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Mestre Jonas

Parte III: Claudia

Com a nova decoração nas paredes a loja ganhou um aspecto singular e passou atrair a atenção de pessoas que passavam pela rua e viam através da vidraça, que tomava conta de grande parte da fachada, o enorme desenho que circundava toda a loja. Muitos paravam curiosos e questionavam quem eram aqueles que estavam retratados, o que rendia horas de conversas e vez ou outra despertavam o interesse por aqueles círculos pretos que há tanto fizeram a alegria da maioria das pessoas. Havia ainda o aquecimento do mercado de discos, que nunca haviam deixado de serem produzidos na Europa, e as compras aumentavam substancialmente. Duque não achava conveniente trazer discos importados por conta do alto valor que causaria baixo lucro. E tirando lançamentos de artistas novos, ele poderia conseguir com amigos que mantinham outras lojas atender todos os pedidos dos clientes, sem contar que era mais atraente ter edições antigas ou até mesmo originais de época que se tornaram raridades com o tempo. A cada nova edição lançada o valor diminuía e os colecionadores buscavam encontrar as primeiras prensagens

Duque resolveu contratar Eduardo para trabalhar na loja. Cedeu como parte do pagamento, que ainda era baixo por causa do longo tempo de marasmo nas vendas, um quarto com banheiro que havia no fundo da loja. O quarto ficava em um pequeno quintal quadrangular com chão de cimento, de onde brotavam pequenos ramos por entre as rachaduras. Num canto do quintal havia uma bicicleta velha que demonstrava, pelos pneus murchos e o banco empoeirado, ter sido usada muito tempo. Havia ainda uma cadeira de praia um pouco dilacerada que deveria ter sido jogada fora a pelo menos uma década e serviu de descanso para as sestas que o Duque costumava tirar no horário de almoço.

Duque abriu uma porta branca antiga de madeira fabricada com uma técnica de colagem de estreitas ripas na vertical, muito usada atualmente para fabricar divisórias. A fechadura que ficava a direita da porta havia sido colocada ao contrário, de forma que se devia girar a chave no sentido horário para abrir. Dentro do quarto além de camadas de poeira que cobriam tudo, havia uma escuridão de anos que resistiu mais que a lâmpada, que fez questão de não acender. Na parede frontal à porta havia uma cama de solteiro e seus traços na madeira revelavam que havia sido fabricada provavelmente por alguma pequena marcenaria da região. O colchão estava revestido em um lençol com desenhos de tulipas e que Eduardo puxou em uma ponta, evitando balançá-lo para não levantar mais poeira no quarto, o que obrigaria uma retirada de emergência. Ao lado da porta a luz do Sol que parecia relutar a entrar no quarto, revelava uma cômoda com cinco gavetas e que suportava um velho toca discos. Havia ainda um quadro de um artista negro, que Eduardo não conseguiu identificar no escuro que tomava metade do ambiente e uma pequena mesa que havia sido usada pelo agora dono da casa em sua juventude para fazer os deveres de casa.

– Passei muito tempo nesse quarto durante minha juventude.  – Disse Duque -, mas não me lembrava desse quadro.

– Quer dizer que essa casa era da sua família?

– Sim e eu acabei ficando por aqui quando abri a loja. Nessa mesa eu escrevia e desenhava minhas fantasias, viajava pela história nos meus tempos de faculdade.

– E por que largou ele trancado tanto tempo?

– Existem coisas que a gente tende a esquecer. São fatos, pessoas, atitudes que a gente muitas vezes ainda carrega, mas que não fazem mais parte do dia-a-dia. Duque disse e se preparou para a pergunta que ele guardava há alguns dias. – E você o que resolveu esquecer num quarto do seu passado, ou trancafiar em uma cela?

Eduardo havia percebido que existia uma necessidade de revelar seu passado para o seu novo amigo e assim eliminar qualquer desconfiança. E valorizando a oportunidade que o homem ao seu lado havia lhe dado resolveu dedicar-lhe o título de melhor amigo e começou a abrir um quarto escuro onde tinha deixado uma parte da sua vida para trás.

– Olha Duque, eu percebi desde a primeira vez que eu entrei na sua loja a forma como você me encarava e realmente não tenho porque te incriminar. Minha história é até agradável aos ouvidos de alguns. Para começar eu lembro que você me julgou um delinqüente.

– A primeira impressão, da forma que você entrou na loja. Não podia te considerar um sacerdote, mas me desculpe por isso.

– Tudo bem. Na verdade eu havia realmente saído de um centro de detenção. Mas são erros que a gente comete que nos ajudam a acerar o futuro.

– E qual o motivo pra você parar num presídio? Duque não sentia culpa e nem moldava a forma do interrogatório. Na verdade ele sentia que havia uma espontaneidade ali e pensava estar atuando como um psicanalista, ajudando Eduardo.

– Eu era um artista de rua. Pintava quadros numa praça do centro, um ambiente onde se reuniam muitos dos pseudo-intelectuais que se formam diariamente nas faculdades. Lembro-me de arrumar minhas coisas onde sempre ficava e ao levantar a cabeça me deparei com uma admirável garota. Ela era aquele tipo de universitária que anda de saia rodada ou saia de algodão estampada, que não revela as curvas mas tem um charme só de mostras os tornozelos. Estava vestida com uma saia dessas, uma blusinha branca bem leve, tinha uma flor no cabelo e usava uma sandália leve fabricada artesanalmente, provavelmente comprada nessas feiras que se espalham pela cidade. Parecia uma dessas novas cantoras de MPB. Totalmente clichê. Eu via várias passando pela praça todos os dias, mas ela de alguma forma prendeu meu olhar. Enxerguei-a como a um quadro de Van Gogh, cada ponto por menor que fosse estava exatamente no lugar certo. Seu nome era Claudia e acabamos fazendo amizade naquela tarde. Ela faltou à aula e eu larguei meu ganha-pão por alguns momentos. Conversamos sobre vários assuntos até eu descobrir que ela também era fascinada por pintura e tinha um conhecimento muito vasto. Era como se alguma mulher adentrasse a loja hoje e citasse toda sua coleção de discos raros.

– Eu sei como é. Todo mundo já passou por isso um dia, de alguma forma. Disse Duque interrompendo um pouco o rapaz que falava pausadamente mas de forma contínua.

– Começamos um namoro e eu passava na faculdade pra buscá-la. Ela tinha muitos amigos e eu fiz amizade com todos eles, vários até elogiavam meu trabalho. Todos os dias eu pintava quadros dela ou sobre algo que ela gostasse e a presenteava quando nos encontrávamos. Eduardo falava olhando para o alto, como se buscasse ar para liberar as palavras.

– Um dia eu tinha pintado um girassol, que era sua flor preferida. Quando fui encontrá-la resolvi fazer uma surpresa e esperar dentro da faculdade. Encontrei-a com outro rapaz da faculdade que eu não conhecia. Eu sabia que as mulheres não se contentam com amor, contudo não esperava que ela pudesse ser apenas mais uma aluna como qualquer outra, que tem predisposição a demonstrar sua vulgaridade numa festa ou em um barzinho com os amigos confirmando o que todos comentam o ano inteiro sobre o que fica escondido atrás de um rosto angelical.

Duque não se dispunha mais a interromper, somente podia sentir a agonia que Eduardo tinha dentro de si ao expor todo o sofrimento que tinha passado. Mas a história parecia estar apenas no começo e sem chances de final feliz.

Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Revista Laboratorial Eletrônica Pandora
São Paulo – SP – Brasil

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Categorias: Crônicas do Olimpo

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