Brasil X Bolívia

A imigração silenciosa

Presos em fábricas, 200 mil bolivianos trabalham em São Paulo

Por Adriano Lira

É muito difícil encontrar, na grande maioria dos bairros da capital paulista, imigrantes de origem boliviana. Porém, a cada dia que passa, o número de pessoas com traços indígenas e falantes de um espanhol mais arrastado que o normal só aumenta na cidade, quase que na surdina. Isso ocorre porque, normalmente, esses imigrantes se encontram nos bairros centrais da cidade – principalmente onde as roupas são mais baratas – enclausurados em fábricas, em condições insalubres de trabalho, ou vendendo seu artesanato em feiras. Esse é o panorama de mais de 200 mil bolivianos, imigrantes legais e ilegais, que vivem na cidade de São Paulo.

Os imigrantes bolivianos chegam ao Brasil em busca de melhores condições de vida. A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul: seu PIB, de US$ 28 bilhões, é menor do que o de Brasília, por exemplo. Como os países da Europa e os Estados Unidos estão cada vez mais fechados à imigração, o Brasil se torna o principal refúgio dos bolivianos, que costumam adentrar nosso território com a ajuda de agenciadores, “coiotes”, que prometem trabalho, moradia e um salário de US$ 300 a US$ 400 por mês. Os bolivianos infiltram no Brasil por via terrestre, pelas cidades de Corumbá-MT, Cáceres-MS e Foz do Iguaçú-PR, e por via fluvial, pelas cidades amazonenses de Guajará-Mirim e Manaus. Outra maneira encontrada por eles é conseguir um visto de turista, válido por seis meses, para conseguir chegar ao Brasil e permanecer aqui, mesmo com o vencimento do visto.

Os primeiros imigrantes bolivianos chegaram ao Brasil na década de 1960 e eram da classe média. Vinham fazer cursos técnicos e superiores e logo depois voltavam para a Bolívia. Após os anos 90, o processo se expandiu e o perfil do imigrante mudou. Começaram a vir para mudar de vida, ganhando um salário melhor e ajudando os parentes que permaneceram na Bolívia. “Nos últimos dez anos, o perfil desses clandestinos mudou muito. Eles vinham solteiros e mandavam dinheiro para as famílias. Trabalhavam para os coreanos, detentores dos meios de produção. Hoje trazem as famílias e sua dinâmica é a de acumular capital para montar suas próprias oficinas, trazendo outros bolivianos”, declara Paulo Illes, coordenador do Centro de Apoio ao Migrante de São Paulo.

Nos bairros do Brás, do Pari e do Bom Retiro, funcionam fábricas de roupas que abastecem tanto o mercado popular desses bairros quanto grandes lojas de shoppings, como Renner, C&A e Riachuelo. A mão-de-obra das fábricas é composta basicamente por imigrantes bolivianos, que trabalham 16 horas por dia, recebendo de R$ 0,15 a R$ 0,18 por peça costurada, totalizando um salário mensal de aproximadamente R$ 400. Muitos começam trabalhando para pagar o “coiote” responsável pelo trajeto Bolívia-Brasil, isto é, ficam algum tempo trabalhando de graça. Muitos passam a grande maioria do tempo dentro da fábrica, pois a falta de documentos (ou o confisco deles pelos patrões) pode causar uma deportação em caso de contato com um policial. O ambiente de trabalho é fechado, sem luz e ventilação. Normalmente, os imigrantes dormem na própria fábrica em que trabalham, pagando ao patrão água, luz, moradia e até a máquina em que trabalham. “Muitos patrões fazem com que o salário seja menor do que os gastos, num círculo vicioso. Com os coreanos, era bem pior do que com os bolivianos de agora. O salário é pequeno, sofremos muito, mas podemos ajudar um pouquinho nossos pais e parentes”, afirma um ex-funcionário de uma fábrica no Brás e pintor na Praça Kantuta, que não quis se identificar por ser um imigrante ilegal. Com seus quadros, normalmente paisagens, ele consegue ganhar por volta de R$ 800 mensais. “É um bom salário. Posso mandar uma parte disso para o meu país”, declara o pintor.

Não há um consenso sobre o número de imigrantes bolivianos instalados no Brasil. Segundo o Consulado Geral da Bolívia em São Paulo, há por volta de 50 mil bolivianos, incluindo os imigrantes ilegais. Porém, segundo o “Relatório de Direitos Humanos no Brasil – 2008” da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, aproximadamente 200 mil bolivianos vivem em São Paulo e cerca de 1500 chegam todo mês ao país.

Os imigrantes ilegais sofrem muito mais do que os legais, pois não têm os direitos civis plenos de um cidadão brasileiro. Crianças não vão à escola por falta de documentos e adultos temem a deportação. Porém, na prática, o Brasil é bem receptivo. É possível se tornar um imigrante legal no Brasil por quatro formas: casando com um cidadão brasileiro, tendo filhos brasileiros ou sendo filho de estrangeiros, mas nascido no Brasil, ou tornando o visto de turista permanente. “Consegui o meu visto permanente por ter um filho brasileiro”, declara Nacianceno Botero, pai de Omar, de seis anos e músico de cúmbia da Praça Kantuta. Nacianceno toca um instrumento chamado flauta-de-pã, composto de vários tubos interligados e em ordem crescente de tamanho. Todos os meses, a Delegacia de Migração da Polícia Federal recebe aproximadamente 300 pedidos de permanência de estrangeiros. Depois de avaliados pelo Ministério da Justiça, 90% dos pedidos são aceitos. Porém, após a legalização, a polícia esporadicamente visita os imigrantes. Como muitos vivem em grupo, ou em fábricas ou em pensões de bolivianos, a polícia pode descobrir imigrantes ilegais na visita. Por isso, normalmente a legalização ocorre com bolivianos com família construída, com mais de cinco anos no país.

Mesmo com um elevado número de habitantes, os bolivianos não causam influência na cultura brasileira como outros povos. Mesmo assim, todos os domingos, os bolivianos se reúnem na Praça Kantuta, no bairro do Pari, para a realização de uma feira cultural, onde são comercializados produtos artesanais, temperos e alimentos típicos do país andino, tudo isso permeado por ritmos próprios do país, como a cúmbia. A Praça não tinha nome até 2004, quando começou a feira boliviana, que batizou o logradouro em homenagem a uma flor boliviana vermelha, amarela e verde, as cores da bandeira nacional. É um dos momentos de diversão desse povo tão sofrido, que viajou até outro país para tentar melhorar a situação em que se encontravam, mas que sofrem com a saudade de sua terra natal.

“Morrer antes que viver como escravos”, diz a letra do Hino Nacional, tocado no fim das festividades, no começo da noite. Os bolivianos cantam seu hino com muito mais emoção do que quando cantamos o nosso. Logo depois, todos vão embora, dispostos a começar a rotina novamente, mas com um pouquinho mais de esperança no coração. O sonho de se tornar dono da própria fábrica fica mais vivo. E o de fazer São Paulo cada vez mais vermelha, verde e amarela também.

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Categorias: América Latina, São Paulo, Território Nacional

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7 Comentários em “Brasil X Bolívia”

  1. 25 de junho de 2010 às 0:40 #

    Eu achoo que tinha que abaixa R$ 300 reais por familia assim os Bolivianos poderia trazer sua familia para São paulo.
    Para Trabalhar , Moradia boom e viver uma nova vida

  2. marcelo monteiro
    15 de abril de 2011 às 21:21 #

    É preciso muito cuidado nessa hora. O Brasil não tem como arcar com os custos sociais de uma imigração em massa dos países vizinhos; não podemos esquecer que milhões de brasileiros passam fome, não tem emprego, moram em favelas… A melhor solução é ajudar a Bolívia a se desenvolver e, assim, ela própria ajudar os seus cidadãos.

  3. Luisa
    22 de julho de 2011 às 0:02 #

    Ótimo site me ajudou muito na minha maquete da escola!…Parabenss!!!

  4. Emanuel
    16 de agosto de 2012 às 18:29 #

    obrigado, agora posso preparar meu seminário!

  5. Antonio Nazario
    31 de julho de 2013 às 21:54 #

    Engraçado; Eu Estava Procurando Na Net Por “Fábricas De Roupas Que Abastecem Grandes Lojas No Brasil”…Me Deparei Com Essa Matéria…Espetacular! Sou Da Cidade De Corumbá-MS (Fronteira Com A Bolívia).
    Esse Povo…Andino, Hermano, Vizinho…Sofrido, Mas Batalhador!

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