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Como nosso cinema era gostoso

Por Diogo Leite

No começo dos anos 20, empresas distribuidoras de filmes se instalam nas proximidades da Estação da Luz e Sorocabana a fim de escoarem mais rapidamente seus filmes, também  se instalaram ali Columbia Picture e Paramount. Aluguns anos se passaram e já na década de 60 pequenos produtores de cinema começaram a se instalar na região, o que contribuiu para que os jornais  batizassem aquela área de Boca do Lixo, onde circulavam por ali muitas prostitutas e criminosos. O primeiro produtor a se instalar ali foi Oswaldo Massaini, com a Cinedistri Ltda, em 1949. Massiini  produziu o filme “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte, única produção brasileira que ganhou a Palma de  Ouro no Festival de Cannes, em 1962.

Nos arredores da Rua do Triunfo, centro de São Paulo, a Boca do Lixo, produzia filmes de todos os gêneros,  comédias eróticas, filmes policiais, de terror e até mesmo western. Todos longas eram feitos com baixo orçamento e os atores, até mesmo os técnicos, eram inexperientes.

Nada de um escritório requintado ou um espaço exclusivo para equipe criar suas obras, o ponto de encontro dos membros do Boca era o restaurante Soberano, ali eram escritos os  roteiros,, planejavam-se filmes, enfim, se discutia o cinema na sua forma mais ingênua e que muito tempo depois iria ser referência para muitos profissionais da sétima arte.

Aquele pedaço no centro  degradado de São Paulo foi responsável por um cinema popular que levava milhões de pessoas as salas cinemas fazendo frente, inclusive, ao cinema norte americano. Os filmes eram financiados por essa bilheteria, coisa impensável nos dias de hoje.

O diferencial desse cinema para os que são produzidos atualmente é que ele dialogava com o grande público, e é injusto pensar no cinema na Boca, como aquele que só focava o sexo, a sua filmografia dirá o contrário.

Durante mais de vinte anos, a distrbuidora representava cerca de 80% dos filmes produzidos em São Paulo, essa produção chegou a passar o Rio de Janeiro com mais de 100 filmes por ano

A partir da década de 70, começou a produzir filmes eróticos cada vez mais fortes até o ano de 1982, quando foi  lançado o filme “Coisas Eróticas”, dirigido por Raffaele Rossi e Laente Calicchio, esse filme levou cerca de 4 milhões de pessoas aos cinemas.

Reza a lenda que os já  famosos testes do sofá ocorreram ali, algumas mães levavam suas filhas virgens para conseguir um papel nos filmes eróticos.

O que parecia ser o início de uma nova era na Boca do Lixo foi, na realidade, o começo de sua derrocada. Com o advento do videocassete o público deixou de  ir ao cinema e passou  a alugar os filmes para verem em casa. Por essa razão, a lucratividade cinematográfica passou a ser cada vez menor e o governo passou entender que as verbas destinadas à produção cinematográfica deveriam ser cortadas.

Com início da era Collor e a extinção da Embrafilme, o cinema brasileiro  entrou em decadência, e, consequentemente a Boca do Lixo foi se desfazendo, muitos profissionais foram trabalhar nas emissoras de televisão e outros pararam de fazer cinema.

O legado que a Boca do Lixo deixou  foi a capacidade de fazer arte cinematográfica de um jeito barato e popular que  atingia, principalmente,  o grande público. Hoje, embora o nosso cinema enfoque a realidade nacional, muitas histórias ainda estão camufladas e esperam pacientemente o interesse das grandes produtoras para reproduzí-las e fazer destas verdadeiras obras cinematográficas.

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Categorias: Cinema, Especial, São Paulo

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