar.

– Eu também não, mas agora não sei mais qual é minha vontade. Todo artista tem que ter um momento tenso na sua trajetória. Rick Wakeman bateu no Salvador Dali, Picasso fugiu da guerra e Chopin era um tuberculoso viciado em sexo. Talvez isso inspire minhas obras futuras.

Eduardo fez uma pausa e voltou a falar agora narrando o prosseguimento dos fatos. Deu outro longo gole na cerveja, se jogou na cadeira como se estivesse enfastiado e abriu os braços numa posição de quem quer dizer que não tinha o que fazer. Duque esperava que ele expusesse a cena do crime com os mínimos detalhes que um pintor pode dar, produzindo um quadro perfeito do crime, mas Eduardo falou com serenidade:

– De repente, enquanto eu continuava aquele discurso enfadonho que servia mais para assustar a Claudia, eu ouvi passos nas escadas da casa. E três homens entraram pela porta da sala. Se alojaram no canto e um deles apontou uma arma para mim.

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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