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(Des)Humanos

 por Érica Perazza

            Há uma crise de valores, paradigmas nos projetos da sociedade. Esses problemas nasceram dos projetos a próprio existência do homem, voltados ao bem-estar.

 Quantos messias, profetas a rede televisiva coloca no ar para denunciarem as hipocrisias de hoje? Desde quando a TV é um espetáculo inclusive as notícias?

No filme Rede de Intrigas (Network, 1976) que fala sobre a televisão, mas mostra muito mais do que a ponta de um iceberg, é dito que “A sociedade não está apta a verdade, por isso ela é uma verdade instável.” A trama começa quando Howard Beal (Peter Finch) âncora do jornal da decadente UBS, revela ao vivo que decidira suicidar-se.  Logo, é causado um frenesi na imprensa. A Rede o tira do ar e ele será, mas como elevou os índices de audiência, ele permanece em um programa com um que de terapia.

Os americanos estão tão enfurecidos com as crises e mal sabiam o que sentir. Howard Beale, entretanto, consegue expressar o que eles sentem, o que eles queriam escutar. Ele observa como a vida é cheia de tolices, como mundo é um matadouro e mesmo assim dizem que o homem é um ser nobre. Ninguém sabe o que fazer. Só o que sabem fazer é ligar a TV e mudar de canal pelo controle remoto. O jornal virou um programa de entretenimento com direito a contadores de histórias, acrobatas e  bailarinas. Um circo maldito, um parque de diversões sem sair de casa e deparar-se com a realidade lá fora: a violência, o ar irrespirável, etc e etc.

Howard em dos seus “episódios” do seu novo programa diz que  “A única realidade que conhecem vem da televisão. A TV não é a verdade, mas é tudo o que sabem. Fazem tudo o que dizemos. Vendemos ilusões, e compram, bebem e se vestem como mandarmos. Desliguem a TV.!”  Mas ninguém desliga. Os meios de comunicação tornaram-se as extensões dos sentidos.  As pessoas não buscam suas próprias verdades, não buscam seus próprios deuses, suas próprias crenças, suas próprias vidas, seus próprios sonhos.

Em um determinado momento, Howard relata verdades que atingem os interesses da CCA. A UBS foi comprada pela CCA, que por sua vez foi “comprada” pelos árabes. A CCA pediu um empréstimo de 2 milhões de dólares e os árabes ficaram com o controle das hipotecas. E é assim. As empresas que controlam a realidade.

Segundo o dono da empresa, Jensen, “não há nações, não há democracia, não há ideologias. Há apenas um sistema entrelaçado em dólares que determina a vida no planeta. Esta é a ordem natural das coisas” – como se a empresa fosse a natureza ou até mesmo Deus. – “O mundo é criado e determinado pelos negócios.” Ele ainda profetizou que os nossos filhos viverão para ver esse mundo perfeito. Todas as necessidades serão atendidas, todas as angústias serão aliviadas.

Mas isso não aconteceu e já estamos na segunda década dos anos 2000. Existe um efeito placebo. Atingimos mais do que 100% de conforto, mas criam-se desafios imaginários como métodos. A busca é chegar além da perfeição. A luz foi acesa pelo homem, e assim podemos enxergar no escuro. Contudo, o excesso de luz nos cega. A necessidade é futilidade. As mulheres acreditam que precisam de maquiagem para ser belas, o homem acredita que precisa de um carro novo para ter mais segurança. Novas necessidades são inventadas (além das antigas que supostamente foram saciadas) e elas escapam do nosso controle. Atualmente, tudo tem solução – às vezes a própria solução vira um problema. Acreditamos sempre que precisamos arduamente adquirir um modelo mais recente, mais moderno para sermos felizes. Porém, nada disso irá nos satisfazer profundamente. Antes ainda fossemos consumistas exarcebados. Agora nos tornamos em hipocondríacos digitais. Nossa doença jamais será curada porque nunca haverá remédios suficientes. E quanto as camadas excluídas, que não têm acesso a TV, tecnologia, informação?

Há respostas, soluções? A tecnologia não supre todas as necessidades? Howard, no programa seguinte, apresenta um programa mais denso, mais depressivo, o que faz a audiência cair.

“O homem se acabou. São criaturas que parecem humanas, são humanóides.”

Será que ainda há vida real ou todos se robotizaram? A vida não possui mais mistérios e magias, tudo é explicado e descoberto pela ciência, inclusive aquilo que não se quer e ainda vira notícia como se fosse algo realmente importante. Enquanto isso, o homem percorre um caminho oposto à ciência, à indústria, oposto aos interesses do capitalismo, oposto às suas necessidades vitais. Porque não é disso que oferecem em ofertas, outdoors, comerciais que ele precisa. É isso o que ele acha, o que fazem ele achar que precisa. Ele precisa de esperança.

O homem quer, na verdade, virar uma máquina, ser tão veloz e produtivo quanto.

Ele não é mais livre, é subjulgado pela técnica que ele mesmo criou. O osso era o instrumento que servia ao homem, mas hoje, o computador “não quer” se submeter a ele. Como se uma máquina tivesse vontade própria e o humano não tivesse mais, como se ele não fosse mais humano. O computador, a TV, vieram para facilitar o que é imposto como vida.

Mas será que é possível desumanizar-se por completo?

Não estamos aqui para produzir riqueza, para nos sustentar, para sobreviver ou existir, estamos aqui para viver. Tudo foi criado a partir da consciência humana, mas agora há uma estagnação de utopias. As pessoas que querem mudar o mundo, mudam de canal. Essa é a solução. E por isso cada vez mais nos afundamos em hipocrisia. É o fim da história? O mundo vai ser para sempre assim agora por diante? Um mundo sempre repetido? E as revoluções, e as mudanças? As ideologias, as contradições? E o igual e o oposto? A história sempre tem a solução no horizonte.

Mas estamos presos, afundando, nos afogando no meio do oceano, antes de se quer chegarmos perto desse horizonte.

É a tecnologia que regula nossa vida, ela que vai mudar o mundo e não nós, e não através de revoluções. Está chegando um mundo sem problemas, perfeito, ágil, organizado, funcional eficiente. Impessoal e desumanizado. Sem registro da existência humana, e sim de sua auto-destruição. A tecnologia é duradoura, a vida é efêmera. O ser humano quer fazer e não pensar e não refletir, quer práticas sem teorias. Há uma herança de muitos séculos na qual acredita-se que é o homem o centro de tudo, mas na verdade ele não é, e aí soa como se ele houvesse fracassado em suas metas.

A vida de um dos persongens principais, Max (William Holden), diretor e melhor amigo de Howard, também é contada em meio aos bastidores da televisão. Ele se envolver com Diana (Diana Christensen), a “encarnação viva da TV” como ele próprio a define, por ela ser indiferente ao sofrimento, insensível a alegria, destruir tudo o que toca, reduzir as coisas da vida a banalidades. “Eu sou real, não pode mudar de canal!” Mas para Diana a vida é um roteiro a ser seguido, um filme, que logo após é seguido pelos comerciais.

“Você acha que é sentimentalismo, mas é decência humana.”

Ela permance impassível aos sentimentos, à vida. Preocupa-se com audiência do programa que teima em cair. Afinal, a cultura comtemporânea se vira a produção ágil e quantitativa, o conteúdo e a reflexão não importam. A cultura é promíscua. Existe um tiroteio intelectual, atiram qualquer coisa para qualquer um e nós somos vítimas – (in) constantemente (in)conscientes ? – que são atingidas pelo meio, pela mensagem.

A única chance que Diana tinha de humanizar-se, ela deixou escapar. O amor era a única coisa que mantinha um elo com a realidade, que a mantinha como humana. Mesmo com o baixo ibope, Jensen não queria tirá-lo do ar por achar que ele passava uma mensagem a sociedade.

Ela e a diretoria da rede decidem matar Howard. E ainda decidem matá-lo ao vivo. Howard Beale se torna o homem que foi assassinado por ter baixos índices de ibope. Aquilo que não é funcional, é atrasado, inútil.

Afinal, tudo tem solução.

O filme Rede de Intrigas foi premiado com quatro estatuetas do Oscar.  Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch e Robert Durvall estrela a  “a história de Howard Beale, apresentador do telejornal da rede UBS. Houve o tempo em que Howard Beale era o maior Ibope, com audiência de 28 pontos. Foi a partir de 1969 que sua audiêcnia começou a cair e no ano seguinte, sua esposa faleceu. Ele se entregou a depressão e ao alcoolismo, dando início ao maior escandâlo televisivo. Recebeu o Oscar por melhor roteiro original, melhor atriz (Faye Dunaway), melhor ator (Peter Finch) – sendo o primeiro Oscar póstumo – , além de indicações a melhor filme, diretor, fotografia, e edição.

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Categorias: Cinema

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