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A idade dourada tem a cor cinza

por Rafa Albuquerque


Na estação da Sé, em seu horário de pico, ele entra no metrô naturalmente, empurrado pela multidão. A cada passo que consegue completar, sente que venceu uma batalha. Mas seu caminho não é feito de flores, nunca foi, e mesmo com o chacoalhar do trem, empurrões e cotoveladas dos jovens que o atrapalham, o idoso chega ao seu reino no vagão. Lá, é ele quem manda; mas lá, o seu trono é cinzento e sem estofado.

Epopéias assim se tornaram banais não apenas no metrô, mas em todos os locais públicos do nosso país que, com orgulho, diz que seus filhos estão envelhecendo. Mas, apesar de ser um fato, muitos de nós ainda acredita que realmente o único lugar reservado aos mais velhos é um solitário banco ao lado da porta, ocm pouco mais de um metro quadrado.

Confesso que apenas comecei a pensar mais sobre esse assunto quando fui expulso do tal “assento especial” por uma senhora na estação Tietê. “Sai, sai daí pra eu sentar!”, foi o que ela se limitou a resmungar para mim. Levantei coberto por constrangimento e só fui parar o mais longe possível.

Passado o susto, vi o quanto ela estava certa, e desejei que todos os idosos tivessem a mesma atitude com pessoas que fingem não vê-los, como eu fiz naquela vez. É nítido que, tanto o governo do país como a própria população, ainda não estão preparados para lidar com esse público que necessita de mais cuidados. Por mais que já vigore o Estatuto do Idoso, dificilmente os 10% de assentos reservados e garantidos pela lei estão sempre disponíveis.

Ainda no metrô, uma senhora ao meu lado folheava a revista semanal Veja justamente — ou ironicamente — na entrevista do ex-jogador de futebol Pelé. A publicação de 4 de março de 2009 estampava, em letras garrafais, uma citação do entrevistado em que comentava sobre sua aposentadoria: “Já posso pegar ônibus de graça e pagar meia entrada no cinema”, disse. Mas faltou alguém para avisá-lo o quanto é difícil pagar a entrada do cinema, mesmo que seja pela metade, com o salário concedido pela previdência social aos aposentados.

Comecei a ver como esse descaso nos transportes públicos se torna apenas um mero detalhe quando olhamos para as ruas, para o sistema bancário, para a previdência social e os meios de comunicação. É incrível como as agências financeiras adoram fazer empréstimos para aposentados! O governo terá de trabalhar, e muito, para reformular todos os setores e tornar mais confortáveis os serviços prestados aos contribuintes envelhecidos, como hospitais públicos, por exemplo, e ao mesmo tempo educar gradativamente a nossa sociedade para recebê-los.

Reservar assentos especiais em ônibus e metrôs, mesmo sendo essenciais e um direito que deve ser cobrado, é completamente inútil com uma população que se limita a respeitar esses valores apenas nos locais preferenciais. Dessa maneira, em seu canto no metrô, o papel dos velhos na sociedade começa a ser isolado, esquecido e vai se tornando cada vez mais… cinza!

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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