Anúncios

Mestre Jonas

Lucas Marcelino

Parte I: O INÍCIO

-Boa tarde, algo especial? Perguntou Duque para o rapaz, que estava ali parado há uns 15 minutos. Na verdade ele parecia nem estar ali, tamanho era o desgaste da sua aparência. O rapaz virou-se, largou um disco que tinha em mãos e encarou Duque com uma cara de quem analisa a escalação do time antes do início do jogo. Como se procurasse pelo destaque do plantel que ele não conseguia encontrar na lista, olhava para Duque e mexia a cabeça. Aparentava conhecê-lo. Depois de alguns segundos disse:

– Você tem o Legião Dois?

– Qual? Perguntou Duque, sem entender bem o que o rapaz tinha dito.

– O disco Dois da Legião Urbana.

– Há sim, esse não é muito raro. Mas você “tá” mais pra Woodstock do que pra anos 80.

– É que eu adoro esse disco, fez parte da minha vida por um tempo.

– Ah, isso acontece com todo mundo. Sabe que eu já ouvi até o Gesse – Duque disse e riu. Mas o rapaz não compreendeu se o homem atrás do balcão ria dele ou para ele.

– Bom, em todo caso, acho que ele me agrada o suficiente para que eu  comprá-lo.

– Com certeza e eu estou aqui como um cupido para tornar esse encontro possível. Duque parou e agora analisava os braços do rapaz.

– E quanto é? Perguntou o jovem que percebia a curiosidade com que Duque olhava pra sua mão esquerda e sua tatuagem mal desenhada, quase apagada.

– Eu acho que você não se interesse por ele apenas. Mas como o movimento anda fraco ultimamente é bom você ter trocado, assim eu não preciso pedir dinheiro emprestado para o troco. Duque dizia isso com um tom desconfiado que o rapaz logo percebeu.

– Tudo bem pode ficar tranqüilo, meu dinheiro é todo em moedas.

Duque olhava agora para a bolsa do rapaz. Parecia vazia, mas tinha algum objeto no fundo da mochila e que pareceu ser um instrumento útil para um roubo. Aos poucos a imagem do bolso sendo esvaziado parecia iminente e não havia nada pra fazer nem ninguém para ajudar.

Quando o rapaz tirou a mochila das costas num movimento rápido e a colocou sobre o balcão, Duque sentiu o peso que a mochila tinha e segurou a mão do rapaz antes que ele abrisse o zíper.

– Você não vai levar esse disco nem nada que tem nessa loja. Duque encarava o rapaz e mantinha a mão dele à vista tentando esforçar uma visão periférica um pouco impossível pela proximidade.

– Se você me deixar pegar o dinheiro na minha mochila com certeza eu te convenço a me vendê-lo. Afinal a troca de mercadorias ficou mais fácil depois dele, acho que não vou precisar de um alisador de cabelos para você mudar de idéia.

O rapaz foi acidamente retórico ao perceber o pensamento de Duque que ele fosse um ladrão e aproveitou para fazer piada sobre o cabelo cheio e ondulado que cobria a cabeça do acusador e ia até os ombros e que parecia mantido em cativeiro pelo creme hidratante.

– Eu não confio em homens solteiros, principalmente se passaram por algum centro de detenção nos últimos meses. Sabe acho que você ainda não teve tempo de se reintegrar a sociedade e pode ser que tenha que se reintegrar aos meliantes e às quentinhas se resolver levar esse disco.

O rapaz girou a mão e passou a segurar o pulso de Duque enquanto abria a bolsa e retirava uma caixa com tintas, lápis e um pincel que antes quase perfurava a mochila. Junto havia um saco de pano cheio de moedas e notas de baixo valor. Tudo sob o olhar assustado e temeroso do agora envergonhado vendedor.

– Minha arte é marginal, mas não toma de ninguém aquilo que a pessoa não ache justo. Em troca entrego um pouco de lembrança e sentimentos diferentes que só a pintura e a música podem ceder. Por tanto acho que pagando o valor cobrado sou digno de ouvir este disco.

Duque não soube o que responder ao rapaz, mas sentindo-se corroído pela vergonha, que conseguia ocasionalmente cobrir seu orgulho, pensou em remediar a situação usando uma velha tática: a amizade. Perguntou calmamente o nome do rapaz, olhando fundo nos olhos, tentando demonstrar que havia feito aquilo com total respaldo da insegurança que assola a cidade.

– Eduardo. Pensei em algo mais criativo para assinar meus quadros. Mas sempre admirei os gostos da minha mãe. Não tenho por que rechaçar o nome que ela me deu.

– Agora consigo perceber. Você gosta tanto deste disco porque ele trás lembranças do seu passado, quando você ouve aquela música Eduardo e Mônica.

– Na verdade meu nome provem dessa música. Minha mãe era jovem nessa época e adorava a inovação poética do Renato Russo, e achava que eles eram os que mais se aproximavam do rock da época. Muitos os comparavam com Smiths ou Echo & the Bunnymen.

Enquanto Duque guardava o dinheiro na gaveta percebeu que o rapaz olhava agora uma foto do encarte em sépia, em que um casal aparece de costas olhando o mar. Ele sentia que havia algo mais ali do que uma lembrança da mãe e precisava egoistamente saber o que era. Teve de repente um lapso e como se resolvesse uma equação matemática – coisa que ele não fazia há anos – ligou rapidamente a idéia que tinha já a muito tempo de retocar a maquiagem das paredes da loja, como ele mesmo dizia, com o fato de ter um pintor ali na sua frente e propôs ao Eduardo que ele fizesse um desenho livre nas paredes, com a desculpa de dar um ar mais rejuvenescedor e original. Como uma loja de discos em um bairro decadente de São Paulo deve ser.

Continua…


Os folhetins publicados fazem parte da editoria Crônicas do Olimpo, dedicada a novos talentos literários. Os conteúdos são exclusivos da Revista Pandora. Sua reprodução parcial ou imparcial sem a autorização de seus autores é proibida. Respeite os direitos autorais.

Anúncios

Tags:,

Categorias: Crônicas do Olimpo

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: